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Mundo
Governo Lula monta plano de acolhimento diante da ofensiva de Trump contra imigrantes brasileiros
Publicado em 16/06/2025 11:02 - Semana On
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Sob denúncias inéditas da ONU por violações de direitos humanos contra imigrantes, o governo dos Estados Unidos intensifica uma operação de deportações em massa que afeta diretamente a comunidade brasileira. Diante do avanço das prisões e expulsões, o governo Lula reconhece uma crise humanitária em formação e começa a montar, às pressas, uma política de acolhimento para milhares de brasileiros que devem ser forçados a retornar. O cenário expõe não apenas a face mais sombria do nacionalismo xenófobo norte-americano, mas também os desafios históricos das migrações, da diplomacia internacional e da defesa dos direitos humanos em tempos de retrocesso democrático.
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Em um gesto diplomático raro e de forte repercussão, a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou formalmente o governo dos Estados Unidos de violar os direitos humanos de imigrantes, em especial durante a gestão de Donald Trump. O alerta partiu do alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Turk, que, em discurso nesta segunda-feira (16), denunciou práticas de prisão e deportação em massa, além do uso de forças militares para conter manifestações pacíficas no país.
“A prisão e a deportação de um grande número de estrangeiros, inclusive para países terceiros, levantam sérias preocupações sobre o respeito a seus direitos”, declarou Turk, marcando uma inflexão importante na postura, até então contida, da ONU frente às políticas migratórias dos EUA.
A denúncia também se estendeu a violações de direitos de pessoas transgênero e não binárias, criticando publicamente políticas adotadas não apenas pelos Estados Unidos, mas também pela Argentina. Segundo Turk, membros do governo norte-americano têm “difamado pessoas transgênero e restringido seus direitos”, evidenciando um retrocesso generalizado na pauta de direitos civis.
Uma máquina de deportação em ritmo industrial
A escalada das deportações nos EUA atinge proporções sem precedentes. O governo Trump estabeleceu a meta de prender 3 mil imigrantes por dia, em uma ofensiva que, ao contrário do discurso de campanha focado em “criminosos estrangeiros”, atinge comunidades inteiras, famílias e trabalhadores.
O sistema de detenção foi expandido de 49 para 112 centros de encarceramento, espalhados por todo o país, com acordos firmados entre o governo federal e mais de 600 condados, permitindo que xerifes locais atuem diretamente na prisão de imigrantes, algo antes restrito a autoridades federais.
Além disso, Washington negocia contratos com companhias aéreas para aumentar a frequência dos voos de deportação, uma clara sinalização de que a máquina está pronta para acelerar. Atualmente, entre 230 mil e 300 mil brasileiros vivem de forma irregular nos EUA, sendo que 30 mil já possuem ordens de deportação emitidas.
Segundo diplomatas brasileiros que acompanham o tema, o número atual de 1.500 detenções diárias não cresce apenas por falta de espaço físico, e não por falta de vontade política. A tendência, com a expansão da infraestrutura, é que as detenções aumentem proporcionalmente.
O Brasil diante da crise: improviso e urgência
Diante desse cenário, o governo brasileiro reconhece estar lidando com uma “crise que não estava na agenda”, nas palavras da ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, em entrevista ao UOL. A ministra esteve recentemente nos EUA para dialogar com lideranças da comunidade brasileira e ouvir relatos de desespero, incerteza e medo.
“Precisamos entender a complexidade desse processo para produzir políticas públicas. Muitos chegam aos EUA em busca de um sonho americano que não existe e acabam submetidos a uma precarização violenta do trabalho”, afirmou Evaristo.
O governo Lula articula, junto à Organização Internacional para as Migrações (OIM), um plano de acolhimento que inclui:
– Emissão emergencial de certidões de nascimento para filhos de brasileiros, a fim de evitar que crianças fiquem apátridas;
– Interiorização dos deportados, que hoje desembarcam principalmente em Manaus, com apoio de aviões da FAB;
– Acesso imediato a serviços públicos, como matrículas escolares e atendimento no SUS;
– Apoio jurídico para que deportados tentem reaver patrimônios confiscados ou abandonados nos EUA;
– Reforço dos consulados brasileiros, que operam no limite da capacidade. Em alguns casos, o número de certidões de nascimento saltou de 50 para 500 registros mensais.
O governo estuda ainda medidas como permitir que parte das taxas cobradas nos consulados permaneçam nas próprias unidades, para financiar a ampliação dos serviços consulares, hoje claramente insuficientes para a demanda explosiva.
Diplomacia na corda bamba: cautela e medo de retaliações
Apesar da gravidade da situação, a ministra Macaé Evaristo pondera sobre a possibilidade de “elevar o tom” nas críticas a Washington. Segundo ela, qualquer ação mais contundente pode gerar retaliações severas, como o envio de brasileiros para prisões em Guantánamo ou centros de detenção terceirizados, como em El Salvador.
“Toda vez que tomamos uma medida, precisamos ter a cautela de pensar nas consequências. Um passo errado e podemos piorar ainda mais a situação”, alerta Evaristo.
Essa cautela reflete um dilema clássico da diplomacia dos países do Sul Global frente às potências: como defender os direitos de seus cidadãos sem provocar represálias que possam agravar ainda mais a crise? Uma pergunta que carrega ecos históricos, desde os tempos em que a mobilidade humana era restrita pelos impérios coloniais, até os desafios contemporâneos de uma globalização profundamente assimétrica.
As migrações como espelho do mundo contemporâneo
A crise dos brasileiros nos EUA não é um fenômeno isolado, mas parte de um cenário mais amplo de colapso dos sistemas de proteção aos migrantes no mundo. Como observa o sociólogo Saskia Sassen, autora de “Expulsões: Brutalidade e Complexidade na Economia Global”, os fluxos migratórios são o reflexo das desigualdades estruturais do capitalismo global, que gera, ao mesmo tempo, hiperconcentração de riqueza e precarização de bilhões de vidas (Fonte: Sassen, 2014).
No caso dos EUA, o endurecimento das políticas migratórias acompanha uma onda global de nacionalismo autoritário, fechamento de fronteiras e avanço de discursos xenófobos, não muito diferente do que se viu na Europa após a crise migratória de 2015, ou no próprio Brasil durante episódios de hostilidade contra imigrantes venezuelanos em Roraima.
O que se agrava no caso americano é a combinação de três elementos explosivos:
– Expansão sem precedentes da máquina de deportação;
– Uso crescente de forças policiais e militares para controlar não só migrantes, mas também manifestantes e minorias;
– Desmantelamento de garantias básicas de direitos civis, inclusive para cidadãos norte-americanos.
Uma encruzilhada humanitária e civilizatória
O Brasil se vê, portanto, diante de um desafio histórico. De um lado, garantir proteção, dignidade e reinserção para milhares de cidadãos que serão forçados a retornar, muitas vezes sem qualquer bem, renda ou rede de apoio. De outro, manter uma diplomacia suficientemente hábil para negociar com uma potência que, hoje, age em flagrante violação de tratados internacionais de direitos humanos.
Se a crise migratória já escancarava, no passado, os limites da promessa de uma globalização inclusiva, o que se vê agora é o espelho de um mundo em retração, onde a cidadania, os direitos e até a dignidade parecem ter se tornado privilégios territoriais e não direitos universais.
No curto prazo, o governo brasileiro corre contra o tempo. No longo, a crise atual lança um alerta civilizatório: um mundo que ergue muros contra pessoas e destrói pontes de solidariedade é um mundo que também ameaça sua própria democracia.
EXCELENTE ARTIGO SOBRE AS MIGRAÇÕES