21/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

Meu nome, Bernardo

Publicado em 09/05/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Tobias, aos 15 anos, não tem mais onde morar desde quando sua mãe o expulsou de casa. Mora em casa de amigos ou, quando consegue um acordo com o patrão da vez, no trabalho. A expulsão aconteceu há dois anos sob a acusação de que ele tinha quebrado o armário da cozinha. Rita, de 16 anos, já sabe que é lésbica, é tratada como uma aberração pela própria família, mas convive com um tio que molesta sexualmente seu primo de cinco anos. A família inteira sabe do assédio, mas todos ignoram o assunto.

Priscila de 15 anos se jogou, às três da tarde, do terceiro andar da escola onde estudava. Seus colegas de sala estavam em aula de educação física. Os moradores de rua, frequentadores da redondeza, alunos e passantes testemunharam o fato. A queda se deu de frente para a rua e uma praça. A imprensa ignorou o suicídio da adolescente. O padre, durante a homilia da missa de sétimo dia, culpou a própria família de Priscila. Eles não rezavam, por isso foram punidos. A direção da escola onde a jovem estudava, frisou de sala em sala que adolescente não tem problema algum a ponto de tirar a própria vida. Não houve acolhimento dos alunos por parte da escola, apesar de o corpo ter ficado estendido no chão e de vídeos sobre o ocorrido terem sido publicados em rede social.

Histórias como a de Renato Boildrini acontecem bem debaixo do nosso nariz, neste exato momento, e optamos por deixar de lado.

Ricardo namorava Tina, ambos com 17 anos. Cansado de tanto ciúme da namorada, Ricardo rompeu com a garota. Ela preparou um coquetel de remédios e tentou suicídio. Os pais de Tina passaram a ligar insistentemente para Ricardo culpando-o pelo ocorrido. Na opinião deles, não se deve contrariar Tina. Ricardo, após o ocorrido, só fala em suicídio. Ele reclama dos pais que nunca o escutam e o tratam como escória. Tem sido difícil, para ele, recomeçar e está cansado de ouvir que “é preciso ter fé”. Ricardo quer saber por quê ninguém nunca o escuta e quando a dor que ele sente vai passar.

Julinha tem apenas 4 anos. Ela foi levada pelo tio de 80 anos para o banheiro da casa, onde acontecia um churrasco, e foi molestada. O pai soube do ocorrido pela filha e também porque constatou lesão na área genital da menina. Ninguém fez boletim de ocorrência, houve um constrangimento a princípio, mas logo depois todos voltaram a frequentar a mesma casa, para novos churrascos. A situação é muito delicada, foi o consenso.

Pedrinho tem 7 anos e vivia amarrado nos fundos da casa dos tios, junto com os cachorros. Ele sofria torturas e passava fome. A polícia o resgatou há pouco mais de um ano. A mãe de Pedrinho morava no mesmo bairro, mas nunca se importou com o filho. Não se tem notícia do pai do garoto.

Após a morte de Bernardo Boldrini, grande parte da comoção era também por conta do garoto, de 11 anos, ter procurado o Ministério Público Federal (MPF), em janeiro deste ano, para pedir que ele fosse encaminhado para morar com outra família. Ele reclamava da falta de afeto do pai e implicância da madrasta.

Não entendo o espanto. Histórias como essa acontecem bem debaixo do nosso nariz, neste exato momento, e optamos por deixar de lado. Tomar atitude significa desgaste e discussão. Me parece que há muito mais Bernardos por esse mundo do que a nossa covardia possa sequer um dia admitir.

Quando o pior dos desfechos se concretiza à nossa frente, então choramos e nos lamentamos. Acredito que, muito mais movidos por sentimento de culpa do que por compaixão. De fato, somos omissos.

* Todos os casos aqui relatados são reais. Os nomes foram alterados conforme prevê o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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