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Mundo

Enquanto o mundo olha para o Irã, Israel continua assassinando civis em Gaza

Palestinos estão 'presos' entre forças israelenses, colonos violentos e o Hamas, diz investigação da ONU

Publicado em 09/06/2026 10:26 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Enquanto a atenção internacional se concentra na escalada militar envolvendo Israel, Irã e Líbano — uma dinâmica que ameaça comprometer negociações entre Washington e o regime iraniano — a situação na Faixa de Gaza permanece marcada por operações militares contínuas, mortes de civis e impasses diplomáticos que colocam em xeque a própria definição de cessar-fogo.

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Na segunda-feira, ataques israelenses atingiram Khan Younis, Cidade de Gaza e Deir el-Balah, provocando a morte de pelo menos 14 pessoas e deixando dezenas de feridos, segundo informações de correspondentes da Al Jazeera. Paralelamente, Israel manteve fechadas as entradas do território palestino, restringindo a chegada de ajuda humanitária à população local.

Os principais combates haviam sido oficialmente interrompidos em outubro do ano passado, quando os Estados Unidos anunciaram um acordo de cessar-fogo para Gaza. No entanto, os elementos centrais previstos para consolidar a trégua — retirada das tropas israelenses, desarmamento do Hamas e reconstrução do território devastado pela guerra — permanecem sem implementação efetiva.

Os números registrados desde então ilustram a fragilidade do acordo. De acordo com dados divulgados pelo sistema de saúde de Gaza e referendados pela Organização das Nações Unidas (ONU), quase mil pessoas morreram e cerca de 2.900 ficaram feridas em ações militares israelenses desde o anúncio da trégua.

O conflito teve início após os ataques do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, que deixaram aproximadamente 1.200 mortos. Desde então, o número de vítimas fatais em Gaza se aproxima de 73 mil pessoas, segundo as autoridades sanitárias locais. Os dados são considerados conservadores por pesquisadores independentes e serviram de base para análises internacionais sobre a condução da guerra.

Uma dessas análises foi produzida pela Comissão Internacional Independente de Investigação criada pela ONU, que voltou a divulgar conclusões contundentes sobre a situação nos territórios palestinos. Em relatório publicado nesta terça-feira, o organismo afirma que os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia ocupada estão submetidos de forma “sistemática e deliberada” a graves violações de direitos humanos.

O documento sustenta que os habitantes de Gaza vivem encurralados entre as operações militares israelenses e o que descreve como um governo exercido pelo Hamas por meio da coerção e do medo. Segundo os investigadores, a população civil encontra-se presa entre “atrocidades em massa” praticadas por diferentes atores do conflito.

A comissão recorda que, no ano passado, já havia concluído que Israel cometeu atos classificados como genocidas durante a guerra em Gaza. O novo relatório amplia o foco para incluir também a atuação do Hamas e a violência crescente de colonos israelenses na Cisjordânia.

Segundo o presidente da comissão, Srinivasan Muralidhar, os ataques promovidos por colonos não constituem episódios isolados, mas resultam diretamente de políticas adotadas pelo Estado israelense que, segundo ele, apoiam, facilitam e protegem essas ações.

Dados reunidos pela investigação apontam que, entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, ao menos 26 palestinos morreram e 1.570 ficaram feridos em ataques atribuídos a colonos israelenses. O relatório sustenta que essa violência funciona como um instrumento de implementação das políticas estatais de Israel nos territórios ocupados.

Desde outubro de 2023, soldados israelenses e colonos mataram pelo menos 1.080 palestinos na Cisjordânia, segundo levantamento da AFP baseado em dados do Ministério da Saúde palestino. No mesmo período, números oficiais israelenses registram a morte de pelo menos 46 israelenses — entre civis e militares — em ataques palestinos ou durante operações militares conduzidas por Israel.

A comissão também atribui responsabilidade a grupos vinculados ao Hamas por graves violações de direitos humanos. A investigação documentou 249 episódios de execuções e violência física severa entre 2024 e 2025, que resultaram em pelo menos 108 mortes e 384 feridos. Segundo os investigadores, forças associadas ao Hamas estiveram envolvidas em ao menos 60 desses incidentes.

De acordo com o relatório, organizações ligadas ao grupo islamista se aproveitaram do vácuo institucional produzido pelos bombardeios contínuos e pela ampla destruição da infraestrutura de Gaza para ampliar seu controle sobre a população.

Israel rejeitou integralmente as conclusões da investigação. Em comunicado divulgado pela missão israelense junto à ONU em Genebra, o governo afirmou que o relatório estabelece uma “falsa equivalência moral” entre integrantes do Hamas e civis israelenses e que suas conclusões seriam baseadas em informações incorretas.

Enquanto isso, o Egito conduz uma nova rodada de negociações com representantes do Hamas e de outras facções palestinas na tentativa de evitar o colapso definitivo do cessar-fogo anunciado meses atrás.

Apesar dos esforços diplomáticos, a continuidade dos ataques, o bloqueio à ajuda humanitária e o crescimento do número de vítimas civis evidenciam a distância entre os compromissos assumidos nas mesas de negociação e a realidade enfrentada diariamente pela população de Gaza.

Se a existência de um cessar-fogo for medida apenas pela redução da atenção internacional ou pela ausência de manchetes de grande repercussão, a guerra pode parecer menos intensa. Porém, quando o critério é a preservação de vidas civis, a proteção dos direitos humanos e o acesso da população à assistência humanitária, os números registrados desde a trégua mostram um cenário muito diferente daquele sugerido pelos anúncios diplomáticos.

Quase mil mortes após a declaração do cessar-fogo revelam a persistência de uma crise humanitária que continua produzindo vítimas em larga escala. Em meio às disputas geopolíticas que mobilizam as grandes potências e influenciam mercados internacionais, Gaza permanece como um dos principais epicentros da violência contemporânea, onde a normalização da morte ameaça transformar a tragédia humanitária em rotina.

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