25/05/2024 - Edição 540

Poder

Comitê dos EUA que atacou Brasil é chefiado por aliado do golpismo de Trump

Musk telegrafou para Xandão drone que disparou nos EUA

Publicado em 18/04/2024 1:01 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Salon/Getty Images

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O Comitê de Assuntos Jurídicos da Câmara dos Estados Unidos, que divulgou relatório citando uma suposta censura à liberdade de expressão ao Brasil e criticando decisões do ministro do STF Alexandre de Moraes, é presidida por Jim Jordan, deputado republicano apontado como fundamental nos esforços de Donald Trump para tentar subverter as eleições de 2020 pela própria Câmara.

O relatório final do Comitê da Câmara dos Deputados para investigar o ataque de seguidores de Trump ao Congresso dos EUA para tentar impedir a certificação da vitória de Joe Biden, em 6 de janeiro de 2021, afirma, em sua página 141, que o republicano Jordan foi um “um ator significativo nos esforços do presidente Trump” para tentar virar a mesa.

Segundo o relatório, ele “participou de várias reuniões pós-eleitorais nas quais altos funcionários da Casa Branca, [o advogado de Trump] Rudolph Giuliani, e outros, discutiram estratégias para contestar a eleição, a principal delas afirmando que a eleição tinha sido contaminada por fraude”.

No dia 2 de janeiro de 2021, quatro dias antes do ataque ao Congresso que terminou com cinco mortes e dezenas de prisões, Jordan coordenou uma teleconferência com Trump e outro congressistas para “discutir estratégias a fim de atrasar a sessão conjunta de 6 de janeiro” que certificou Biden como o vencedor.

Durante essa reunião, segundo o relatório do comitê criado pela Câmara, o grupo discutiu a divulgacão de postagens nas redes sociais para empurrar os apoiadores de Trump para “marcharem para o Congresso” no dia 6. Tal como no 8 de janeiro no Brasil, as publicações em redes foram consideradas fundamentais para os atos golpistas.

Logo após essa reunião, Trump e Jordan conversaram por telefone por 18 minutos. No dia da invasão ao Congresso, ambos conversaram por telefone, pelo menos, duas vezes. O deputado também recebeu ligações de Rudolph Giuliani.

“Nos dias que se seguiram ao 6 de janeiro, o deputado Jordan conversou com a equipe da Casa Branca sobre a perspectiva de conceder perdões presidenciais a membros do Congresso”, afirma o relatório. Ou seja, buscava anistia para si e os colegas.

O comitê especial também pediu para que as recusas do deputado em testemunhar fossem avaliadas pelo Comitê de Ética.

Durante as eleições, Jordan acusou o Partido Democrata de “tentar roubar” as eleições e, no dia seguinte ao pleito, afirmou que algo estava errado na Pensilvânia, um dos estados que influenciaram na eleição de Biden. Ele também foi um dos parlamentares que votou pela anulação das eleições, posição derrotada no Congresso.

Ex-campeão de luta-livre e eleito pelo Estado de Ohio, Jim Jordan é considerado um dos mais radicais apoiadores de Trump no Congresso dos Estados Unidos, tanto que recebeu apoio explícito deste para sua candidatura à Presidência da Câmara.

Contudo, mesmo em uma casa controlada pelos republicanos, ele não foi capaz de formar maioria após duas votações, não contando com o apoio de todos os membros de seu partido. Pesou contra ele métodos considerados agressivos e desleais pelos colegas.

Desde que se tornou congressista em 2007, Jordan não aprovou nenhum projeto de lei, de acordo com o Center for Effective Lawmaking, que o classifica como um dos legisladores menos eficazes da Câmara dos Deputados. Mesmo assim ele é apontado como recordista de aparições na Fox News, canal que se notabilizou por seu apoio ao trumpismo, entre todos os demais congressistas.

Em 2015, ele apoiou a “Emenda de Proteção ao Casamento”, a fim de mudar a Constituição dos EUA definindo legalmente o casamento como uma união entre um homem e uma mulher. O projeto nunca foi para aprovado.

Musk telegrafou para Xandão drone que disparou nos EUA

Elon Musk incorporou o método dos aiatolás do Irã. Telegrafou o ataque com 72 horas de antecedência. Esboçou na segunda-feira, em documento entregue ao Supremo Tribunal Federal, o vazamento de decisões sigilosas de Alexandre de Moraes feito nesta quarta-feira por uma comissão do Congresso dos Estados Unidos. Subscrito por advogados da X Brasil, o documento camuflou a investida sob parágrafos bem-comportados.

As ordens do Supremo serão “integralmente cumpridas”, anotaram os prepostos de Elon Musk, antes de avisar que o Comitê Jurídico da Câmara dos Estados Unidos havia intimado a matriz da plartaforma a entregar “todas as ordens” de Moraes “relacionadas à moderação, exclusão, supressão, restrição ou redução da circulação de conteúdo”, além do “bloqueio de contas”.

Numa vã tentativa de lavar as mãos de Musk, a X Brasil disse no ofício que “registrou à autoridade norte-americana que os referidos documentos solicitados são confidenciais e se encontram resguardados por sigilo judicial”. Alegou ter solicitado a manutenção da “confidencialidade”. Comprometeu-se a avisar o Supremo sobre desdobramentos “relevantes”, tudo “em nome da transparência.”

Deu-se o previsível. Comandado pelo deputado Jim Jondam, devoto de Donald Trump e admirador de Bolsonaro, o comitê da Câmara norte-americana levou decisões de Moraes à vitrine, apresentando-as como parte de uma “campanha de censura no Brasil.” O relatório anota que o Supremo e o TSE ordenaram a exclusão de 150 perfis do X.

Num esforço para misturar Executivo com Judiciário, o trumpismo sustenta a tese de que o “governo brasileiro” tenta forçar a rede de Musk e outras plataformas a censurar mais de 300 contas.

Avisado com antecedência, Moraes poderia ter se vacinado contra o ataque terceirizado por Musk a deputados americanos. Abstendo-se de levantar os seus próprios sigilos, o relator-geral da Rpública assiste à queda do drone inimigo num local onde seu domo de ferro não funciona.

União Musk-Milei reforça aliança internacional da direita jurássica

Em meio ao salseiro produzido por Elon Musk no Brasil, o presidente argentino Javier Milei encontrou-se com o bilionário sul-africano na fábrica de carros elétricos Tesla, no Texas. A pretexto de atrair investimentos para a Argentina, Milei ofereceu ao detrator de Alexandre de Moraes “colaboração neste conflito entre a rede social X no Brasil e o marco do conflito judicial e político no país”.

A vassalagem de Milei chega dias depois de uma postagem marota da chanceler argentina Diana Mondino na rede X. A chefona da chancelaria da Argentina, hoje uma das mais prestigiadas auxiliares de Milei, anotou que suas embaixadas estão abertas à concessão de “refúgio a todos que são perseguidos por compartilhar valores de liberdade”.

Qualquer criança de cinco anos é capaz de ouvir nas entrelinhas do texto de Diana Mondino a oferta de proteção diplomática aos funcionários da empresa X Brasil. Uma gente que, na ficção criada por Musk, estaria ameaçada de prisão por supostamente desatender às requisições “ilegais” do “ditador” Xandão.

A oferta de “colaboração” de Milei para influir na conjuntura jurídica e política do Brasil está situada no mesmo limbo onde repousam as reformas econômicas prometidas pelo anarco-capitalista ao povo argentino desde a campanha eleitoral que produziu a alternância de poder na Casa Rosada. Na prática, o lero-lero de Milei é tão inócuo quanto a bazófia de Musk de descumprir ordens emanadas do Supremo.

A união Musk-Milei deve ser compreendida no contexto da recessão democrática que leva ao surgimento, expansão e diversificação de espécies de dinossauros políticos que empurram o mundo para um novo Período Jurássico. Graças à premonição da maioria do eleitorado, o desastre foi adiado no Brasil.

Entretando, embora Bolsonaro tenha sido declarado inelegível, o bolsonarismo e seu arcaísmo ainda pulsam no Brasil. Os devotos do capitão enxergaram no chilique do dono de uma das plataformas mais tóxicas das redes sociais a oportunidade para prolongar o processo de subversão que corroi a democracia por dentro, substituindo as fardas e os tanques pela industrialização do ódio e da desinformação.

A volta da política à Era Mesozoica já é realidade em países como Hungria, Rússia, Polônia, Geórgia, Filipinas, Nicarágua e Venezuela. A ultradireita acaba de triunfar na Argentina. Aterroriza a Itália e a Alemanha. Avança na França. Por um triz, não prevaleceu em Portugal.

Aos pouquinhos, os dinossauros vão formatando a sua Internacional Jurássica. Numa democracia, como se sabe, o direito de se expressar livremente não inclui o direito de ser levado a sério. Mas é convém não descuidar dos ruídos.


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Uma resposta para “Comitê dos EUA que atacou Brasil é chefiado por aliado do golpismo de Trump”

  1. Gustavo disse:

    Censura prévia fundamentada. Essa resposta do Xandão tem de ser publicada.

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