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Poesia contra o totalitarismo chinês

Publicado em 17/01/2014 12:00 -

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Com dois poemas declamados num vídeo gravado secretamente, a artista chinesa Liu Xia tenta romper o silêncio imposto por três anos de prisão domiciliar. Ela é casada com o escritor e ativista político Liu Xiaobo, ganhador do prêmio Nobel da Paz de 2010, que está preso há cinco anos.

Embora jamais tenha sido acusada formalmente de nenhum crime, Liu Xia, 54, está confinada no pequeno apartamento do casal, em Pequim, desde que o marido foi premiado com o Nobel.

No vídeo, filmado no apartamento, a artista aparece sentada junto a uma escrivaninha, segura um cigarro na mão esquerda e recita dois poemas de sua autoria, "Sem Título" e "Bebendo".

Após ler os poemas, ela faz um sinal de positivo e esboça um tímido sorriso. Um cartaz de "desaparecida" encerra o vídeo. "Você a viu? Não violou nenhuma lei, mas perdeu a liberdade. Ela é Liu Xia, mulher de Liu Xiabo. Sentimos sua falta", diz o cartaz.

O vídeo foi divulgado pelo Centro PEN da China, grupo de escritores que pede liberdade de expressão no país.

Os amigos e defensores de Liu Xia dizem que, mesmo sem acusação, na prática ela passou a cumprir uma pena paralela à do marido, que foi condenado a 11 anos de prisão por sua oposição ao regime autoritário chinês.

A artista tem todos os passos vigiados pela polícia, disse Bei Ling, amigo da artista e presidente do Centro PEN na China, ligado à organização global de escritores PEN Internacional.
Liu Xia passou a cumprir uma pena paralela à do marido, que foi condenado a 11 anos de prisão por sua oposição ao regime autoritário chinês.

"Ela não tem liberdade para escolher seu próprio médico e não tem acesso a telefone nem internet", disse Bei à rede britânica BBC. "Está seriamente deprimida e tem problemas cardíacos."

Bei acrescentou que Liu Xia passou a fumar pesadamente e agora tem se recusado a comer. O cárcere domiciliar a fez perder o interesse até em escrever cartas ao marido, diz Bei, pois a artista sabe que elas serão interceptadas pela polícia.

Segundo Bei, uma vez por mês Liu Xia tem permissão para visitar o marido na cadeia, que fica a 500 km de Pequim. Os encontros duram apenas meia-hora, afirma ele, e o casal é mantido durante todo o tempo separado por um vidro.

Os poemas lidos por Liu Xia no vídeo, gravado para um encontro do PEN em Nova York realizado em homenagem a ela, falam de solidão e isolamento.

"Antes de sua prisão domiciliar, Liu Xia era uma pessoa muito pura e apolítica. Ela nunca participaria ativamente de nenhum movimento político", disse Bei.

No ano passado, ela fez uma rápida aparição pública na porta do tribunal que julgava seu irmão. "Digam a todos: eu não sou livre", gritou a um grupo de diplomatas e jornalistas.

Seu irmão, Liu Hui, foi condenado a 11 anos de prisão por fraude, mas amigos dizem que ele foi vítima de perseguição política.

Em novembro, advogados de Liu Xiaobo, o Nobel da Paz preso, afirmaram que ele irá pedir um novo julgamento. Especialistas acham, porém, que ele tem poucas chances, num sistema judiciário subordinado ao Partido Comunista.

Liu Xiaobo, 58, está preso desde 2008. Acusado de subversão, foi condenado a 11 anos de prisão. Ele foi um dos autores do manifesto Carta 08, que defendia a democratização e o fim do sistema de partido único.

A comissão do prêmio Nobel justificou a escolha de Liu em 2010 citando "sua longa luta não-violenta pelos direitos humanos fundamentais na China".


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