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Mundo

Anistia Internacional acusa Israel de ‘limpeza étnica’ e deslocamento forçado na Cisjordânia

Entidades e ativistas antissionistas lançam manifesto sobre antissemitismo e racismo

Publicado em 10/06/2026 12:53 - Semana On e Opera Mundi

Divulgação Reprodução

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A Anistia Internacional acusou Israel de conduzir uma política de “limpeza étnica” contra comunidades beduínas e pastoris na Cisjordânia ocupada e de cometer o crime contra a humanidade de transferência forçada de população. Em relatório divulgado nesta quarta-feira, a organização sustenta que autoridades israelenses vêm implementando medidas destinadas a reduzir a presença palestina na região, ao mesmo tempo em que favorecem a expansão dos assentamentos israelenses.

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A entidade também fez um apelo à comunidade internacional para que adote medidas concretas diante do que considera um processo de anexação gradual do território palestino ocupado.

De acordo com o documento, 27 comunidades palestinas localizadas na chamada Área C da Cisjordânia foram deslocadas à força entre 2023 e 2025 ou enfrentam risco iminente de remoção. A Área C corresponde a cerca de 60% da Cisjordânia e permanece sob controle israelense desde os acordos firmados na década de 1990.

A organização afirma ter identificado declarações explícitas de autoridades israelenses em defesa da ampliação dos assentamentos, além de políticas voltadas à consolidação do controle israelense sobre áreas ocupadas. A Cisjordânia integra os territórios palestinos ocupados por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Segundo a Anistia Internacional, o governo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — considerado um dos mais conservadores da história israelense — estaria alinhado à agenda político-religiosa defendida pelo movimento dos colonos. O relatório sustenta que a atual administração acelerou a expansão dos assentamentos, ampliou a apropriação de terras palestinas e reforçou o apoio financeiro, logístico e político às comunidades israelenses instaladas na Cisjordânia.

Para a organização, essas medidas contribuíram para o fortalecimento de uma campanha de violência praticada por colonos contra palestinos, resultando em deslocamentos forçados e no esvaziamento gradual de comunidades locais.

Entre os principais defensores da anexação da Cisjordânia está o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, figura destacada da extrema direita israelense. Na véspera da divulgação do relatório, a França anunciou a proibição da entrada do ministro em seu território em razão de suas posições relacionadas à anexação de áreas palestinas.

Os dados mais recentes da organização israelense Paz Agora indicam que, desde a posse do atual governo, no final de 2022, foram autorizados 102 assentamentos na Cisjordânia. Atualmente, mais de 500 mil israelenses vivem em assentamentos localizados no território — sem contar Jerusalém Oriental, anexada por Israel. As Nações Unidas consideram esses assentamentos ilegais à luz do direito internacional. Ao mesmo tempo, cerca de três milhões de palestinos residem na Cisjordânia.

A presença crescente dos assentamentos tem sido acompanhada por episódios recorrentes de violência. Parte dos colonos envolvidos na ocupação da região é acusada de praticar incêndios criminosos, vandalismo, roubos, agressões físicas e, em alguns casos, assassinatos de palestinos.

A deterioração da situação de segurança tornou-se ainda mais evidente após o ataque realizado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, episódio que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. Desde então, organizações humanitárias registram uma escalada dos confrontos e dos ataques na Cisjordânia.

Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) mostram que, desde janeiro deste ano, a média de ataques atribuídos a colonos israelenses chegou a seis ocorrências por dia.

O governo israelense costuma sustentar que esses episódios são ações isoladas praticadas por indivíduos específicos e não refletem uma política oficial do Estado. A Anistia Internacional, porém, contesta essa interpretação.

Para a secretária-geral da organização, Agnès Callamard, a violência observada na Cisjordânia não pode ser atribuída exclusivamente a grupos radicais ou a setores extremistas do governo. Em sua avaliação, trata-se de uma campanha sistemática respaldada pelas instituições estatais israelenses.

As comunidades beduínas e pastoris figuram entre as mais vulneráveis nesse contexto. Frequentemente localizadas em áreas remotas e com acesso limitado a serviços públicos e proteção de segurança, elas enfrentam maior exposição à pressão exercida por colonos e autoridades.

Desde 2023, jornalistas da agência AFP registraram o abandono de diversas comunidades beduínas na Cisjordânia após sucessivos episódios de intimidação e violência. Um dos casos citados ocorreu em Ras Ein al-Auja, cuja população deixou a região no início de 2026.

Morador da comunidade, Farhan Jahaleen afirmou que a pressão exercida pelos colonos resultou na destruição do modo de vida tradicional dos beduínos, afetando diretamente sua cultura, identidade e formas históricas de subsistência.

Em comunicado divulgado junto ao relatório, Agnès Callamard criticou a postura de governos que afirmam se opor à anexação da Cisjordânia, mas não adotam medidas efetivas para impedir seu avanço. Segundo ela, a inação internacional contribui diretamente para a continuidade de violações classificadas pela organização como crimes contra a humanidade.

A dirigente defendeu que países com influência política e econômica sobre Israel suspendam imediatamente qualquer forma de comércio, investimento, cooperação ou apoio financeiro que, segundo a Anistia Internacional, possa contribuir para a manutenção da ocupação dos territórios palestinos, do sistema que a entidade caracteriza como apartheid e das práticas que descreve como limpeza étnica.

As denúncias da organização reforçam alertas já emitidos por organismos das Nações Unidas. Em maio deste ano, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos havia manifestado preocupação com indícios do que classificou como sinais de “limpeza étnica” em áreas da Cisjordânia ocupada.

Entidades e ativistas antissionistas lançam manifesto sobre antissemitismo e racismo

Diante do genocídio em curso na Palestina e das ofensivas militares contra o Líbano, Cisjordânia e no Irã, organizações judaicas, muçulmanas, palestinas e árabes, movimentos sociais, juristas e parlamentares entregarão nesta quarta-feira (10/06) ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o manifesto “Nunca mais sem exceção: por uma política antirracista universal e soberana”.

De acordo com o documento dirigido ao governo federal, é solicitado com “urgência o combate de todas as formas de racismo, incluindo o antissemitismo, a islamofobia, o racismo anti-árabe, a xenofobia e o racismo contra pessoas negras e populações indígenas”. O Brasil possui tradição constitucional antirracista própria e marco legal robusto, expresso na Lei nº 7.716/1989.

“Recusamos, no entanto, que a luta contra o antissemitismo seja excepcionalizada e seja instrumentalizada para silenciar a solidariedade ao povo palestino, blindar um Estado estrangeiro acusado de crimes contra a humanidade ou estabelecer hierarquias entre vítimas de discriminação”, afirma o manifesto.

O abaixo-assinado acrescenta que essa instrumentalização não apenas restringe o direito à crítica ao Estado de Israel, “como também coloca em risco a segurança das próprias comunidades judaicas e enfraquece a luta legítima contra o antissemitismo”.

“Enquanto signatário da Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, internalizada pelo Decreto nº 65.810, de 8 de dezembro de 1969, o Brasil assume a obrigação de condenar e combater a discriminação racial em todas as suas formas, bem como o regime de segregação racial e apartheid”, diz o documento.

O documento é lançado em um contexto legislativo específico: o manifesto surge em meio ao Projeto de Lei nº 1424/2026, da deputada federal Tabata Amaral, que propõe a adoção da definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Além da elaboração de uma definição brasileira de antissemitismo, proposta discutida durante seminário realizado no Palácio Itamaraty em abril deste ano voltada a influenciar a formulação da futura política pública federal de combate ao antissemitismo atualmente em elaboração pelo governo.

Em nota, apontam que “ambas as iniciativas partem do mesmo pressuposto equivocado: a ideia de que o combate ao antissemitismo depende da adoção de definições oficiais”.

Dessa forma, o manifesto defende a liberdade de expressão e proteção de quem defende os direitos palestinos, solicitando ao governo federal para que se posicione “contra o uso do conceito de antissemitismo para criminalizar essa expressão e garantir proteção a ativistas e organizações processados com base em acusações infundadas — inclusive por meio de assistência jurídica e monitoramento pelos órgãos de direitos humanos”.

Por fim, os signatários pedem que o Brasil consolide e avance sua política de defesa do Direito Internacional e do Direito Internacional humanitário, apoiando a ação da África do Sul perante o genocídio em Gaza na Corte Internacional de Justiça e execução de suas medidas provisórias, cumprimento dos mandados de prisão expedidos pelo Tribunal Penal Internacional e recusa a qualquer equiparação entre a crítica a Israel e o racismo contra um povo.

Assinaturas

A iniciativa conta com o apoio de organizações como Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda, Vozes Judaicas por Libertação, Centro de Estudos Palestinos da USP (CEPal-FFLCH/USP), Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes da USP (GRACIAS), Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI), Movimento Negro Unificado (MNU) e Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), entre dezenas de outras entidades da sociedade civil.

Os deputados federais Fernanda Melchionna (PSOL-RS), Glauber Braga (PSOL-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), João Daniel (PT-SE), Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Tarcísio Motta (PSOL-RJ) assinam. Também assinam a vereadora do PT e presidente da Câmara Municipal de Casa Branca-SP, Fabiana Sandoval.

O jornalista e criador de Opera Mundi, Breno Altman, o escritor Milton Hatoum, membro da Academia Brasileira de Letras, o jurista e ex-ministro Paulo Sérgio Pinheiro, a psicanalista Maria Rita Kehl, o filósofo Paulo Arantes, os professores Jean Tible, Henrique Carneiro, Sean Purdy e Peter Pál Pelbart, também assinam.

A entrega será realizada por Débora Abramant, da Articulação Judaica de Esquerda, durante a 7ª Plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável (CDESS), o Conselhão, realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília.

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