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Teatro do Mundo

Hoje sou outro

Amanhã, já não serei

Publicado em 24/04/2026 2:01 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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Hoje sou outro.

Amanhã, já não serei.

E não há tragédia nisso —

há fluxo.

 

O mundo não pede licença para mudar,

não consulta tradições,

não respeita a ilusão de permanência.

A natureza não é conservadora:

ela é vertigem,

é processo,

é um verbo que nunca se conjuga no passado.

 

Você insiste: “eu sou”.

Mas o “sou” já escorreu pelos dedos.

Nem você é o mesmo,

nem o rio que te atravessa.

Banhar-se é perder-se —

e é nesse perder-se que algo nasce.

 

Tudo vem de fora.

O dentro é só uma dobra.

Um eco domesticado do mundo.

Chamamos de identidade aquilo que conseguimos segurar por um instante,

como quem tenta conter água nas mãos

e chama isso de forma.

 

A cultura — ah, a cultura —

é o delírio mais sofisticado da matéria.

É o pacto invisível que transforma pedra em símbolo,

som em linguagem,

ausência em presença.

Ela inventa o que não existe

e, ao inventar, faz existir.

 

Somos ficção que acredita em si mesma.

Narrativa que esqueceu que é narrativa.

Sonho que desaprendeu a acordar.

 

E talvez tudo tenha começado ali:

no fogo.

No gesto inaugural de transformar o cru em cozido,

de intervir no destino da matéria,

de dizer à natureza: “não basta ser — eu reinvento”.

 

Foi nesse instante que o humano deixou de apenas viver

e passou a interpretar a vida.

 

E no jardim, dizem,

um aviso foi dado — não como proibição,

mas como ironia.

 

“Não queiras ser Deus.”

E o toque no ombro não era ameaça:

era cumplicidade.

 

Porque querer ser Deus

é exatamente o que nos move.

É o que nos condena

e nos cria.

 

Somos esse erro fértil,

essa desobediência produtiva,

esse intervalo entre o que é

e o que poderia ser.

 

Nada está fixo.

Nada está pronto.

Nada é.

 

Tudo está sendo.

 

E se há alguma verdade possível,

ela não mora na certeza,

mas na travessia.

 

Aceita:

você não é você.

Você está.

E já está deixando de estar.

 

Isso não é perda.

É potência.

 

Isso não é fim.

É devir.

 

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FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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Fernando Lopes Lima


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Uma resposta para “Hoje sou outro”

  1. Sylvia Cesco disse:

    Descobrir também sua criação literária, densa e sensível, tem sido um tocante e inesgotável exercício de reflexão, amigo Fernando. Que texto!

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