Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Especial
Volta de Trump testará os limites da democracia global
Publicado em 17/01/2025 1:20 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Na segunda-feira, 20 de janeiro, Donald Trump tomará posse como o 47º presidente dos Estados Unidos, encerrando um interregno de quatro anos fora do poder. O evento, realizado sob forte esquema de segurança com 25.000 agentes mobilizados, simboliza o regresso de uma figura que não apenas transformou a política americana, mas também remodelou as dinâmicas globais com sua abordagem polarizadora e imprevisível.
Clique para seguir a SEMANA ON no Instagram, no Facebook e no Whatsapp
Trump reassume o poder em condições que amplificam sua influência. Além da conquista do Executivo, os republicanos obtiveram maiorias nas duas casas do Congresso, ainda que por margens apertadas. Essa “trifeta” republicana, um feito político notável, confere ao novo mandato um potencial inédito de remodelar a política doméstica e internacional, embora com desafios significativos à sua agenda.
A posse não será apenas um ato político, mas um espetáculo cuidadosamente coreografado para refletir o retorno triunfal de Trump. Com um orçamento de US$ 200 milhões, financiado por doadores entusiasmados, o evento inclui comícios, bailes de gala, fogos de artifício e um desfile até a Casa Branca, onde o presidente e a primeira-dama Melania Trump, reabilitada como ícone de moda, iniciarão o que prometem ser quatro anos turbulentos.
Entre os convidados, destacam-se nomes como Elon Musk, agora figura central na gestão trumpista, e os chefes das big techs, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, que abraçaram o pragmatismo político ao se aproximarem da direita americana. Esses movimentos reforçam o peso simbólico do evento como marco de um novo ciclo conservador.
Prioridades internas: cultura, economia e imigração
Trump retorna ao poder com um programa que intensifica as políticas de seu primeiro mandato. Entre as primeiras ações, promete assinar mais de 100 ordens executivas no primeiro dia, focadas em temas como endurecimento contra a imigração ilegal, cortes de impostos e desregulamentação ambiental.
Sua meta de deportar mais de 1 milhão de imigrantes ilegais por ano é uma das promessas mais audaciosas — e controversas. A implementação, no entanto, enfrenta desafios jurídicos e orçamentários, com estimativas apontando custos superiores a US$ 300 bilhões. Além disso, sua política cultural, centrada no combate ao chamado “vírus woke”, reflete um esforço para consolidar uma narrativa conservadora nas instituições educacionais e culturais.
Outras prioridades incluem a redução do papel do governo federal, com a possível eliminação do Departamento de Educação, e a expansão dos subsídios à indústria de combustíveis fósseis, um retrocesso significativo na agenda ambiental global.
Na política externa, um foco em interesses imediatos
No cenário internacional, Trump se apresenta como o desmanche do multilateralismo. Sua estratégia de redução da participação americana em organismos como a ONU, Otan e OMS reflete a visão de que o poder americano deve ser exercido de forma unilateral e transacional.
A relação com aliados tradicionais será profundamente afetada. Líderes europeus, como Emmanuel Macron e Olaf Scholz, enfrentam críticas diretas e até insultos de Trump, enquanto outros, como o britânico Keir Starmer, tentam manobrar diplomaticamente para garantir acordos comerciais bilaterais.
A rivalidade com a China e a Rússia, no entanto, destaca-se como o eixo principal da política externa americana. Enquanto Moscou espera aproveitar a retração da Otan para fortalecer sua posição na Europa, Pequim encara um desafio direto às suas exportações, com Trump prometendo tarifas de até 30%. No entanto, a falta de coordenação com outros países enfraquece a capacidade dos Estados Unidos de conter a influência chinesa.
A ascensão de uma nova ordem conservadora
Trump também desempenha um papel central na construção de uma aliança global de líderes de extrema direita, reunindo nomes como Viktor Orbán, Giorgia Meloni e Javier Milei. Elon Musk, como emissário informal, tem reforçado essas conexões, utilizando sua influência tanto no setor tecnológico quanto político para consolidar um arco conservador global.
As ações de Trump nesse campo não se limitam a rapapés. Ele tem usado suas plataformas para atacar opositores e promover aliados, alimentando uma retórica polarizadora que repercute em todo o mundo. Recentemente, elogios ao partido Alternativa para a Alemanha, de forte inspiração neonazista, e provocações diretas a líderes como Justin Trudeau e Volodymyr Zelensky destacam o tom beligerante de sua diplomacia.
Para o Brasil, o retorno de Trump significa um cenário de maior isolamento. Como presidente do Brics e anfitrião da próxima conferência do clima da ONU, o Brasil posiciona-se em clara oposição às prioridades da administração americana. Além disso, as críticas de Trump ao governo brasileiro refletem um alinhamento geopolítico cada vez mais divergente, especialmente em questões ambientais e comerciais.
Mais do que em 2016, o novo mandato de Trump coloca à prova a resiliência das instituições democráticas dos Estados Unidos e no mundo. Seu estilo de governar, caracterizado por decisões unilaterais e retórica incendiária, encontra um cenário político mais polarizado e um sistema jurídico frequentemente acionado como contrapeso.
“A democracia americana sobreviveu a grandes crises no passado, mas Trump testa os limites de forma única”, observa o cientista político Richard Bensel, da Universidade Cornell. Suas políticas não apenas polarizam o país, mas também têm o potencial de alterar profundamente a ordem global.
Com Trump de volta à Casa Branca, o mundo ingressa em um período de incertezas. As promessas de mudanças radicais, tanto internas quanto externas, sugerem uma reconfiguração de forças que pode moldar o futuro das próximas décadas.
Seja na política interna ou no cenário internacional, o governo Trump 2.0 será, sem dúvida, um espetáculo. Mas, como ficou claro em seu primeiro mandato, o custo desse show pode ser alto — tanto para os Estados Unidos quanto para o resto do mundo.
A Mobilização Contra as Ameaças Autoritárias de Trump
A biblioteca pública de New Haven (Connecticut), em uma noite de inverno com temperatura abaixo de zero, tornou-se palco de algo mais profundo do que um simples encontro comunitário. Ali, no subsolo, longe dos olhos do público, cerca de 50 pessoas reuniram-se para planejar estratégias de resistência contra o que consideram uma ameaça sem precedentes à democracia americana: a iminente posse de Donald Trump. A reunião, organizada pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) – e acompanhada pelo jornalista Jamil Chade (UOL) – refletia o sentimento de urgência que toma conta de grupos progressistas nos Estados Unidos diante de um cenário político marcado pela ascensão do autoritarismo.
A democracia americana, frequentemente celebrada como modelo global, enfrenta um momento crítico. Historicamente, sua trajetória sempre oscilou entre a promessa de liberdade e a prática da exclusão. Desde os tempos da escravidão e da segregação racial, passando pela repressão aos movimentos trabalhistas e pelos ataques a minorias, os Estados Unidos foram marcados por ciclos de progresso e retrocesso. Hoje, esse ciclo parece se repetir.
Donald Trump, em seus discursos e promessas de campanha, reacendeu as brasas de tensões que muitos acreditavam adormecidas. Entre suas declarações, destaca-se o desejo de reverter políticas de diversidade, limitar direitos reprodutivos, deportar em massa imigrantes e até mesmo contemplar a ideia de “ser ditador por um dia”. Para ativistas e estudiosos, isso não é apenas uma ameaça política, mas um sinal de erosão democrática. O historiador Timothy Snyder, em Sobre a Tirania, alerta: “A história não se repete, mas instrui. Ela nos mostra caminhos, mas também nos avisa sobre perigos.”
Essa erosão, ao que tudo indica, não ocorre no vácuo. Sociólogos como Zygmunt Bauman apontaram que a modernidade líquida — com suas incertezas e desigualdades — cria um terreno fértil para discursos autoritários, especialmente em contextos de crise econômica e polarização política. Trump e seus aliados, munidos de uma retórica populista, exploram essas vulnerabilidades ao desumanizar minorias e transformar o medo em uma ferramenta de controle social.
O encontro em New Haven era parte de um esforço maior para enfrentar essa nova realidade. Igrejas, escolas e centros comunitários por todo o país têm promovido reuniões semelhantes, buscando evitar a surpresa que marcou o início do governo Trump em 2017. Desta vez, a organização progressista surge mais articulada. “Vamos viver a ameaça de uma hostilidade por parte do governo. Precisamos nos ajudar mutuamente”, afirmou Bethany Perryman, uma das coordenadoras do evento.
Durante mais de duas horas, os participantes receberam orientações práticas sobre como agir em situações de abuso de poder. O treinamento incluiu o que fazer em caso de prisões arbitrárias, como proteger informações pessoais e como buscar apoio jurídico imediato. Advogados e conselheiros jurídicos destacaram a importância de conhecer direitos básicos, como o direito ao silêncio e à presença de um advogado, especialmente para imigrantes.
No centro das discussões estavam as ameaças a três grupos principais: mulheres, imigrantes e a comunidade LGBTQI+. Cada segmento recebeu atenção específica, com foco em medidas preventivas e na construção de redes de solidariedade.
A Situação das Mulheres: Direitos em Risco
Em estados progressistas como Connecticut, o direito ao aborto é legalmente garantido. No entanto, como alertou Jess Zaccagnino, especialista em litígios, a guerra contra os direitos reprodutivos está sendo travada em outras frentes. Intimidações, vazamento de dados médicos e barreiras burocráticas são algumas das estratégias utilizadas por grupos conservadores. “Precisamos assegurar que retrocessos não sejam possíveis. Isso inclui garantir que o direito ao aborto esteja na Constituição estadual”, afirmou Zaccagnino.
A sugestão prática para as mulheres presentes foi clara: revisar contratos médicos, proteger informações pessoais em plataformas digitais e ter acesso rápido a suporte jurídico em caso de necessidade. Os desafios, contudo, são profundos. Como mostram os dados do Instituto Guttmacher, quase metade das mulheres americanas vive em estados onde os direitos reprodutivos enfrentam sérias ameaças.
Imigrantes na Linha de Frente
A situação dos imigrantes foi outro ponto central do encontro. Nos últimos anos, a retórica anti-imigração ganhou força nos Estados Unidos, reforçando preconceitos históricos. Para muitos estrangeiros, especialmente os classificados como “latinos”, o discurso político de exclusão tornou-se sinônimo de insegurança diária.
“Estamos prevendo operações em locais de trabalho, escolas e residências”, alertou Perryman. O conselho para os imigrantes foi direto: não abrir portas sem um mandado judicial válido e conhecer a fundo os próprios direitos. Christopher, um ativista equatoriano presente na reunião, compartilhou o medo que assola as comunidades de imigrantes. “Há muito medo. Eles redescobriram o que é ser chamado por insultos que pareciam fazer parte do passado”, lamentou.
A dimensão humana da questão também foi ressaltada. “Quando um pai ou mãe são detidos, é a renda da família que desaparece”, explicou Perryman, pedindo que os vizinhos se organizem para apoiar as famílias afetadas, seja com alimentos, apoio emocional ou ajuda financeira.
LGBTQI+: Alvo de Intimidações
Outro grupo vulnerável são as pessoas LGBTQI+. “Sabemos que esse grupo estará na mira do próximo governo”, destacou Perryman. Vazamentos de dados médicos e ataques a direitos conquistados nas últimas décadas são preocupações centrais. Na plateia, casais se abraçavam, enquanto os palestrantes reforçavam a necessidade de criar redes de proteção e apoio mútuo.
Um Apelo à Ação Coletiva
A reunião terminou com uma mensagem clara: a resistência será longa, mas necessária. Ativistas destacaram a importância do monitoramento das forças de segurança, da denúncia de abusos e da mobilização pública. “Eles querem nos paralisar pelo medo. Não podemos permitir que isso aconteça”, afirmou Perryman.
Ao saírem do encontro, os participantes enfrentavam não apenas o frio cortante, mas também a dura realidade de um país em um momento de encruzilhada. Lá fora, as ruas congeladas de New Haven tornavam-se uma metáfora do inverno político que assola os Estados Unidos.
Como lembrou Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, “as crises expõem, com brutalidade, as falhas das instituições”. A mobilização em New Haven e em tantas outras cidades americanas é uma tentativa de corrigir essas falhas pela ação coletiva. Em um momento em que os pilares da democracia estão sob ataque, o apelo à participação cidadã emerge como a principal defesa contra o autoritarismo.
A luta não será fácil. Mas, como mostraram aqueles reunidos no subsolo da biblioteca, há força na resistência. E, como na metáfora do inverno, a esperança é que, após o frio e a escuridão, a primavera democrática possa emergir novamente.
Fórum Econômico mundial identifica escalada de conflitos
O retorno de Donald Trump ao poder, com uma agenda declaradamente isolacionista e contrária a princípios colaborativos em questões climáticas e tecnológicas, intensifica os riscos apontados no Global Risks Report 2025, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial na quarta-feira (15). Ao priorizar a exploração de combustíveis fósseis, criticar iniciativas multilaterais como o Acordo de Paris e adotar uma postura desregulatória em relação às plataformas digitais, Trump emerge como um catalisador de instabilidade em um cenário já alarmante, marcado pela escalada de conflitos armados, crises ambientais e dilemas éticos da inteligência artificial. Essa convergência de crises, somada à fragmentação política global e à desinformação digital, coloca em xeque a capacidade das lideranças internacionais de promover a cooperação necessária para enfrentar os desafios que definirão a próxima década.
O Global Risks Report 2025 antecipa as discussões da reunião anual em Davos, Suíça, que reúne perspectivas de mais de 900 líderes empresariais, políticos e acadêmicos, e traça um cenário inquietante sobre o futuro da estabilidade global.
O tema central do encontro deste ano, “Um Apelo à Colaboração na Era da Inteligência”, busca enfrentar os desafios que vão desde a persistência de tensões geopolíticas até os impactos do aquecimento global e os dilemas éticos e políticos trazidos pela rápida evolução da tecnologia. Em um mundo em que crises se retroalimentam e lideranças globais mostram-se frequentemente descoordenadas, o Fórum enfatiza que a cooperação não é apenas uma escolha, mas uma necessidade.
O relatório revela que quase um quarto dos participantes da pesquisa (23%) considera os conflitos armados entre Estados o maior risco para 2025. Este dado reflete um cenário global marcado por uma “geopolítica de desordem”, como definiu o cientista político Ian Bremmer, fundador do Eurasia Group. Exemplos concretos incluem a guerra em curso na Ucrânia, que não só desestabiliza a Europa como afeta cadeias globais de energia e alimentos, e os conflitos no Sudão do Sul e na Faixa de Gaza, que geram crises humanitárias e agravam divisões regionais.
As discussões em Davos, que contará com a participação de mais de 60 chefes de Estado, terão como um dos focos centrais as dinâmicas de poder no Oriente Médio. Segundo o presidente do WEF, George Brende, a “terrível situação humanitária em Gaza” e o risco de uma escalada mais ampla no Oriente Médio estão no topo das preocupações. O desenrolar das negociações de um cessar-fogo mediado pelo Catar será um indicador importante para medir a capacidade da diplomacia global de conter crises de alta intensidade.
Essa escalada de tensões não é apenas reflexo de conflitos regionais. Ela também se conecta à crescente rivalidade entre grandes potências, como Estados Unidos, China e Rússia, cuja competição estratégica molda alianças, políticas de segurança e investimentos globais. Como destaca o relatório, a fragmentação econômica e política compromete a capacidade de ação coletiva, deixando o mundo vulnerável a conflitos localizados que podem facilmente se espalhar.
Crise Climática: O Risco Existencial do Século
A emergência climática não é apenas um tema recorrente no relatório do Fórum; ela é tratada como uma ameaça sistêmica de longo prazo. Para 2025, fenômenos meteorológicos extremos foram apontados como o segundo maior risco por 14% dos entrevistados. Entretanto, no horizonte de uma década, a crise climática domina a percepção de riscos, com quatro entre dez respostas conectando-se a desafios ambientais, como perda de biodiversidade, escassez de recursos naturais e alterações críticas nos sistemas terrestres.
Os números são alarmantes. Em 2024, a temperatura global média alcançou um recorde de 1,54°C acima dos níveis pré-industriais. Esse aumento alimentou eventos climáticos catastróficos, como incêndios florestais na Califórnia, inundações devastadoras no Paquistão e secas severas na África Subsaariana. O impacto econômico é igualmente devastador: segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o custo global das catástrofes climáticas chegou a US$ 320 bilhões no último ano.
Gim Huay Neo, diretor executivo do WEF, destacou que a crise climática exige “atenção e ação urgentes”. Contudo, a ação global continua aquém do necessário, com avanços tímidos na implementação do Acordo de Paris e compromissos frágeis para mitigar emissões de carbono. A retirada iminente dos Estados Unidos do acordo, anunciada pelo presidente Donald Trump, promete enfraquecer ainda mais os esforços multilaterais.
Tecnologia: Riscos da IA e o Crescimento da Desinformação
Paralelamente aos desafios geopolíticos e climáticos, o relatório ressalta os riscos associados ao avanço tecnológico. A desinformação digital e os potenciais resultados adversos da inteligência artificial (IA) aparecem como ameaças crescentes. As tensões nesse campo se intensificaram com o retorno de Donald Trump ao poder, cuja postura desregulatória em relação às grandes plataformas digitais preocupa analistas. A decisão da Meta de abandonar a checagem de fatos ilustra os perigos do enfraquecimento de mecanismos de controle sobre a propagação de fake news.
Além disso, os riscos da IA transcendem o campo da desinformação. Especialistas como o físico Max Tegmark, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), alertam para cenários extremos em que sistemas de IA poderiam, no futuro, escapar ao controle humano. No entanto, mesmo no curto prazo, o impacto da IA sobre empregos, privacidade e desigualdade já suscita debates em Davos.
Davos e a Era da Incerteza
O encontro em Davos ocorre em um contexto político global tenso. A participação virtual de Donald Trump e suas críticas frequentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reforçam a percepção de que os Estados Unidos, sob sua liderança, estão priorizando uma agenda isolacionista. A pressão para que aliados aumentem os gastos militares reflete uma visão de curto prazo que, segundo críticos, desvia recursos de investimentos em segurança climática e tecnológica.
O Fórum Econômico Mundial, por sua vez, busca defender uma agenda que privilegia a colaboração multilateral. Como destacou Klaus Schwab, fundador do WEF, “os problemas do século XXI não podem ser resolvidos com as ferramentas do século XX”. A necessidade de repensar estruturas de governança global, integrar avanços tecnológicos de forma ética e enfrentar a crise climática com ambição são pontos centrais dessa visão.
O Global Risks Report 2025 não é apenas um alerta; é um chamado à ação. A escalada de conflitos armados, os efeitos devastadores da crise climática e os riscos tecnológicos interconectados exigem liderança corajosa e cooperação global. Em um mundo em que as divisões são amplificadas por crises simultâneas, o encontro em Davos pode ser um ponto de partida para soluções que promovam resiliência e reconstruam a confiança no multilateralismo.
Como afirmou Mirek Dusek, diretor-geral do WEF, “os desafios nunca foram tão grandes”. Resta saber se os líderes globais estão dispostos a enfrentá-los com a urgência que o momento exige.
Biden Alerta para as Ameaças à Democracia
Em uma mensagem final carregada de advertências sobre os rumos da democracia, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, usou seu discurso de despedida na quarta-feira (15) para chamar atenção à crescente concentração de riqueza e poder no país. Falando diretamente do Salão Oval, Biden afirmou que “uma oligarquia está tomando forma nos Estados Unidos”, alertando que a combinação entre grandes corporações e governos representa uma ameaça direta aos direitos fundamentais e à viabilidade do sistema democrático.
Biden evocou as palavras de Dwight Eisenhower, que em 1961 alertou sobre os perigos do “complexo militar-industrial” ao deixar a presidência. “Hoje, temo o surgimento de um complexo tecnológico-industrial igualmente perigoso, que pode colocar em risco nossa liberdade e nossos direitos”, pontuou Biden, conectando sua análise histórica ao impacto contemporâneo das grandes empresas de tecnologia. O presidente foi enfático ao afirmar que “o abuso desse poder, se não contido, terá consequências graves para nossa sociedade.”
Aos 81 anos e com uma trajetória de mais de 50 anos na vida pública, Joe Biden conclui um mandato singular, sendo sucedido pelo republicano Donald Trump, o mesmo que o precedera na Casa Branca. Sua fala buscou sintetizar um legado de tentativas de fortalecimento institucional e acordos diplomáticos, como o recente cessar-fogo entre Israel e Hamas. Entretanto, as críticas implícitas ao sucessor e sua proximidade com grandes empresários marcaram um tom de alerta.
Nomes como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos foram mencionados no contexto de doações políticas e reuniões privadas com Trump em seu clube na Flórida, ressaltando a influência dos bilionários sobre o futuro governo. Esse movimento, segundo Biden, pode exacerbar o desequilíbrio de poder e minar a democracia. “A concentração de riqueza e poder também é um grande perigo em uma democracia”, declarou.
Biden também criticou o papel das plataformas digitais no cenário político atual, citando a recente exclusão de ferramentas de checagem de fatos por algumas empresas de mídia social. “Estamos vivendo uma era de rápidas mudanças tecnológicas e econômicas. Isso exige mais, não menos, responsabilidade das grandes corporações,” frisou. Esse aspecto reflete preocupações maiores sobre como a desinformação e a manipulação algorítmica podem distorcer o debate público.
Pesquisadores como Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism, corroboram essas preocupações. Zuboff argumenta que “as grandes plataformas tecnológicas têm reconfigurado os sistemas democráticos ao priorizarem lucros sobre a verdade”. Essa perspectiva ecoa nas palavras de Biden, que incentivou os americanos a “permanecerem atentos às liberdades e instituições” em um momento de transição política.
Além de delinear os perigos da era tecnológica, Biden voltou sua atenção à dinâmica econômica dos EUA. Dados recentes mostram que o 1% mais rico concentra aproximadamente 32,3% da riqueza do país, segundo o Federal Reserve, reforçando a crítica do presidente ao crescimento das disparidades socioeconômicas.
O discurso não apenas refletiu sobre os desafios contemporâneos, mas também evocou a história como guia. O paralelo traçado entre Eisenhower e os tempos atuais sugere que o ciclo de concentração de poder econômico, se deixado sem controle, pode se tornar uma força corrosiva para as democracias modernas.
Ao encerrar sua mensagem, Biden destacou a importância de uma transição pacífica de poder, reiterando que “o poder do presidente não é ilimitado, nem deveria ser.” Seu discurso deixa um legado de preocupação com os valores democráticos e um apelo para que os cidadãos mantenham o sistema político sob vigilância constante.
Com a volta de Donald Trump à Casa Branca e um cenário político global instável, as palavras de Biden soam como uma advertência para a próxima geração. Mais do que uma despedida, sua fala foi um convite à reflexão coletiva sobre o papel da democracia em um mundo cada vez mais desigual e interconectado.
Deixe um comentário