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Poder
Cid detalha esquema de desvio de bens públicos e repasse clandestino de valores ao ex-presidente
Publicado em 20/02/2025 9:37 - Semana On
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Jair Bolsonaro já é um ex-presidente marcado pela história. Denunciado formalmente por tentativa de golpe de Estado e conspiração para abolir a democracia brasileira, ele enfrenta agora um conjunto de acusações que poderiam, em qualquer democracia madura, representar o fim de uma carreira política. No entanto, ironicamente, o crime que pode custar-lhe mais apoio popular não é o ataque à democracia, mas um escândalo de natureza muito mais prosaica: o roubo e a venda ilegal de joias pertencentes ao patrimônio público.
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A recente delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens e homem de confiança de Bolsonaro, revelou detalhes de um esquema que tem todos os elementos de uma trama vergonhosa: presentes diplomáticos desviados, relógios de luxo vendidos em lojas de penhor nos Estados Unidos, dinheiro vivo entregue em mãos ao ex-presidente e até a utilização do cartão corporativo da Presidência para financiar eventos políticos e gastos pessoais.
O problema para Bolsonaro não está apenas no crime em si, mas na narrativa que essas revelações desmontam. Durante anos, ele construiu a imagem de um “homem comum”, um líder austero que comia pão com leite condensado e se comunicava diretamente com o povo, ridicularizado pela elite política e intelectual, mas fiel aos seus princípios. Essa construção foi fundamental para sua ascensão ao poder e para manter uma base de apoio fiel mesmo diante de escândalos anteriores.
Agora, essa imagem desmorona com a materialidade de um relógio Patek Philippe vendido por US$ 68 mil, de um kit de joias Chopard negociado em Miami, de US$ 86 mil em dinheiro vivo repassados de forma clandestina, e do uso do dinheiro público para financiar eventos políticos e bancar despesas da família presidencial. Tudo isso aponta para algo que o eleitor brasileiro compreende bem: corrupção para enriquecimento pessoal.
Se a denúncia por golpe de Estado pode ser relativizada por setores da sociedade que enxergam Bolsonaro como vítima de perseguição política, a pecha de “ladrão de joias” é mais difícil de se livrar. Em uma sociedade marcada pela desigualdade, em que a corrupção tem sido historicamente uma das maiores fontes de revolta popular, a percepção de que Bolsonaro utilizou bens públicos para benefício próprio pode ser devastadora.
A anatomia do escândalo
A delação de Mauro Cid, tornada pública pelo ministro Alexandre de Moraes, detalha como Bolsonaro foi o mentor do esquema. Em um dos momentos mais reveladores, Cid relatou que Bolsonaro, ao segurar um relógio de luxo presenteado ao Estado brasileiro, questionou: “Pô, relógio caro, quanto é que tá?”. Esse comentário revela não apenas o desapego às regras do serviço público, mas uma mentalidade patrimonialista, na qual bens do Estado são vistos como extensões do poder pessoal de quem ocupa a cadeira presidencial.
O esquema descrito por Cid era relativamente simples, mas extremamente sofisticado em sua execução:
Bolsonaro selecionava os bens que poderiam ser vendidos mais facilmente – peças caras, mas que não chamariam tanta atenção ao serem negociadas no exterior.
Mauro Cid e seu pai, o general Mauro Cesar de Lorena Cid, atuavam como intermediários, vendendo as joias em joalherias e lojas especializadas nos Estados Unidos.
Os valores obtidos eram entregues a Bolsonaro em dinheiro vivo, de forma fracionada, para dificultar o rastreamento financeiro.
A Polícia Federal descobriu que o ex-presidente recebeu ao menos US$ 86 mil dessa forma, provenientes de relógios e joias desviados do acervo da Presidência.
O impacto político dessas revelações vai além das acusações criminais. O esquema destrói um dos pilares da narrativa bolsonarista: a ideia de que ele seria um homem honesto, diferente dos políticos tradicionais. Desde os primeiros anos de sua carreira, Bolsonaro cultivou uma imagem de outsider, mesmo tendo passado décadas como deputado federal. O discurso de que ele não era um corrupto do “sistema” foi essencial para atrair o apoio de eleitores conservadores e setores religiosos que viam nele uma alternativa ao que consideravam ser uma política dominada por escândalos de corrupção.
Agora, essa base pode começar a ruir. O eleitorado mais radicalizado, que enxerga Bolsonaro como uma figura messiânica, dificilmente abandonará sua devoção. Mas há um grande grupo que votou nele em 2018 e 2022 por acreditar que ele representava o mal menor, alguém que, apesar dos defeitos, era mais honesto do que os adversários. Essa parte do eleitorado, especialmente entre os evangélicos, pode não tolerar a revelação de que Bolsonaro roubou joias e utilizou dinheiro público para financiar sua vida privada.
O simbolismo das joias e a ruína moral de Bolsonaro
A simbologia do escândalo é particularmente cruel para Bolsonaro. Na tradição cristã, que ele tanto invocou durante seu governo, a ganância e a ostentação são pecados condenáveis. O episódio bíblico do Bezerro de Ouro, no qual os hebreus desrespeitam a aliança com Deus ao adorar um ídolo de ouro, é uma das passagens mais conhecidas da Bíblia. Em Êxodo 20, o mandamento “Não furtarás” é um dos pilares da moralidade cristã. Como reagirão os pastores e fiéis que se mobilizaram em defesa de Bolsonaro diante da evidência de que ele vendeu diamantes e relógios caros para embolsar dólares em espécie?
Além do simbolismo religioso, há um elemento de traição popular. Durante seu governo, Bolsonaro vendeu a ideia de que era perseguido por suas escolhas “simples”, enquanto a elite política gastava fortunas. Suas lives caseiras, o hábito de misturar arroz com farofa em vídeos improvisados e seu português coloquial faziam parte dessa encenação. Agora, descobre-se que, enquanto pregava essa austeridade, usava o cartão corporativo para bancar motociatas e até despesas de Michelle Bolsonaro em pet shops.
A questão central não é apenas a corrupção, mas o engano. Bolsonaro construiu uma persona que se descola totalmente das evidências agora apresentadas.
O impacto eleitoral e o futuro de Bolsonaro
O desgaste político já era evidente desde a derrota de 2022, mas a sequência de revelações pode acelerar o isolamento de Bolsonaro. Com a denúncia por tentativa de golpe já em andamento, a inclusão de novos escândalos piora suas chances de articulação política.
Além disso, Bolsonaro depende de sua influência eleitoral para se manter relevante. Mesmo inelegível, ele ainda poderia atuar como cabo eleitoral de aliados. Mas como explicar a venda de bens públicos para um eleitorado que tem, como uma de suas maiores bandeiras, o combate à corrupção? Como conciliar a narrativa do “homem honesto” com a realidade de um político que tentou lucrar vendendo presentes diplomáticos?
Se o golpe era um crime abstrato para muitos, o roubo das joias é concreto. Um relógio pode ser segurado nas mãos. Um diamante pode ser visto e avaliado. E, principalmente, dinheiro público utilizado para bancar luxos e motociatas pode ser um divisor de águas para eleitores que acreditavam na falsa simplicidade de Bolsonaro.
A história já mostrou que escândalos financeiros podem ser mais devastadores do que crimes políticos. O mensalão e a Lava Jato deixaram isso claro. Agora, resta saber se Bolsonaro seguirá o mesmo destino de políticos que foram esmagados por suas próprias contradições. Afinal, para quem se vendeu como o “mito” da honestidade, a maior humilhação pode ser ser lembrado para sempre como o presidente que roubou joias.
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