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Poder
Movimentação de Flávio e Eduardo inclui pedidos ao governo Trump, pressão sobre autoridades brasileiras e tentativa de adiar tarifas antes das eleições
Publicado em 07/07/2026 9:43 - Semana On
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O Ministério das Relações Exteriores encaminhou à Câmara dos Deputados um parecer no qual alerta para os riscos à soberania nacional decorrentes da classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas pelos Estados Unidos. Entre as possíveis consequências mencionadas pelo Itamaraty está a abertura de margem para o emprego da força militar norte-americana em território brasileiro.
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A manifestação oficial do governo ocorre em meio à intensificação da atuação política de Flávio e Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Nos últimos meses, os dois ampliaram contatos com integrantes do governo norte-americano, parlamentares republicanos e representantes do movimento conservador. Parte dessa articulação envolveu pedidos para que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fossem enquadrados como organizações terroristas.
O documento do Itamaraty foi elaborado em resposta a um requerimento de informação apresentado na Câmara. Antes de expor suas conclusões, o ministério ressalta que a posição não resulta exclusivamente de uma avaliação diplomática, mas de um processo de coordenação interinstitucional que reuniu órgãos responsáveis pelas áreas de segurança pública, inteligência e justiça.
Segundo o parecer, houve convergência entre os órgãos consultados sobre a inadequação jurídica da medida e a ausência de benefícios adicionais para a cooperação internacional contra organizações criminosas transnacionais.
“Órgãos de segurança pública, inteligência e justiça integraram o processo de coordenação interinstitucional e convergiram no entendimento de que a classificação de organizações criminosas como terroristas não apenas é inadequada do ponto de vista jurídico, como tampouco acrescenta benefícios para a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional. A medida representa, ademais, riscos concretos à soberania nacional”, afirma o documento.
O alerta ganha dimensão adicional quando o Itamaraty enumera as consequências que poderiam decorrer da aplicação da legislação antiterrorismo dos Estados Unidos a organizações criminosas brasileiras. O parecer sustenta que o enquadramento ultrapassaria os mecanismos tradicionais de cooperação policial, judicial e de inteligência entre os dois países.
Entre os riscos mencionados está expressamente a possibilidade de atuação das Forças Armadas norte-americanas no Brasil.
“A classificação pode acarretar consequências como (…) a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”, registra o ministério.
A posição oficial apresentada à Câmara contrasta com declarações e iniciativas adotadas por Flávio e Eduardo Bolsonaro. Os dois defenderam, em diferentes momentos, uma atuação mais incisiva dos Estados Unidos em questões relacionadas ao combate ao crime organizado e às disputas políticas e institucionais brasileiras.
Em outubro de 2025, Flávio Bolsonaro comentou nas redes sociais uma operação realizada pelos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe. O senador afirmou sentir “inveja” da atuação norte-americana e sugeriu uma iniciativa semelhante no Brasil.
“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”, escreveu.
A manifestação ocorreu meses antes de o senador intensificar gestões junto ao governo dos Estados Unidos para que PCC e Comando Vermelho fossem classificados oficialmente como organizações terroristas.
Eduardo Bolsonaro também ganhou repercussão em 2025 ao afirmar que seria “mais fácil um porta-aviões americano chegar ao Lago Paranoá”. A declaração foi interpretada como uma referência à possibilidade de aumento da pressão norte-americana sobre o Brasil em meio aos conflitos políticos envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
A articulação avançou em maio de 2026, quando Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos e solicitou ao presidente Donald Trump e a integrantes da administração norte-americana o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
Segundo o senador, durante a viagem foi entregue às autoridades norte-americanas um relatório sobre a atuação internacional das duas facções. Flávio também defendeu a ampliação da cooperação bilateral entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado transnacional.
Dias depois, após o governo norte-americano anunciar a classificação das duas organizações, o senador comemorou publicamente a decisão e declarou ter apresentado pessoalmente a reivindicação às autoridades dos Estados Unidos.
O contraste entre a advertência institucional do Itamaraty e as iniciativas dos irmãos Bolsonaro ganha relevância diante de uma nova etapa da atuação política da família nos Estados Unidos.
A presença de Eduardo Bolsonaro ao lado de Flávio Bolsonaro em uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington, reforça o papel desempenhado pelo ex-deputado nas articulações internacionais e políticas da pré-campanha presidencial do senador.
Embora não ocupe uma função formalmente anunciada na estrutura eleitoral, Eduardo vem sendo descrito por integrantes do entorno político de Flávio como o principal coordenador informal do projeto presidencial.
A participação conjunta ocorre em uma das agendas internacionais consideradas estratégicas para a pré-campanha. A audiência é dedicada à discussão das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, enquanto Flávio tenta convencer autoridades norte-americanas a adiar a entrada em vigor das sobretaxas.
A informação sobre a presença de Eduardo na audiência foi divulgada pelo Metrópoles e confirmada pelo ICL Notícias.
Interlocutores ouvidos pelo ICL Notícias afirmam que decisões estratégicas da pré-campanha passam por Eduardo Bolsonaro. Entre elas estariam discussões sobre a composição de um eventual governo, contatos com aliados e articulações políticas junto a diferentes setores.
Outras movimentações recentes também indicam a influência exercida pelo ex-deputado.
A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques esteve nos Estados Unidos para compromissos ao lado de Eduardo. Segundo interlocutores citados pela reportagem, o encontro foi interpretado como parte das articulações relacionadas ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
A agenda em Washington amplia essa percepção. Mesmo sem cargo oficialmente anunciado na pré-campanha, Eduardo acompanha o senador em compromissos considerados relevantes, especialmente aqueles relacionados à construção de interlocução política internacional.
Nesta terça-feira (7), Flávio participará do primeiro painel da audiência organizada pelo USTR. Também estarão presentes representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e de entidades empresariais norte-americanas.
Durante a audiência, o senador defenderá o adiamento das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.
Na semana anterior, Flávio enviou uma carta ao governo norte-americano solicitando que as sobretaxas fossem suspensas pelo menos até a realização das eleições brasileiras.
No documento, argumentou que a entrada em vigor das tarifas poderia fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contribuir para ampliar a influência econômica da China sobre o Brasil.
A iniciativa representa uma mudança no eixo público da estratégia internacional adotada pelos integrantes da família Bolsonaro.
Durante os meses anteriores, Eduardo e Flávio intensificaram agendas com parlamentares republicanos, integrantes da administração norte-americana e representantes do movimento conservador em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nesse período, Eduardo consolidou-se como o principal interlocutor da família junto a setores da direita dos Estados Unidos.
Em diferentes ocasiões, defendeu a imposição de sanções contra autoridades brasileiras, participou de articulações pela aplicação da Lei Magnitsky contra integrantes do Supremo Tribunal Federal e buscou ampliar a pressão internacional sobre o Judiciário brasileiro durante o avanço dos processos envolvendo Jair Bolsonaro.
A estratégia, agora, apresenta uma inflexão.
Em lugar de concentrar as iniciativas públicas na defesa de novas sanções contra autoridades brasileiras, Flávio passou a solicitar ao governo dos Estados Unidos o adiamento das tarifas aplicadas aos produtos nacionais.
O argumento apresentado pelo senador é essencialmente político e eleitoral: segundo a carta encaminhada às autoridades norte-americanas, a implementação das sobretaxas antes das eleições poderia favorecer eleitoralmente Lula.
A mudança ocorre depois de meses em que a atuação internacional da família Bolsonaro esteve associada às tentativas de aumentar a pressão externa sobre autoridades brasileiras e influenciar o ambiente político relacionado à situação judicial do ex-presidente.
Apesar da alteração do discurso público, que passou a enfatizar as consequências econômicas e eleitorais das tarifas, a presença de Eduardo ao lado de Flávio em mais uma agenda de alto impacto demonstra a continuidade de sua atuação no núcleo estratégico da pré-campanha.
A reportagem procurou Fábio Portela, coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, para esclarecer qual função Eduardo exerce no projeto eleitoral e por que participa da audiência promovida pelo governo norte-americano sem ocupar cargo formal na estrutura da campanha. Não houve resposta até a publicação da reportagem.
A assessoria de Flávio Bolsonaro também foi procurada, mas não se manifestou.
O conjunto das movimentações revela duas dimensões simultâneas da atuação internacional dos irmãos Bolsonaro. De um lado, a defesa de medidas norte-americanas capazes de produzir efeitos sobre questões internas brasileiras — inicialmente por meio de sanções, pressão diplomática e enquadramento de organizações criminosas como grupos terroristas. De outro, a tentativa mais recente de interferir no calendário de aplicação das tarifas comerciais, sob o argumento de que sua entrada em vigor poderia beneficiar eleitoralmente o atual presidente da República.
É nesse contexto que o parecer encaminhado pelo Itamaraty à Câmara adquire relevância política e institucional. Enquanto integrantes da família Bolsonaro defendem uma participação mais ativa dos Estados Unidos em temas relacionados ao crime organizado, à atuação do Judiciário e às disputas eleitorais brasileiras, os órgãos responsáveis pela diplomacia, segurança pública, inteligência e justiça alertam que determinadas formas de intervenção podem ultrapassar os limites da cooperação internacional e criar riscos concretos à soberania nacional.
A divergência expõe, portanto, mais do que uma diferença de estratégia no combate ao crime organizado. Coloca em lados opostos a posição institucional do Estado brasileiro sobre os limites da atuação de uma potência estrangeira em território nacional e uma articulação política que, nos últimos meses, transformou Washington em um dos principais centros de atuação internacional do grupo liderado pela família Bolsonaro.
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