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Judiciário

PF aponta uso de dinheiro vivo e luxo por desembargador em MS

Perícia em celulares revela indícios de corrupção, lavagem de dinheiro e venda de decisões judiciais no TJMS

Publicado em 03/05/2025 10:02 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em um país em que a Justiça deveria ser o esteio da moralidade pública e o último bastião contra os abusos de poder, um novo escândalo ameaça corroer ainda mais a já frágil confiança nas instituições. A Polícia Federal revelou, por meio de um relatório obtido pelo g1 e pela TV Globo, que desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) são suspeitos de operar um esquema sistemático de venda de decisões judiciais. A principal fonte de comprovação: a perícia dos celulares apreendidos na operação Ultima Ratio, deflagrada em outubro de 2024.

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No centro das investigações está o desembargador Alexandre Bastos, cujo celular revelou mensagens comprometedoras trocadas com assessores e familiares, além de movimentações financeiras incompatíveis com a renda legal. Segundo a Polícia Federal, Bastos movimentou ao menos R$ 276 mil em dinheiro vivo entre 2022 e 2024, sendo que R$ 219 mil não têm origem conhecida. Parte desses valores teria sido utilizada, por exemplo, na aquisição de um carro de luxo, numa demonstração de como a ostentação se converteu em sintoma da degradação institucional.

O relatório policial é contundente ao afirmar que os recursos têm “origem ilícita”, associada diretamente à venda de decisões judiciais. A investigação ainda aponta indícios de lavagem de dinheiro, extorsão e falsificação. E o mais grave: essa suspeita não paira sobre um ou dois indivíduos isolados, mas sobre um esquema articulado dentro do Judiciário estadual, com possíveis ramificações em outras instâncias.

Durante as buscas da operação Ultima Ratio, autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e depois remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, foram encontrados mais de R$ 3 milhões em dinheiro vivo. Só na residência de um dos desembargadores foram apreendidos R$ 2,7 milhões. Armas também foram localizadas, elevando o grau de gravidade do caso para além da corrupção administrativa.

Corrupção judicial: uma ferida na democracia

A denúncia abala não apenas a estrutura do Judiciário sul-mato-grossense, mas expõe uma ferida mais profunda: o comprometimento do sistema de Justiça com interesses privados, ilegítimos e, sobretudo, criminosos. A venda de sentenças corrói o princípio republicano de que todos devem ser iguais perante a lei. Como afirma o jurista e filósofo Norberto Bobbio, “o poder corrompe quando se emancipa de qualquer controle”. A ausência de mecanismos eficazes de fiscalização interna transforma tribunais em castelos de impunidade.

Casos semelhantes marcaram negativamente a história recente da Justiça brasileira. Em 2010, por exemplo, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já alertava para a necessidade de maior controle sobre a movimentação patrimonial de magistrados. Contudo, o corporativismo judiciário e a resistência a reformas estruturantes têm minado avanços substanciais. Como pontua a socióloga Maria Tereza Sadek, pesquisadora da USP e especialista em sistema judiciário, “a transparência e a accountability ainda são desafios centrais no Judiciário brasileiro”.

“Ultima Ratio”: quando a Justiça se investiga a si mesma

O nome da operação — Ultima Ratio, expressão em latim que remete à ideia de que a Justiça é o último recurso do Estado contra o crime — ganha uma dimensão irônica diante do contexto. Quando aqueles incumbidos de julgar se tornam réus, o que resta ao cidadão? O sistema que deveria proteger os direitos fundamentais e garantir a ordem constitucional passa a operar como engrenagem de interesses particulares.

Neste cenário, a atuação da Polícia Federal e a resposta do STJ e STF são cruciais não apenas para punir os culpados, mas para reafirmar a autoridade moral e jurídica do Estado de Direito. A corrupção judicial não é apenas um delito administrativo; ela representa uma ameaça direta à democracia, ao pacto civilizatório e à confiança coletiva.

O silêncio da defesa de Alexandre Bastos, procurada pela reportagem do g1 sem retorno até o fechamento da matéria, acrescenta mais uma camada de opacidade ao caso. Mas a responsabilidade institucional vai além da figura individual: ela clama por reformas profundas, que fortaleçam a independência do Judiciário sem blindá-lo de prestar contas.

A democracia entre o escândalo e a esperança

O escândalo no TJMS é mais do que uma crônica policial. Ele é um retrato alarmante da degradação das instituições em tempos de crise da democracia liberal, marcada pelo enfraquecimento da ética pública e pela prevalência de interesses corporativos. Ao mesmo tempo, representa uma oportunidade: a de reconstruir um Judiciário mais transparente, responsável e comprometido com os princípios constitucionais.

Em 2022, segundo levantamento do CNJ, o Judiciário brasileiro movimentou mais de R$ 130 bilhões, com mais de 18 mil magistrados em atividade. Trata-se de uma das estruturas mais onerosas do mundo, o que exige ainda mais rigor na prevenção de abusos e desvios. Como dizia Montesquieu, “uma coisa não é justa porque é lei, mas deve ser lei porque é justa”.

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