23/04/2024 - Edição 540

Ágora Digital

A face da desordem e do cinismo

Encurralado entre a milícia e a polícia, o carioca precisa reinventar o Rio de Janeiro

Publicado em 25/03/2024 1:15 - Victor Barone

Divulgação Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

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Seis anos e 10 dias após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e do motorista Anderson Gomes, uma nova pergunta se impõe: quem determinou que o então chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, travasse as investigações?

Sabemos que dois matadores profissionais foram os autores do crime – o ex-policial militar Elcio Queiroz, que dirigia o veículo que perseguiu o carro de Marielle pelo centro do Rio, e Ronnie Lessa, também ex-policial militar, que de dentro do veículo pilotado por Queiroz disparou os tiros fatais.

Agora, ao que tudo indica, ficamos sabendo também que dois políticos de alto prestígio na sociedade carioca – ambos com livre trânsito na Assembleia Legislativa do Estado e no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro – foram os mandantes do crime: os irmãos Chiquinho (deputado federal pelo União-Brasil) e Domingos Brazão (conselheiro do TCE-RJ)

Todos eleitores de Bolsonaro.

Mas é o envolvimento do nome de Rivaldo Barbosa que mais causa asco.

Nomeado chefe da Polícia Civil do Rio às vésperas do assassinato de Marielle, o delegado agiu como um consultor dos matadores – o que lhe rendeu R$ 400 mil – orientando-os para que fizessem o melhor trabalho possível. Foi dele o conselho para que a vereadora não fosse morta na saída da Câmara dos Vereadores, segundo contou Lessa em delação à Polícia Federal; pois assim o crime seria mais facilmente caracterizado como “político”, e caberia à Polícia Federal investigá-lo. Mais tarde, tumultuou as investigações, patrocinando a troca de cinco delegados durante o inquérito.

Mas o mais espantoso é que Barbosa ganhou a confiança da família e de amigos de Marielle. Foi o primeiro a saber do crime pelo então deputado Marcelo Freixo (PSol). Fez questão de ir ao enterro da vereadora. Abraçou a mãe, a irmã e a viúva da vereadora, emocionando-se ao pé do caixão que guardava o corpo.

O cinismo de Rivaldo Barbosa é doloroso, mas não é a exceção no Rio de Janeiro.

O que dizer de um Estado no qual todos os ex-governadores eleitos pelas urnas desde a redemocratização, em 1985, e que estão vivos, já passaram pela cadeia ou acabaram sendo afastados do cargo.

Luiz Fernando Pezão (2014-2018), Sérgio Cabral (2007-2014), Rosinha Matheus (2003-2007), Anthony Garotinho (1999-2002) e Moreira Franco (1987-1991) foram presos. Apenas Nilo Batista (1994-1995), que assumiu o cargo quando Leonel Brizola renunciou para se candidatar à Presidência da República, e Benedita da Silva (2002-2003), que assumiu após Garotinho renunciar para disputar a Presidência, não foram presos, nem afastados. O atual governador, Claudio Castro, não foi preso, nem afastado, mas já teve sigilo fiscal, bancário, telefônico e de mensagens quebrado por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em meio a uma investigação sobre corrupção.

Além de Rivaldo Barbosa, outros ex-chefes de polícia do Rio também já foram presos. Em, 2008, Álvaro Lins, por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. No mesmo ano, Ricardo Hallack, por corrupção, formação de quadrilha e também lavagem de dinheiro. Em 2022, Allan Trunowski por suspeita de organização criminosa e envolvimento com o jogo do bicho.

O Rio de Janeiro precisa se reinventar. O carioca está encurralado entre a milícia – que ocupa o papel do Estado em 75% do território – e a polícia – que se perdeu em seu papel institucional e transformou-se em um puxadinho da contravenção e do crime.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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