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Especial

O BRASIL SOB ATAQUE

EUA e Bolsonarismo põe soberania, economia e segurança em risco

Publicado em 29/05/2026 8:18 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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A decisão do governo de Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras foi celebrada por setores da oposição brasileira como uma vitória no combate ao crime organizado. Mas, para além do impacto político imediato, a medida inaugura um cenário de consequências potencialmente profundas para o Brasil.

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Especialistas em segurança, juristas, diplomatas e integrantes do governo federal alertam que o enquadramento não se limita à retórica da guerra ao narcotráfico: ele pode abrir espaço para sanções econômicas, ampliar riscos ao sistema financeiro, tensionar relações diplomáticas, alimentar disputas eleitorais e até servir de fundamento para ações extraterritoriais sob a doutrina antiterrorismo dos Estados Unidos.

Em meio a acusações de interferência estrangeira, preocupações com a soberania nacional e questionamentos sobre os interesses políticos por trás da iniciativa, o país se vê diante de um debate que ultrapassa o combate às facções criminosas e alcança temas centrais da democracia brasileira, da geopolítica regional e do papel que potências globais pretendem exercer sobre a América Latina nos próximos anos.

O governo dos EUA assinou ontem (28) a classificação das facções criminosas brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês). A medida vale a partir do dia 5 de junho.

O documento foi assinado pelo secretário de Estado Marco Rubio é um resultado direto dos pedidos feitos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Donald Trump, ao vice-presidente, JD Vance, e ao próprio Rubio, com quem ele esteve reunido nos últimos dois dias, na Casa Branca.

Em um post na rede X em que anuncia a decisão, Rubio afirma que “o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Seu alcance estende-se por toda a nossa região e chega ao nosso país”.

Pré-candidato à Presidência, Flávio tinha na pauta uma de suas principais bandeiras políticas. A segurança pública é um dos temas centrais na corrida eleitoral de 2026. Ele, o irmão Eduardo e outros bolsonaristas comemoraram a decisão.

Soberania em risco

Especialistas em segurança pública avaliam a decisão é uma desculpa para interferência indevida em assuntos nacionais. O verdadeiro objetivo dos norte-americanos seria intervir na eleição presidencial deste ano e na negociação em trono das terras raras.

Assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim criticou a decisão: “Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública emitiu nota lamentando que um tema com “implicações profundas” para a soberania e autonomia do Brasil, além de possíveis efeitos sobre a economia, o sistema financeiro e mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido “capturado pela disputa eleitoral”.

Segundo o texto, a medida vem sendo incentivada como solução para um problema “bem mais complexo”, sem considerar os riscos de iniciativas unilaterais de outros países para uma economia do porte da brasileira.

Ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo também se opôs à medida, em entrevista ao site da revista Carta Capital. “É uma ofensa à soberania nacional e seguramente será utilizada pelo governo Trump — que se considera xerife do mundo — para intervir no território nacional com medidas que só podem ser tomadas por quem é soberano”, critica. “No Brasil, o soberano é o povo brasileiro, não Donald Trump.”

O geógrafo Elias Jabour aponta implicações graves. “Os EUA conseguiram o pretexto que necessitavam para ter acesso a recursos naturais e ativos estratégicos aqui no Brasil. Eu explico: quando eles alcunham qualquer organização fora de seu país como ‘organização terrorista’, isso passa de uma condição de extraterritorialidade para invadir aquele país, por exemplo, sob pretexto de combate às drogas”, afirma.

Maior autoridade no combate ao PCC, o promotor Lincoln Gakiya explicou que a medida não ajuda no combate ao crime e cria riscos adicionais. “Eu não tenho dúvida, vai causar problemas de toda ordem no Brasil e não vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e como fez também na Venezuela”, disse ele à jornalista Natuza Nery, no podcast “O Assunto”.

Luis Flávio Sapori, especialista em segurança pública da PUC-Minas, vê comprometimento da autodeterminação do Brasil. “O principal risco dessa medida é que isso pode afetar a soberania nacional. À medida que os Estados Unidos qualificam essas facções como terroristas, eles podem utilizar as suas Forças Armadas para fazer intervenções diretas nos países que abrigam essas facções”, disse, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.

Para o Instituto Sou da Paz, os crimes do PCC e do CV afetam, diariamente, a vida de milhões de pessoas em suas áreas de influência. Contudo, afirma, “é um erro classificar como terroristas grupos cuja finalidade principal é gerar lucro com atividades ilícitas”.

“Medidas de cooperação prática, como o acordo anunciado entre Estados Unidos e Receita Federal [recentemente] para agilizar a troca de informações, tendem a ser muito mais eficazes para enfraquecer o crime organizado do que uma classificação juridicamente controversa e de baixo efeito operacional”, afirma Bruno Langeani, consultor sênior do instituto.

Trump coloca Brasil no foco de sua ‘guerra’ pela América Latina

A decisão do governo de Donald Trump representa mais do que uma mudança na política de combate ao crime organizado. Na avaliação de autoridades brasileiras, a medida insere o Brasil no centro de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para ampliar sua atuação na América Latina sob o argumento do enfrentamento ao terrorismo internacional.

A designação abre caminho para a adoção de sanções econômicas, restrições financeiras e outras medidas de segurança previstas pela legislação norte-americana. Além disso, sob a doutrina de combate ao terrorismo defendida por Washington, a classificação também pode servir de base para justificar operações militares contra estruturas consideradas vinculadas a esses grupos, inclusive em territórios estrangeiros.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, integrantes do alto escalão avaliam que a iniciativa transforma o Brasil em um dos alvos centrais da nova etapa da chamada “guerra” promovida por Trump contra organizações criminosas transnacionais. A preocupação decorre do entendimento de que, ao enquadrar PCC e CV como grupos terroristas, suas bases operacionais e redes de atuação passam a ser consideradas potenciais alvos legítimos de ações militares norte-americanas.

Documentos divulgados pela Casa Branca nos últimos meses já indicavam uma orientação deliberada para ampliar a presença militar dos Estados Unidos na região e incorporar os cartéis e facções criminosas à agenda global de combate ao terrorismo. Nesse contexto, o enfrentamento ao PCC e ao CV é interpretado por setores do governo brasileiro como parte de uma estratégia mais abrangente, voltada para reforçar a influência política e militar de Washington sobre a América Latina.

A preocupação brasileira está diretamente relacionada à doutrina adotada pelos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001. Segundo essa lógica, o combate ao terrorismo internacional pode justificar operações em qualquer parte do mundo, inclusive em situações que geram questionamentos sobre a soberania dos países envolvidos.

A leitura feita por integrantes do governo brasileiro também associa a decisão aos interesses políticos do bolsonarismo. Nos bastidores de Brasília, a medida foi interpretada como uma tentativa de aproximar a estratégia de Trump das pautas defendidas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo essa avaliação, o movimento teria sido impulsionado, em parte, pelos esforços do senador Flávio Bolsonaro para recolocar temas ligados à segurança pública e ao crime organizado no centro do debate político nacional. A interpretação de integrantes do governo é a de que a iniciativa funcionaria como uma espécie de “bomba atômica” política capaz de reposicionar sua candidatura presidencial e deslocar a atenção pública de controvérsias envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Nesse cenário, a classificação do crime organizado como terrorismo é vista por setores do bolsonarismo como uma oportunidade para impor uma nova agenda ao debate nacional, concentrando a atenção do país nos impactos da medida e reduzindo o espaço ocupado por outras crises e controvérsias políticas.

Entre as principais preocupações das autoridades brasileiras está a possibilidade de que a nova classificação produza efeitos concretos sobre a atuação dos Estados Unidos na região. O receio é alimentado por precedentes recentes envolvendo outros países latino-americanos.

Poucas semanas após enquadrar grupos armados colombianos como organizações terroristas, o governo Trump ampliou operações de segurança e intensificou ataques contra embarcações ligadas ao narcotráfico na costa da Colômbia.

Movimentos semelhantes também foram registrados no México e no Equador. Nas últimas semanas, Washington anunciou ofensivas voltadas ao combate ao narcotráfico nos dois países. Embora as ações tenham sido apresentadas oficialmente como operações conduzidas em cooperação com os governos locais, a interpretação predominante entre analistas e setores políticos latino-americanos é a de que a narrativa da cooperação funciona, muitas vezes, como instrumento para legitimar a participação norte-americana perante as populações nacionais.

Paralelamente, Trump vem demonstrando interesse em transformar o combate ao narcotráfico em um dos principais instrumentos de coordenação política e militar dos Estados Unidos na região. Em março, ao lado de representantes de mais de uma dezena de países latino-americanos, o presidente norte-americano anunciou a criação de uma aliança militar voltada ao enfrentamento de organizações criminosas transnacionais.

Durante o anúncio, Trump estabeleceu uma comparação direta entre a estratégia que pretende adotar contra o narcotráfico e as operações conduzidas pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico no Oriente Médio. A declaração foi interpretada como um sinal de que Washington considera a possibilidade de empregar métodos semelhantes aos utilizados em campanhas militares realizadas fora de seu território.

Em um dos momentos mais comentados do encontro, o presidente norte-americano afirmou, em tom de descontração, que poderia disponibilizar mísseis aos países da região ou até mesmo realizar bombardeios. “Vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos”, declarou, reforçando a disposição de associar o combate ao narcotráfico a instrumentos tradicionalmente vinculados a operações militares de grande escala.

Risco econômico

Longe de representar apenas um gesto retórico no discurso de endurecimento contra o crime organizado, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras produz efeitos concretos que transcendem a esfera da segurança pública. Trata-se de um instrumento jurídico com alcance internacional, capaz de alterar a percepção de risco sobre o país e influenciar decisões de investimento, financiamento e comércio.

Parte dos defensores da medida parece ter concentrado sua atenção nos impactos sobre as organizações criminosas, sem considerar as implicações indiretas para a economia nacional. A lógica que orienta esse tipo de enquadramento, entretanto, não se limita aos grupos designados. Seus efeitos alcançam toda a rede de relações econômicas e financeiras potencialmente conectadas, ainda que de forma remota, aos ambientes onde essas organizações atuam.

Nos Estados Unidos, a classificação como Foreign Terrorist Organization (FTO) aciona dispositivos previstos na legislação migratória e de segurança nacional. Entre as consequências mais relevantes está a criminalização do chamado “suporte material” a entidades enquadradas nessa categoria. A interpretação adotada pelas autoridades norte-americanas é abrangente e inclui desde transferências financeiras e prestação de serviços até apoio logístico, consultorias, treinamento, transporte e outras formas de assistência direta ou indireta.

Na prática, isso modifica imediatamente a avaliação de risco realizada por agentes econômicos internacionais. Instituições financeiras, seguradoras, fundos de investimento, operadores logísticos e grandes corporações passam a adotar critérios mais rígidos para operações relacionadas ao país afetado. O receio não está necessariamente na existência de vínculos comprovados com organizações criminosas, mas na possibilidade de que alguma etapa da cadeia produtiva ou financeira venha a ser posteriormente associada a grupos classificados como terroristas.

Experiências recentes em outros países ilustram esse fenômeno. Após o enquadramento de grandes cartéis mexicanos como organizações terroristas, empresas multinacionais iniciaram revisões extensivas de suas cadeias de fornecimento. Setores estratégicos foram submetidos a processos adicionais de auditoria e verificação de conformidade regulatória. Instituições bancárias ampliaram exigências de controle interno, enquanto investidores passaram a demandar análises mais profundas mesmo para operações consideradas rotineiras.

O resultado foi uma elevação dos custos de transação e um ambiente de maior cautela por parte do capital internacional. Projetos associados ao processo de relocalização industrial para o México perderam dinamismo à medida que cresciam as preocupações relacionadas à exposição jurídica das empresas.

No caso brasileiro, a avaliação de especialistas aponta para um desafio adicional. Diferentemente de outras realidades latino-americanas, as estruturas atribuídas ao PCC e ao Comando Vermelho mantêm influência em circuitos econômicos e territoriais amplos, o que amplia a complexidade dos mecanismos de rastreamento e controle exigidos por investidores e órgãos reguladores estrangeiros.

Em cenários de incerteza regulatória, a tendência dos mercados costuma ser conservadora. Quando não é possível mensurar adequadamente os riscos, empresas e investidores frequentemente optam por redirecionar recursos para ambientes considerados mais previsíveis. A questão deixa, portanto, de ser exclusivamente policial ou judicial e passa a integrar o cálculo econômico de longo prazo.

Estudos dedicados à relação entre segurança e desenvolvimento econômico vêm apontando, há décadas, os impactos da percepção de ameaça sobre os fluxos internacionais de capital. Pesquisas conduzidas pelos economistas Todd Sandler e Walter Enders identificaram reduções significativas nos níveis de investimento estrangeiro direto em países afetados por episódios persistentes de terrorismo. Em alguns casos analisados, a retração dos fluxos de capital superou dois dígitos percentuais.

Outras análises, incluindo estimativas produzidas por organismos multilaterais, associaram a presença prolongada desse tipo de risco à desaceleração do crescimento econômico. A explicação é relativamente simples: investidores costumam conviver com obstáculos burocráticos, oscilações cambiais e até ambientes tributários complexos, mas tendem a evitar situações que possam resultar em responsabilização criminal ou sanções regulatórias severas.

Esse aspecto ajuda a explicar por que setores que inicialmente enxergaram a medida como um problema estritamente político podem acabar entre os mais afetados por seus desdobramentos. Áreas intensivas em capital externo — como infraestrutura, energia, logística, mineração, agronegócio e indústria exportadora — dependem de financiamento internacional, acesso a mercados globais e relações estáveis com grandes instituições financeiras.

Os reflexos também podem alcançar a atividade turística. O enquadramento de organizações como terroristas frequentemente influencia a elaboração de alertas consulares, impacta custos de seguros internacionais e afeta a percepção de segurança entre viajantes e empresas. Em um ambiente global cada vez mais sensível a indicadores de risco, reputação e previsibilidade tornaram-se ativos econômicos relevantes.

Outro efeito observado por analistas é o fortalecimento da chamada securitização das relações econômicas internacionais. Nesse modelo, temas tradicionalmente vinculados ao comércio, aos investimentos e às finanças passam a ser tratados sob a ótica da segurança nacional. As fronteiras entre política externa, defesa e atividade econômica tornam-se menos nítidas, ampliando a capacidade dos Estados de utilizar instrumentos econômicos para alcançar objetivos estratégicos.

Independentemente dos debates políticos que cercam a decisão, a questão central reside na dimensão de seus efeitos. Mudanças dessa natureza costumam produzir consequências que permanecem muito além do ciclo imediato das disputas partidárias. Enquanto narrativas políticas podem se alterar rapidamente, os impactos regulatórios, financeiros e reputacionais tendem a influenciar decisões empresariais e fluxos de capital por períodos significativamente mais longos.

Decisão sobre PCC e CV é militar

Se os impactos econômicos e financeiros da classificação já despertam preocupação entre autoridades e analistas, a dimensão mais sensível da decisão norte-americana está relacionada às suas potenciais consequências no campo da segurança e da soberania nacional.

A partir do enquadramento de facções criminosas brasileiras na categoria de organizações terroristas estrangeiras, indivíduos acusados pelos Estados Unidos de manter vínculos com esses grupos podem passar a ser tratados sob a lógica operacional adotada por Washington em sua política global de combate ao terrorismo. Na prática, isso significa que suspeitos deixam de ser vistos apenas como alvos de investigação criminal e passam a ser inseridos em uma estrutura de enfrentamento que, historicamente, tem incorporado instrumentos militares e de inteligência empregados além das fronteiras norte-americanas.

Essa concepção remonta ao período posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando o governo do então presidente George W. Bush formulou a chamada “guerra ao terror”. Diferentemente dos conflitos tradicionais entre Estados ou contra organizações específicas, a estratégia foi construída em torno do combate a um método de ação, o terrorismo. A partir dessa formulação, a localização geográfica dos suspeitos tornou-se um fator secundário diante da justificativa de neutralizar ameaças consideradas transnacionais.

Foi sob esse entendimento que os Estados Unidos conduziram operações em diferentes regiões do mundo ao longo das últimas duas décadas, envolvendo grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. A ampliação desse conceito também produziu situações controversas do ponto de vista jurídico internacional, incluindo a detenção, em Guantánamo, de cidadãos oriundos de dezenas de países que não mantinham qualquer estado formal de guerra com Washington.

Agora, segundo críticos da medida, essa mesma lógica passa a alcançar o território brasileiro. A preocupação decorre da possibilidade de que estruturas vinculadas ao combate ao terrorismo sejam mobilizadas em relação a indivíduos ou organizações localizadas no país, ampliando o debate sobre os limites da atuação extraterritorial norte-americana.

O caso venezuelano é frequentemente citado como referência recente desse processo. Após a adoção de medidas semelhantes contra grupos associados ao narcotráfico, os Estados Unidos intensificaram operações contra embarcações suspeitas em águas próximas ao país vizinho. Críticos dessas ações sustentam que parte das operações ocorreu sem procedimentos prévios de identificação individual dos ocupantes ou comprovação pública de eventual participação em atividades classificadas como terroristas.

Sob a ótica de especialistas em direito internacional, situações dessa natureza levantam questionamentos sobre garantias processuais, uso da força e respeito à soberania dos Estados. O debate ganhou relevância especialmente diante da crescente aproximação entre as agendas de combate ao terrorismo e repressão ao narcotráfico promovidas por Washington.

Essa convergência representa uma mudança relevante na forma como os Estados Unidos vêm conduzindo sua política para a América Latina. Durante décadas, operações de enfrentamento ao tráfico de drogas foram estruturadas principalmente por meio de acordos de cooperação com governos locais. A Colômbia tornou-se o exemplo mais emblemático desse modelo, com ampla colaboração entre Washington e Bogotá em ações voltadas ao combate de grupos armados e organizações ligadas ao narcotráfico.

Nos últimos anos, porém, observadores identificam uma transição para mecanismos mais assertivos de pressão política e jurídica. Em vez de concentrar esforços exclusivamente na cooperação institucional, autoridades norte-americanas passaram a associar governos e lideranças políticas da região a estruturas criminosas ou organizações classificadas como ameaças à segurança internacional.

Esse movimento esteve presente nas tensões diplomáticas envolvendo os governos de Gustavo Petro, na Colômbia, e Nicolás Maduro, na Venezuela. Em ambos os casos, o debate extrapolou o campo do narcotráfico e passou a envolver acusações relacionadas à participação ou tolerância diante de redes criminosas transnacionais.

As discussões em torno da Venezuela tornaram-se particularmente controversas após operações conduzidas contra o regime de Maduro. Críticos da política norte-americana argumentam que a justificativa central utilizada por Washington esteve mais relacionada ao suposto vínculo do governo venezuelano com estruturas associadas ao narcotráfico do que às denúncias de violações de direitos humanos ou ao caráter autoritário do regime. Posteriormente, surgiram questionamentos sobre a consistência de algumas das alegações que fundamentaram essas ações.

No Brasil, o debate ganha contornos adicionais por ocorrer em um ambiente marcado pela proximidade do ciclo eleitoral e pelo aumento das disputas em torno dos temas de segurança pública e soberania nacional.

Entre os especialistas que manifestaram preocupação está o jurista e professor Walter Maierovitch, referência em estudos sobre crime organizado e políticas de segurança. Segundo ele, a nova classificação pode gerar situações de conflito jurídico envolvendo cidadãos brasileiros investigados por autoridades estrangeiras.

Maierovitch observa que a Constituição brasileira estabelece restrições rigorosas à extradição de nacionais, admitindo exceções específicas para cidadãos naturalizados em determinadas circunstâncias. Nesse contexto, ele alerta para o risco de surgirem tentativas de contornar os mecanismos legais previstos pelo ordenamento jurídico brasileiro, o que poderia produzir tensões diplomáticas e questionamentos relacionados ao respeito à soberania do país.

O especialista também rejeita comparações entre o Brasil e países frequentemente classificados como narcoestados. Em sua avaliação, embora o país enfrente desafios significativos no combate ao crime organizado, suas instituições não patrocinam atividades terroristas nem oferecem apoio estratégico ou financeiro a organizações dessa natureza. Ao contrário, argumenta, o Estado brasileiro participa de iniciativas internacionais de repressão ao tráfico de drogas e coopera com organismos multilaterais na área de segurança.

Outro ponto destacado pelo jurista envolve a justificativa frequentemente utilizada por Washington para fundamentar operações realizadas além de suas fronteiras. Segundo ele, o conceito de “legítima defesa preventiva” tem sido empregado pelo governo norte-americano como argumento para conferir respaldo jurídico a ações que, na visão de diversos especialistas, permanecem objeto de intenso debate no âmbito do direito internacional.

Diante desse cenário, a controvérsia ultrapassa a discussão sobre o combate às facções criminosas e passa a envolver questões mais amplas relacionadas aos limites da atuação extraterritorial, à preservação da soberania dos Estados e às transformações nas estratégias de segurança adotadas pelas grandes potências no século XXI.

Governo Federal vê medida com preocupação

O governo Lula é contrário à designação das facções brasileiras por ver riscos à soberania brasileira sobre seu território e potencial impacto na economia e no setor financeiro, já que a classificação permite ao Tesouro dos EUA sancionar empresas, fundos e bancos que tenham ligações com as facções.

O modelo aplicado a PCC e CV segue classificação usada pelos EUA para cartéis latino-americanos. A gestão Donald Trump já aplicou a medida a grupos como o Cartel de Jalisco, do México, e o Tren de Aragua, da Venezuela.

No México, as designações provocaram sanções a ao menos três instituições financeiras e impacto econômico. Na Venezuela, a medida serviu de justificativa pública para a ação militar que sequestrou Nicolás Maduro retirando-o do comando do país, em janeiro. O governo Trump também se valeu da medida para bombardear embarcações no Mar do Caribe.

Em novembro do ano passado, a ministra Gleisi Hoffmann alertou: “Pela legislação internacional, terrorismo dá guarida para que outros países possam fazer intervenção no nosso país”.

Horas antes da divulgação da medida do governo americano, o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, se manifestou contra a possibilidade dessa designação. “Equiparar o crime organizado ao terrorismo não ajuda”, afirmou Amorim no 14º Encontro Internacional de Altos Funcionários Responsáveis em Moscou. Segundo ele, compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todos os tipos de crime.

Amorim citou que o crescimento do crime organizado é uma “séria ameaça à segurança”, mas que o governo Lula) está agindo para desmantelar as redes criminosas. “Inclusive aumentando as penas legais e trabalhando em estreita colaboração com as autoridades locais para reforçar suas capacidades.”

“O governo brasileiro, liderado pelo presidente Lula, está agindo de forma decisiva para desmantelar redes criminosas, inclusive por meio do endurecimento das penas legais e da colaboração estreita com as autoridades locais para reforçar suas capacidades. O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação. Equiparar o crime organizado ao terrorismo, no entanto, não é útil. Compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todos os tipos de crime”, afirmou Celso Amorim

A decisão ainda corre o risco de abalar a suposta “boa química” que existiria entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O combate ao crime organizado foi um dos principais pontos da reunião entre os dois líderes, há duas semanas.

Mas uma decisão dessa natureza ameaça descarrilhar o trabalho diplomático de aproximação. O governo brasileiro acreditava que havia neutralizado o risco ao propor um programa conjunto para lidar com o crime organizado.

A pauta não se limita ao combate ao crime. Entre diplomatas, o tema é também um instrumento político de pressão. A classificação como terroristas era uma reivindicação de bolsonaristas que, ao colocar o tema como centro da relação com o Brasil, buscam o envolvimento direto do governo Trump na agenda doméstica do país.

Flávio Bolsonaro chegou a sugerir a necessidade de uma ação americana em território brasileiro. Ele recebeu uma delegação americana ainda em 2025 para debater o tema e deu seu sinal favorável à medida. Um suposto dossiê ainda foi preparado pelo governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e mandado para a Casa Branca, com detalhes sobre os grupos criminosos.

Dentro do governo, existe ainda a suspeita de que informações possam ter sido passadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, e que hoje vive nos EUA.

Medo e desconfiança

Enquanto autoridades brasileiras avaliam os desdobramentos diplomáticos, econômicos e jurídicos da decisão norte-americana, o Palácio do Planalto também buscou compreender como diferentes segmentos da sociedade estão interpretando o episódio. Para isso, o governo acompanhou os resultados de uma pesquisa qualitativa voltada a captar percepções, receios e expectativas relacionados à classificação das facções criminosas brasileiras pelos Estados Unidos.

O levantamento reuniu participantes de perfis diversos, abrangendo desde moradores de comunidades urbanas até integrantes de faixas de renda mais elevadas. Diferentemente das pesquisas quantitativas tradicionais, o estudo procurou identificar motivações, sentimentos e interpretações construídas pelos entrevistados diante de um tema considerado sensível e de forte repercussão nacional.

De acordo com informações divulgadas pela jornalista Daniela Lima, do UOL, que teve acesso ao relatório produzido pelos pesquisadores, os resultados chamaram a atenção do governo por revelarem um nível de compreensão do tema superior ao inicialmente esperado. A análise indica que os participantes demonstraram reconhecer tanto a gravidade das atividades atribuídas ao Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital quanto os possíveis efeitos colaterais decorrentes da decisão adotada por Washington.

O estudo identificou consenso em torno da avaliação negativa das duas organizações criminosas, amplamente percebidas como responsáveis por impactos nocivos à segurança pública e à estabilidade social. Ainda assim, parte dos entrevistados estabeleceu distinções entre a atuação dessas facções e o conceito de terrorismo utilizado internacionalmente. Embora alguns participantes tenham apontado semelhanças em determinados métodos de intimidação e violência, predominou a percepção de que o fenômeno do terrorismo envolve características mais amplas e contextos distintos daqueles associados às organizações criminosas brasileiras.

Outro aspecto que emergiu com força nas discussões foi a rejeição à participação direta dos Estados Unidos em uma questão considerada de competência nacional. Entre os relatos coletados pelos pesquisadores apareceram manifestações de desconforto com a iniciativa norte-americana e questionamentos sobre a legitimidade de uma intervenção estrangeira em assuntos relacionados à política de segurança pública do Brasil.

Nas comunidades incluídas na pesquisa, um dos receios mais recorrentes esteve relacionado aos possíveis efeitos concretos de uma eventual escalada da atuação norte-americana. Moradores expressaram preocupação com a possibilidade de que áreas sob influência do crime organizado se tornem alvo de operações externas, aumentando os riscos para populações civis que vivem nesses territórios.

Os pesquisadores também registraram inquietações ligadas à preservação de recursos estratégicos brasileiros. Entre os participantes surgiram dúvidas sobre os reais objetivos da ofensiva conduzida por Washington e especulações acerca de interesses que ultrapassariam o combate às organizações criminosas. Nesse contexto, foram mencionadas preocupações envolvendo riquezas minerais, a região amazônica e reservas hídricas nacionais.

A avaliação predominante observada no estudo sugere que parte significativa dos entrevistados interpreta a medida dentro de um quadro geopolítico mais amplo, associando a decisão dos Estados Unidos a disputas estratégicas e interesses econômicos de longo prazo. Essa leitura aparece de forma transversal entre diferentes perfis sociais e regiões representadas na pesquisa.

O levantamento também registra a percepção de que a iniciativa ganhou impulso após a articulação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas. Nesse cenário, a atuação do senador Flávio Bolsonaro durante sua passagem pelos Estados Unidos é vista por parte dos entrevistados como um elemento relevante para compreender o contexto político que antecedeu a decisão.

As conclusões do estudo passaram a integrar as discussões internas do governo federal e devem influenciar a formulação da resposta oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao episódio. A tendência observada dentro do Palácio do Planalto é construir um posicionamento que combine dois eixos principais: a condenação inequívoca das atividades atribuídas às organizações criminosas e a defesa da autonomia brasileira para conduzir suas políticas de segurança, investigação e combate ao crime organizado.

Dentro dessa estratégia, o governo pretende enfatizar que o país mantém disposição para cooperar com investigações e iniciativas internacionais voltadas ao enfrentamento das facções. Ao mesmo tempo, busca destacar que a atuação dessas organizações não se restringe a territórios periféricos ou áreas dominadas por grupos armados.

Interlocutores do governo defendem que as estruturas financeiras e políticas associadas ao crime organizado alcançam setores centrais da economia e das instituições brasileiras. Nesse sentido, costumam citar investigações recentes que identificaram ramificações lucrativas do Comando Vermelho em ambientes políticos do Rio de Janeiro e operações atribuídas ao PCC em círculos empresariais ligados ao mercado financeiro paulista. A mensagem que o Planalto pretende transmitir é que o combate a essas organizações exige respostas complexas, conduzidas dentro dos marcos institucionais brasileiros e compatíveis com a preservação da soberania nacional.

A contradição política que cerca a cruzada de Flávio Bolsonaro

A decisão dos Estados Unidos de enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas foi recebida com entusiasmo pelo senador Flávio Bolsonaro. Nas redes sociais, o parlamentar apresentou a medida como uma vitória política e um avanço no combate ao crime organizado. O gesto, porém, também reacendeu questionamentos sobre a coerência de seu discurso de enfrentamento à criminalidade e sobre os limites da estratégia que busca transferir para Washington protagonismo em uma questão essencialmente brasileira.

Ao defender a iniciativa norte-americana, Flávio reforça uma narrativa historicamente valorizada por seu campo político: a de que o endurecimento penal e a ampliação dos instrumentos repressivos representam a principal resposta ao avanço das organizações criminosas. O cálculo político é evidente. A pauta da segurança pública mobiliza sua base eleitoral, desloca atenções de desgastes recentes e permite reposicionar sua imagem como defensor da ordem em um momento de pré-campanha presidencial.

O problema é que a retórica encontra obstáculos quando confrontada com a própria trajetória política do senador. Críticos apontam que o rigor demonstrado contra determinadas organizações criminosas raramente se reproduz com a mesma intensidade quando o debate envolve as milícias fluminenses, estruturas que há décadas exercem influência territorial, econômica e política em partes significativas do Rio de Janeiro.

Enquanto facções como PCC e Comando Vermelho aparecem frequentemente como símbolos do inimigo a ser combatido, as organizações paramilitares responsáveis por controlar serviços, explorar atividades econômicas ilegais e impor sistemas próprios de poder em diversas regiões do estado costumam ocupar posição secundária no discurso do parlamentar. Essa diferença de tratamento alimenta acusações de seletividade política no enfrentamento ao crime organizado.

As críticas se intensificam quando são relembrados episódios do período em que Flávio Bolsonaro atuava como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Entre os casos mais frequentemente citados está a homenagem concedida ao ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado por investigações como uma das principais lideranças milicianas do estado.

A controvérsia não se limita à condecoração. A presença de familiares de Adriano vinculados ao gabinete do então deputado tornou-se um dos episódios mais explorados por adversários políticos e investigadores ao longo dos últimos anos, especialmente em meio às apurações relacionadas ao esquema das chamadas “rachadinhas”.

A expansão das milícias no Rio de Janeiro também passou a ser associada por críticos a um ambiente político que, durante anos, tratou esses grupos como alternativas de autodefesa em áreas marcadas pela ausência do Estado. Com o tempo, porém, muitas dessas estruturas ampliaram suas atividades, diversificaram fontes de renda e passaram a disputar territórios e mercados ilícitos em escala comparável à de organizações tradicionalmente vinculadas ao narcotráfico.

Reportagens e investigações produzidas ao longo da última década registraram ainda a influência eleitoral exercida por essas estruturas em determinadas regiões do estado, especialmente em áreas sob forte controle territorial de grupos paramilitares. Esse histórico torna inevitável o questionamento sobre por que determinadas formas de criminalidade recebem tratamento prioritário enquanto outras permanecem relativamente ausentes do debate promovido por setores da direita fluminense.

As milícias, hoje transformadas em poderosas narcomilícias associadas ao mesmo tráfico que Flávio jura combater, expandiram seus tentáculos no Rio de Janeiro sob os discursos em defesa de “grupos de autodefesa” proferidos ao longo de anos pela sua família. Reportagem da Agência Pública, de 2019, mostrou, aliás, que o senador recebeu expressiva votação em Rio das Pedras, área onde a milícia controla a vida das pessoas.

A contradição torna-se ainda mais sensível diante de episódios envolvendo figuras políticas próximas ao grupo bolsonarista. Um dos casos mais citados é o do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, posteriormente investigado por suspeitas de vínculos com integrantes do Comando Vermelho. Antes do surgimento das denúncias, ele chegou a contar com apoio político de aliados do senador. Somente após a deterioração pública de sua situação é que vieram os movimentos de distanciamento.

Outra frente de questionamento envolve a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro. A proximidade entre ambos ganhou visibilidade após revelações sobre negociações financeiras e declarações públicas de apoio feitas pelo senador. Posteriormente, vieram à tona informações sobre investigações envolvendo estruturas financeiras associadas ao Banco Master e possíveis conexões examinadas por autoridades em apurações relacionadas à lavagem de dinheiro. Embora não haja equivalência automática entre esses fatos e responsabilidade criminal direta, o episódio ampliou o desgaste político em torno da imagem do parlamentar.

Nesse contexto, a defesa da classificação das facções como organizações terroristas passa a ser interpretada por adversários não apenas como uma posição de segurança pública, mas como parte de uma estratégia de reposicionamento político. O argumento central dos críticos é que o discurso contra o crime organizado se mostra particularmente contundente quando direcionado a alvos distantes do círculo político do senador, mas perde intensidade quando se aproxima de personagens, estruturas ou relações historicamente vinculadas ao seu ambiente de atuação.

Ao final, a principal controvérsia não está na condenação das atividades atribuídas ao PCC ou ao Comando Vermelho — tema que encontra amplo consenso social e institucional. O debate recai sobre a consistência de quem se apresenta como protagonista dessa cruzada. Para opositores, o problema não é o combate ao crime organizado em si, mas a percepção de que esse combate é conduzido de forma seletiva, preservando zonas de silêncio exatamente onde os custos políticos se tornam mais elevados.

É essa aparente assimetria que alimenta as críticas dirigidas ao senador. Afinal, enquanto pede que uma potência estrangeira amplie sua atuação sobre organizações criminosas brasileiras, Flávio Bolsonaro continua sendo cobrado a explicar episódios e alianças que, para seus adversários, permanecem como capítulos inconclusos de sua própria trajetória política.

E então?

Mais do que uma discussão sobre facções criminosas, a controvérsia em torno da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas revela um embate muito mais amplo sobre soberania, poder e os novos instrumentos de influência internacional. Ao mesmo tempo em que expõe a gravidade do crime organizado no Brasil, a medida também evidencia como questões de segurança passaram a ser utilizadas como ferramentas de pressão geopolítica, econômica e eleitoral.

O debate já não se resume a saber se PCC e CV representam uma ameaça à sociedade — ponto sobre o qual há amplo consenso —, mas a definir quem terá legitimidade para conduzir esse enfrentamento, sob quais regras e com quais consequências para o país. Entre o discurso do combate ao crime, os interesses estratégicos de Washington, as disputas da sucessão presidencial brasileira e os riscos apontados por especialistas para a economia, as instituições e a autonomia nacional, emerge uma questão que permanecerá relevante muito depois de encerradas as disputas partidárias do momento: até que ponto uma nação pode terceirizar suas agendas de segurança sem abrir espaço para que outros decidam os limites de sua própria soberania?

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