25/04/2024 - Edição 540

Ágora Digital

Bahamut agradece…

Depois de usar a camisa da CBF para lutar contra a “corrupção”, gado ostenta bandeira de Israel com estrela de 5 pontas

Publicado em 27/02/2024 2:25 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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A dissonância cognitiva que impera no seio bolsonarista é velha conhecida. Se reflete há alguns anos em “rezadeiros” de pneus, alpinistas de caminhões, convocadores de alienígenas de extrema-direita, gente que jura de pé junto que o nazismo foi uma manifestação de esquerda, e doidinhos de bairro afins.

Entre os exemplos desta dissonância cognitiva está o uso da camiseta da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na cruzada da extrema direita contra a corrupção. Ora, a entidade máxima do futebol no Brasil tem sido, ao longo dos anos, palco de múltiplos escândalos de corrupção, que mancham a imagem do esporte mais amado do país. Essas controvérsias vão desde acusações de desvio de fundos e manipulação de contratos até escândalos de nepotismo e influência indevida na seleção de árbitros e na organização de competições.

Neste domingo (25), uma nova espécime de usuários de chapeuzinho de alumínio se somou à esta fauna exótica, que tropeça no tico e no teco arriscando-se a todo momento despencar da borda da terra plana. Trata-se do gado católico e evangélico que imagina ser aliado de Israel na defesa dos valores propagados por Jesus Cristo.

Uma reportagem de Maurício Businari, no UOL, mostra três exemplares deste tipo não raro de animal que anda pelas avenidas brasileiras com a camisa da CBF. Num vídeo que viralizou nas redes sociais, ele pergunta: “Por que vocês estão com a bandeira de Israel?”. Uma delas responde: “Porque somos cristãs, assim como Israel”. O repórter rebate: “Mas vocês sabem que Israel não é cristão, não é?”. E a mulher então responde: “Mas nos representa”: vale lembrar que apenas 1,9% da população israelense é cristã (segundo o Escritório Central de Estatísticas de Israel).

Agora, falando sério.

A crescente inclinação de certos setores neopentecostais para sobrepor os preceitos do Antigo Testamento aos do Novo Testamento não é apenas uma aberração teológica, mas um perigoso desvio da essência do cristianismo. Esta prática, embora mascarada de um retorno às raízes da fé, na verdade, revela uma profunda crise de identidade e uma instrumentalização da religião para fins políticos e de poder, distorcendo irreconhecivelmente o cerne do evangelho de Jesus Cristo.

A substituição do Novo pelo Antigo Testamento reflete uma tentativa equivocada de legitimar ideologias contemporâneas (com seus dogmas e preconceitos) com textos sagrados, criando uma fusão perniciosa entre fé e agenda política. Esta confusão intencional entre a Israel histórica e a bíblica não apenas trai uma compreensão superficial das Escrituras, mas também instrumentaliza a fé em apoio a estratégias geopolíticas específicas, comprometendo a integridade moral e espiritual da comunidade de fé.

Essa distorção é exacerbada pela adoção de práticas e textos judaicos, numa clara apropriação cultural que ignora as distinções teológicas fundamentais entre o Judaísmo e o Cristianismo. Esse sincretismo forçado não só desrespeita a singularidade de ambas as tradições religiosas, mas também dilui a mensagem transformadora do evangelho, reduzindo-a a um instrumento de manipulação política.

Além disso, o envolvimento de lideranças neopentecostais – alguém disse Malafaia? – nessa reorientação teológica politizada não apenas compromete a autenticidade da experiência religiosa, mas também polariza a comunidade de fé, alienando aqueles que buscam na religião um refúgio para a alma e não um campo de batalha ideológico. A religião, desta forma, é despojada de sua capacidade de inspirar amor, compaixão e justiça, tornando-se um veículo para o sectarismo e a intolerância.

Mais do que nunca, é necessário que vozes dentro das comunidades cristãs se levantem contra essa deturpação da fé. É imperativo reafirmar os princípios do Novo Testamento, centrados no amor, na graça e na misericórdia divina, como fundamentos inalienáveis do cristianismo. A resistência a essa tendência neopentecostal não é apenas uma questão de preservação teológica, mas uma luta pela alma do cristianismo, desafiando o uso da fé como ferramenta de poder e reivindicando sua verdadeira vocação como fonte de esperança, cura e reconciliação para um mundo fraturado.

Agora zoando, de novo.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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