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Mundo
Promessa de intensificar expulsões coloca imigrantes em risco e escancara sistema punitivo que ameaça milhões de pessoas
Publicado em 20/01/2025 1:28 - Semana On
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A imigração como instrumento de controle político ressurge no centro do debate nos Estados Unidos, com Donald Trump prometendo implementar a maior operação de deportações da história do país. Mais que uma política migratória, as medidas revelam um sistema enraizado em décadas de legislações que conectam imigração a segurança pública, ao mesmo tempo em que escancaram as fragilidades de um modelo democrático que ainda luta para conciliar soberania estatal com princípios humanitários.
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Trump, ao assumir seu segundo mandato, herda um sistema já robusto de controle migratório, marcado por programas criados e aperfeiçoados por governos de ambos os espectros políticos. No entanto, seu discurso intensifica um paradoxo central: a promessa de um país livre e acolhedor frente à realidade de políticas cada vez mais punitivas e exclusivas.
As Raízes Históricas de um Sistema Punitivo
A associação entre imigração e criminalidade é resultado de construções históricas que remontam à década de 1980, durante o governo de Ronald Reagan. Sob a bandeira da “guerra às drogas”, leis como o Immigration Reform and Control Act (IRCA) de 1986 consolidaram o duplo movimento de regularização de milhões de imigrantes e, simultaneamente, o endurecimento das políticas de controle. O uso do detainer—uma ferramenta que permite a cooperação entre prisões locais e agentes federais—marcou o início de uma política que ampliaria, ao longo das décadas, o alcance da justiça criminal no controle migratório.
Já na década de 1990, Bill Clinton expandiu a lista de crimes que poderiam levar à deportação, criando o programa 287(g), que habilita policiais locais a atuar em conjunto com o ICE. Posteriormente, George W. Bush lançou o Comunidades Seguras, um programa de compartilhamento de dados biométricos que facilitou a identificação de imigrantes indocumentados.
Durante o governo de Barack Obama, essas políticas foram universalizadas, resultando em um número recorde de deportações, que valeu ao presidente o título controverso de “deportador-chefe”. Apesar de sua retórica progressista, Obama ilustra uma realidade inescapável: a deportação de imigrantes tornou-se uma prática institucionalizada, mais eficiente e abrangente do que nunca.
O Endurecimento do Estado Sob Trump
O retorno de Trump ao poder em 2025 não é apenas a reedição de sua agenda migratória. É uma escalada. O plano de deportar milhões de imigrantes, anunciado como “a maior operação da história dos EUA”, reflete uma abordagem que mescla práticas já existentes com inovações legalmente questionáveis, como o uso da Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798. Essa lei, concebida para tempos de guerra, permite a detenção de indivíduos estrangeiros considerados uma ameaça, e sua aplicação em um contexto moderno pode criar um precedente perigoso para o uso discricionário do poder presidencial.
Além disso, o projeto de lei Laken Riley, atualmente em discussão no Congresso, amplia a lista de crimes que podem levar à deportação para incluir delitos menores, como furto. Embora esse endurecimento seja promovido sob o pretexto de garantir segurança, ele reflete uma narrativa que, segundo a criminóloga Rocio Paez Ritter, é desconectada da realidade. Estudos mostram que imigrantes, documentados ou não, cometem crimes em taxas menores do que cidadãos nativos, mas o discurso político frequentemente ignora esses dados em favor de uma retórica alarmista.
O Texas: Laboratório de Políticas de Exclusão
O estado do Texas emerge como modelo para a implementação das políticas de Trump. Nos últimos anos, o estado investiu bilhões de dólares no fortalecimento de suas fronteiras e na criminalização de imigrantes, utilizando estratégias que combinam fiscalização local e federal. Leis estaduais, como o Projeto de Lei do Senado 4, buscam transformar a entrada ilegal em um crime estadual, uma medida que já enfrenta oposição judicial mas que serve de símbolo para a abordagem combativa do Texas.
O uso do sistema de justiça criminal para controlar a imigração é uma tendência observada desde o início das políticas federais de deportação em massa, mas o Texas elevou essa prática a um novo patamar. Processos por delitos menores, como invasão de propriedade, muitas vezes resultam em detenções prolongadas e posterior deportação, exemplificando a interseção entre as esferas criminal e migratória.
Impactos na Democracia e nos Direitos Humanos
Mais do que números ou legislações, as políticas de deportação tocam questões fundamentais sobre os limites da democracia e da soberania em um mundo globalizado. Sob a lógica soberanista, o Estado tem o direito de definir quem entra e quem permanece em seu território. Contudo, essa prerrogativa entra em choque com princípios de direitos humanos e valores democráticos que defendem a dignidade universal e o direito à proteção contra perseguições ou crises humanitárias.
Cerca de 3 milhões de imigrantes vivem nos EUA sob programas temporários de proteção, como o Status de Proteção Temporária (TPS). Essas pessoas, muitas delas provenientes de países afetados por desastres naturais ou instabilidade política, vivem sob constante ameaça de deportação, mesmo após anos contribuindo para a sociedade americana. O cancelamento desses programas, como temem defensores dos direitos dos imigrantes, não apenas comprometeria a integridade dessas famílias, mas também aprofundaria as desigualdades que alimentam crises migratórias globais.
Economia e a Realidade Invisível dos Indocumentados
A retórica contra os imigrantes frequentemente ignora a realidade econômica subjacente: muitos setores essenciais, como agricultura, construção civil e serviços, dependem da mão de obra imigrante. A deportação em massa de milhões de pessoas teria consequências econômicas severas, interrompendo cadeias produtivas e ampliando custos para estados e municípios que dependem desses trabalhadores.
Além disso, o impacto social é incalculável. Famílias separadas, crianças cidadãs americanas deixadas sem amparo e a desintegração de comunidades inteiras são apenas algumas das consequências de políticas que tratam seres humanos como números em um balanço político.
A Democracia Posta à Prova
O debate sobre imigração nos Estados Unidos não é apenas sobre leis ou números. É um reflexo das tensões centrais de uma democracia que luta para equilibrar segurança e compaixão, soberania e universalismo. Ao prometer deportações em massa, Trump testa os limites do sistema jurídico e do ethos democrático americano, desafiando a sociedade a refletir sobre o tipo de nação que deseja ser.
Mais do que nunca, é imperativo um debate público informado, que transcenda a retórica de medo e explore alternativas que respeitem a dignidade humana sem abrir mão da governança. Afinal, como advertiu Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, “a privação de direitos não é apenas um ato de exclusão; é uma negação da própria essência da humanidade”.
Donald Trump, realmente, precisa fazer sim, a deportação de imigrantes ilegais. Acredito que não é justo como um bom administrador, estar onerando o orçamento do seu estado, para manter cidadãos que não são de seu país, se até com os cidadãos de seu país, a máquina pública precisa ser eficiente. Ao contrário do que é feito aqui no Brasil.