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Mundo

Quem vai conter a tirania de Israel no oriente Médio?

Depois de assassinar dezenas de milhares de palestinos, sionismo mira o Irã

Publicado em 14/06/2025 11:32 - Semana On

Divulgação AFP

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Numa cena que sintetiza o atual esgarçamento da ordem internacional, o Conselho de Segurança da ONU se transformou, ontem (13), em palco de uma troca de acusações aberta e contundente entre as maiores potências do planeta. O estopim: o mais recente episódio da escalada de violência promovida pelo sionismo israelense no Oriente Médio, que reacende não apenas tensões regionais, mas também o confronto global entre visões antagônicas de poder, soberania e legalidade internacional.

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De um lado, Estados Unidos e seus aliados ocidentais defendem Israel, justificando suas ações como parte de uma estratégia para conter o que classificam como uma “ameaça existencial” representada pelo programa nuclear iraniano. Do outro, Rússia e China se alinham em defesa do Irã, acusando Tel Aviv de violar abertamente a Carta das Nações Unidas e empurrar o Oriente Médio para o abismo de uma guerra de grandes proporções.

“A Federação Russa condena veementemente essa ação. A aventura militar empurra a região para a beira de uma guerra em grande escala, e a responsabilidade por todas as consequências dessas ações recai totalmente sobre a liderança israelense e aqueles que a incentivam”, declarou o embaixador russo Vassily Nebenzia, em tom que remete diretamente às tensões da Guerra Fria. Para Nebenzia, o ataque israelense foi uma “violação grosseira da Carta da ONU e do direito internacional”.

A China ecoou a mesma linha. “A China condena as ações de Israel que violam a soberania, a segurança e a integridade territorial do Irã (…) e se opõe à intensificação das tensões e à expansão dos conflitos”, afirmou a delegação chinesa. Num recado direto aos Estados Unidos, acrescentou: “Os países com influência significativa sobre Israel devem praticamente desempenhar um papel construtivo.”

Em resposta, os Estados Unidos assumiram a defesa irrestrita de seu aliado histórico no Oriente Médio. O diplomata McCoy Pitt foi categórico: “Não se pode permitir que esse regime perigoso [o Irã] tenha armas nucleares.” Pitt tentou suavizar os impactos da operação ao afirmar que Washington foi informado previamente dos ataques, mas “não esteve militarmente envolvido”. Ainda assim, fez um alerta duro: “A segurança dos cidadãos americanos continua sendo nossa prioridade máxima. Os ataques às bases e ao pessoal dos EUA terão consequências terríveis.”

Uma crise dentro de outra crise

O episódio evidencia não apenas a escalada no Oriente Médio, mas também o aprofundamento de um racha geopolítico que vem se consolidando desde o colapso da ordem unipolar dos anos 1990. Como destaca o professor John Mearsheimer, especialista em relações internacionais da Universidade de Chicago, “o sistema internacional está retornando a uma lógica realista, de equilíbrio de poder, onde o direito internacional cede espaço às dinâmicas de força” (The Tragedy of Great Power Politics, 2001).

Na prática, o embate no Conselho de Segurança reflete o impasse de um mundo multipolar desordenado. A ONU, concebida em 1945 para garantir a paz e mediar conflitos, parece cada vez mais impotente diante das disputas entre os próprios membros permanentes de seu principal órgão decisório.

“Estamos vivendo a crise de credibilidade da ONU, que já não consegue cumprir seu papel de árbitro global”, analisa Richard Gowan, diretor do International Crisis Group na ONU, em entrevista recente ao The Guardian. Segundo ele, “a guerra na Ucrânia, o colapso dos mecanismos de contenção no Oriente Médio e a rivalidade sino-americana estão corroendo rapidamente qualquer ilusão de governança internacional efetiva”.

Da Guerra Fria ao caos contemporâneo

Historicamente, o Oriente Médio foi palco de disputas indiretas entre potências globais. Durante a Guerra Fria, EUA e União Soviética transformaram a região em um tabuleiro de guerras por procuração. Após a queda do Muro de Berlim e o colapso soviético, os anos 1990 pareceram anunciar uma nova era — ilusão logo desfeita pelos atentados de 11 de setembro e pelas subsequentes guerras no Afeganistão, Iraque, Síria e Iêmen.

O conflito atual entre Israel e Irã, embora tenha raízes históricas, é também expressão desse ambiente de instabilidade global. Desde a Revolução Islâmica de 1979, Teerã vê Israel como inimigo estratégico. Por outro lado, Israel considera a possibilidade de um Irã nuclear uma ameaça existencial.

O recente ataque, condenado por Rússia e China e defendido pelos EUA, expõe os limites da diplomacia. A Rússia, atolada na guerra na Ucrânia e isolada do Ocidente, vê na aproximação com o Irã e a China uma oportunidade de romper seu isolamento estratégico. Já Pequim, cujo interesse principal está na estabilidade para garantir suas rotas comerciais e o projeto da Nova Rota da Seda, tenta equilibrar sua defesa da soberania dos Estados com a necessidade de não romper totalmente com os EUA.

E o direito internacional?

No centro do debate está o princípio da soberania, pedra angular do direito internacional desde o Tratado de Westfália (1648), e reafirmado na Carta da ONU (1945). Enquanto Rússia e China acusam Israel de violar a soberania iraniana, os EUA apelam ao artigo 51 da própria Carta, que reconhece o direito de legítima defesa — embora, tradicionalmente, esse artigo se aplique a ataques armados efetivos, e não preventivos.

O fato é que a Carta da ONU se tornou, muitas vezes, uma ferramenta interpretativa moldada pelos interesses dos Estados mais poderosos. Como resume o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, “vivemos uma tensão permanente entre a legalidade internacional e o poder soberano dos Estados, especialmente quando os interesses vitais estão em jogo” (A Constelação Pós-nacional, 1998).

Ao fim da sessão, nenhuma resolução concreta foi aprovada — reflexo direto do uso recorrente do poder de veto pelos membros permanentes. A ONU, mais uma vez, ficou refém de seus próprios paradoxos.

Enquanto isso, o Oriente Médio segue à beira de uma conflagração maior, e o mundo observa, entre a impotência diplomática e o medo de que as linhas que separam a guerra localizada da guerra total estejam se tornando perigosamente tênues.

O Oriente Médio em Fogo

O mundo amanheceu neste sábado (14) mais perto de um colapso geopolítico que parecia distante, mas que, nas últimas 48 horas, se tornou real, palpável e urgente. Uma violenta troca de ataques aéreos entre Israel e Irã elevou a tensão a patamares inéditos desde a Revolução Islâmica de 1979 e ameaça não apenas a estabilidade do Oriente Médio, mas também a segurança energética global e o já combalido equilíbrio internacional.

“Se [o líder supremo iraniano, Ali] Khamenei continuar a disparar mísseis na frente doméstica em Israel, Teerã vai queimar”, declarou sem rodeios o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. A frase, que entrou instantaneamente para o léxico da diplomacia do terror, foi proferida poucas horas após um bombardeio israelense na capital iraniana matar, segundo o governo local, 60 pessoas — entre elas civis e dois membros da Guarda Revolucionária.

A operação, descrita por analistas militares como uma das maiores ofensivas aéreas da história recente, teve como alvo a infraestrutura de defesa iraniana. Segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), foi completada a destruição dos sistemas de defesa aérea no corredor oeste de Teerã, abrindo caminho para incursões subsequentes.

Em resposta, o Irã lançou uma série de retaliações com pelo menos cinco ondas de mísseis balísticos e dezenas de drones. A intensidade da ofensiva surpreendeu até os próprios israelenses. “Passei a noite no abrigo do prédio, as sirenes não paravam”, relatou Rafi Kummer, analista de TI em Tel Aviv. “Pensei que tínhamos anulado eles no primeiro ataque, mas guerra é isso.”

De Gaza a Teerã: a multiplicação dos frontes

O conflito, que já parecia incontrolável desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, assumiu agora proporções regionais e, potencialmente, globais. Além de Gaza, Israel mantém confrontos ativos contra o Hezbollah no sul do Líbano, grupos armados na Cisjordânia e os houthis no Iêmen — todos, direta ou indiretamente, vinculados a Teerã.

Ao decidir colocar o Irã como alvo direto, o governo de Benjamin Netanyahu redesenha não apenas sua estratégia militar, mas também o mapa dos riscos internacionais. Como apontou o historiador israelense Yuval Noah Harari, em entrevista à BBC, “estamos diante de uma guerra que não é mais por territórios, mas por narrativas, símbolos e, sobretudo, pela própria definição de quem pode exercer poder no mundo.”

O Irã, por sua vez, ameaça reagir contra qualquer país que interfira em sua defesa, incluindo Estados Unidos, Reino Unido e França. Já circulam relatos — ainda não confirmados oficialmente — de que militares americanos auxiliaram na derrubada de drones iranianos no mar Vermelho, sinalizando que o risco de alastramento é real.

O colapso do acordo nuclear e o retorno ao brinkmanship

O pano de fundo da escalada é, inevitavelmente, o fracasso do acordo nuclear de 2015. Naquele ano, após anos de negociações, o chamado Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) conseguiu, pela primeira vez, conter o avanço do programa nuclear iraniano, em troca da suspensão de sanções econômicas.

A ruptura veio em 2018, quando Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, retirou unilateralmente seu país do acordo, sob a alegação de que ele era “o pior já assinado na história”. Trump não estava totalmente errado em sua análise técnica: o acordo restringia, mas não eliminava, a capacidade iraniana de enriquecer urânio em níveis próximos ao armamentista. Desde então, Teerã acelerou sua produção de material físsil. Segundo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), divulgado em 12 de abril, o Irã já possui material suficiente para ao menos seis ogivas nucleares.

A declaração da AIEA foi a faísca final. A agência alertou que, pela primeira vez em duas décadas, o Irã estava em plena violação de seus compromissos de transparência. A partir daí, Netanyahu — que enfrenta severa crise de popularidade interna, denúncias de corrupção e protestos constantes contra sua condução da guerra em Gaza — viu uma oportunidade política e estratégica.

Como analisa Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, em entrevista à Foreign Affairs, “o ataque de Israel não é só sobre o Irã, mas sobre reconfigurar o equilíbrio de poder no Oriente Médio, empurrando o Irã para uma posição defensiva permanente.”

O barril de petróleo e o barril de pólvora

Além do custo humano, a guerra ameaça mergulhar o mundo numa crise energética de grandes proporções. O deputado iraniano Esmail Kosari admitiu, neste sábado, que Teerã estuda fechar o estreito de Hormuz, por onde passa mais de 30% do petróleo comercializado no planeta. Com apenas 39 km de largura em seu ponto mais estreito, o gargalo é vital para o fluxo de energia global.

O simples rumor desse movimento já fez o preço do barril de petróleo ultrapassar os US$ 120 na manhã de sábado, o maior patamar desde 2008. O impacto é direto: inflação global, recessão técnica em economias mais frágeis e aumento do custo de vida em escala planetária.

Num apelo solitário, o papa Francisco — erroneamente citado em algumas agências como “Leão XIV” — fez uma declaração contundente: “Em um momento tão delicado, desejo renovar com firmeza um chamado à responsabilidade e à razão.” A voz do pontífice, contudo, parece perdida num mundo onde a diplomacia dá lugar à lógica brutal das armas.

As tentativas de retomada das negociações entre EUA e Irã, previstas para domingo (15), ainda não foram oficialmente canceladas, mas fontes diplomáticas consultadas pelo The New York Times afirmam que “as chances são virtualmente nulas”.

O mundo às portas de um novo século de conflitos?

O que se desenha no horizonte não é apenas mais uma guerra no Oriente Médio, mas a possível confirmação de uma tese que há décadas ronda os círculos acadêmicos: o fim da ordem internacional liberal criada após 1945. Como escreveu o filósofo polonês Zygmunt Bauman, “vivemos tempos líquidos, onde as instituições não conseguem mais conter o medo, e o medo é o maior catalisador da violência” (Medo Líquido, 2006).

Se Teerã fechar Hormuz, se a escalada continuar, ou se uma faísca adicional — como o envolvimento direto dos EUA ou do Hezbollah — ocorrer, o planeta pode ser empurrado para uma crise com reverberações comparáveis às de 1914 ou 1939.

Por ora, o mundo assiste, impotente, enquanto drones, mísseis e bombas traçam no céu do Oriente Médio o contorno de um futuro cada vez mais incerto.

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