02/03/2024 - Edição 525

Palavra do Editor

Negação e responsabilidade

Publicado em 20/11/2015 12:00 -

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Nas últimas duas semanas entrei em pane ao me deparar com as duas tragédias que invadiram nosso imaginário e suas consequências, exaustivamente cobertas pela mídia, comentadas nas redes sociais, elaboradas em nossas complicadas maquininhas de encaixar fatos à nossa capacidade de compreensão: os ataques terroristas em Paris e o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG).

Peguei-me passando batido pelas imagens da lama invadindo o mar, matando a fauna e a flora. Evitei o noticiário que repetia insistentemente imagens dos ataques na cidade luz. Aquelas imagens me incomodavam, me atingiam em cheio com uma dose de realidade quase insuportável.

Mas o que aconteceu? Que reação é esta? Não estou ciente de que o homem é capaz das mais bárbaras ações contra o próprio homem? Não sei que a vida humana tem menos valor do que o lucro? Que grande surpresa é essa?

A psicanálise diz tratar-se do rompimento de um importante filtro do cérebro, um dos principais mecanismos de defesa que nos permitem viver e funcionar, chamado negação. As vezes ela nos salva de nós mesmos, permitindo que continuemos funcionando em meio a barbárie sem que sucumbamos a uma síncope de realidade. ´

É, segundo Freud, um dos mecanismos inconscientes de defesa do ego. Recurso da natureza humana contra sofrimentos insuportáveis. Precisamos da negação para nossa sobrevivência emocional. A sensação de irrealidade pode ser o único alívio quando a realidade é esmagadora demais.

Não é difícil apontar culpados e responsabilizá-los, fazer cumprir a lei, quando há indignação e revolta. Mais difícil é assumirmos que todos somos responsáveis por nossa negligência.

Existem outras formas de negação, no entanto, que são preocupantes. Somos movidos pelo “princípio do prazer” e este também mobiliza, para a realização de desejos, doses variáveis de negação dos possíveis riscos. Correr demais de carro por pressa ou diversão, beber antes de dirigir porque não haverá barreira na estrada, fazer sexo casual sem camisinha, expor a si ou a outrem a riscos para ganhar dinheiro, são exemplos praticados por muitos, diariamente.

Além destas condutas temerárias individuais, também há as coletivas. Sociedades inteiras negam a violência implícita na desigualdade social, como se fosse possível haver paz na negligência; países negam os riscos da mudança climática que já está em curso, como se pudéssemos deixar para enfrentar o problema depois.

Um mecanismo de defesa inconsciente, natural e necessário para sobrevivermos à dor que dilacera a alma, é ao mesmo tempo um dos fatores envolvidos na gênese de tragédias, quando associado ao princípio do prazer. Para nos divertirmos desprezamos os riscos, nossos ou de outrem. Para ganhar dinheiro também.

A tragédia nos recoloca na realidade que tentávamos evitar, negando que ela pudesse acontecer. Usamos a razão, agora, para identificar culpados, para precisar quem e porque não cumpriu suas obrigações. Não é difícil apontar culpados e responsabilizá-los, fazer cumprir a lei, quando há indignação e revolta. Nessas horas nos lembramos que as leis são para serem cumpridas e os que não as respeitaram, nesse caso, servem de exemplo disso, embora haja muito a fazer, ainda, para aprimorar leis e fiscalizações.

Mais difícil é assumirmos que todos somos responsáveis por nossa negligência coletiva e já enraizada na nossa cultura, envolvidos que estamos na grande negação coletiva dos riscos em tantos lugares, de tantas formas, a que expomos a nós e aos outros diariamente.


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