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Especial

O PAÍS DAS CASTAS

Com mobilidade social praticamente nula, elite reclama do bolsa família

Publicado em 20/06/2025 5:31 - Semana On

Divulgação Semana On IA

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O novo Atlas da Mobilidade Social, lançado pelo Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), mostra que apenas 14% dos homens brancos nascidos em famílias de baixa renda conseguem ascender socialmente. No caso de negros e mulheres, esse percentual é ainda menor. A pesquisa (clique aqui para acessar a ferramenta) mostra que a mobilidade social no Brasil é baixa e concentrada na base da pirâmide.

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Entre outros dados, o estudo mostra o seguinte:

– Menos da metade (49%) das pessoas nascidas entre 1983 e 1990 têm, na vida adulta, uma situação financeira melhor do que a dos pais; e

– Somente 10,8% daqueles oriundos dos 50% mais pobres atingiram o grupo dos 25% mais ricos.

O estudo se baseia em dados inéditos da Receita Federal e da economia informal, organizados no Atlas a partir da pesquisa “Mobilidade intergeracional na terra da desigualdade”, conduzida por Diogo Brito, Alexandre Fonseca, Paolo Pinotti e Breno Sampaio.

“A qualidade da educação pública é o fator dominante que caracteriza essa mobilidade”, frisou Diogo Brito, um dos autores do estudo.

Além das barreiras sociais e educacionais, o fraco desempenho econômico é apontado como um dos principais entraves à mobilidade.

O economista Paulo Tafner, presidente do IMDS, ressaltou que o período analisado — os anos 1980, marcados por estagnação econômica — comprometeu as chances de progresso de uma geração inteira.

“Se continuarmos crescendo perto dos 2% ao ano, como nas últimas décadas, a parcela dos que conseguem superar a renda dos pais vai diminuir. E isso tende a gerar tensões sociais”, alertou.

O desafio do ponto de partida

O professor André Salata, da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), reforça que o combate à pobreza e à desigualdade de origem é condição básica para melhorar as oportunidades futuras. Isso envolve tanto o aumento da renda mínima como a valorização da educação pública de qualidade.

“Reduzir a desigualdade no ponto de partida e garantir que as crianças aprendam, independentemente da origem social, são caminhos fundamentais para uma sociedade mais justa”, afirmou.

Mobilidade de curto alcance

O Atlas mostra que, mesmo entre aqueles que ascenderam, a maioria permaneceu dentro da metade mais pobre da população.

Segundo Ribeiro, sociólogo do IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos do programa de pós-graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), há mobilidade ocupacional, mas de curto alcance — concentrada na base da pirâmide.

Entre 1973 e 2014, houve avanços na educação e maior presença de mulheres no mercado de trabalho, o que reduziu desigualdades, mas sem provocar saltos significativos para as camadas superiores da renda.

Em suma, os dados do IMDS traçam um retrato de um país em que o destino ainda é fortemente determinado pela origem. A combinação de políticas públicas bem desenhadas, crescimento econômico sustentável e investimento em educação pode abrir caminhos, mas a mobilidade social no Brasil ainda está longe de ser a regra — é exceção.

Menos de 2% das crianças pobres no Brasil atingem a renda dos mais ricos

A probabilidade de uma criança brasileira que faz parte da metade mais pobre ter ascensão social capaz de colocá-la entre os 10% mais ricos quando adulta é menor do que 2%. Dois terços delas muito provavelmente permanecerão entre os 50% mais pobres na vida adulta, e apenas 10,8% subirão ao patamar dos 25% mais ricos.

Menos de 2% também conseguirão terminar uma faculdade, e o mais provável é que a metade chegue ao fim do ensino médio, segundo o novo Atlas.

Os resultados mostram a baixíssima de mobilidade social no Brasil, fato que leva o país a manter altas taxas de pobreza e uma profusão bilionária de programas sociais (como o Bolsa Família, com R$ 158 bilhões em 2025) para mitigar os efeitos da falta de renda e oportunidades entre os mais pobres.

A Atlas reúne dados de IBGE, Receita Federal e CadÚnico, entre outros, de 1983 a 2019 para calcular a evolução. Nas regiões Norte e Nordeste, é muito maior a chance de crianças na metade mais pobre permanecerem no mesmo patamar na vida adulta (78,3% e 76,4%, respectivamente). No Sul, ela é menor: 41,4%. Estados agrícolas também aparecem como tendo maior possibilidade de ascensão social.

“Isso mostra como políticas de desenvolvimento regional [como Sudene, Sudam e Zona Franca de Manaus] tiveram pouco efeito ao longo do tempo”, diz Paulo Tafner, diretor-presidente do IMDS. “De um modo geral, o que acontecia até os anos 1980, em que os filhos tinham maior renda e escolaridade que os país, ficou cada vez mais difícil a partir dos anos 1990.”

Para Naercio Menezes, professor da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e da FEA-USP, a educação desempenha papel fundamental na melhora da renda futura. Mas a precariedade do ensino no Brasil reduz a possibilidade de ascensão social.

Menezes cita pesquisa recente do economista Eric Hanushek e outros (“Global universal basic skills: Current deficits and implications for world development”), em que foram calculadas as parcelas de jovens que não têm as habilidades básicas para o trabalho em 159 países.

“No Brasil, 66% dos jovens não atingem o básico para o mundo do trabalho. Isto significa que 2/3 não têm o mínimo para obterem chance de sucesso na vida, especialmente em um mundo em que tecnologias de informação e inteligência artificial irão substituir os humanos em várias tarefas”, afirma.

A situação brasileira é similar à da América Latina, com exceção do Chile (44%). Nos países europeus, no entanto, apenas 20% dos jovens não atingem as habilidades básicas para o mercado de trabalho.

“É por isso que a maioria dos jovens brasileiros acaba trabalhando em ocupações que não exigem essas habilidades, como entrega de comida por aplicativo, ou são ‘nem-nem’ [não trabalham ou estudam] ou estão envolvidos com o crime.”

Menezes afirma que uma série de fatores contribui para a má qualidade do ensino, mas destaca os problemas na formação básica dos professores, que acabam progredindo nas carreiras sem cursos de gestão, e o fato de as 5.570 prefeituras do país poderem fazer o que bem entender na educação básica dos alunos até a quinta série.

“Muitos prefeitos acabam alterando boas políticas só para se diferenciarem de seus antecessores”, diz.

Outro ponto destacado por pesquisadores é a instabilidade macroeconômica, que leva a períodos de altos e baixos, fazendo com que os mais pobres muitas vezes sofram com a descontinuidade de oportunidades de trabalho ou tenham que deixar a escola para conseguir alguma renda.

Entre 2012 e 2021, por exemplo, apesar de um expressivo aumento de 27% nos anos de estudo (de 6,4 para 8,1) da população na metade mais pobre, a renda do trabalho dessa parcela despencou 26,2%, segundo a FGV Social.

No período, a crise econômica gestada no segundo governo de Dilma Rousseff (PT) derrubou o PIB em mais e 7% no biênio 2015-2016 -aumentando o desemprego e a pobreza.

Estudioso de estatística, o geógrafo e professor William Passos analisa que os principais determinantes da melhoria do padrão de vida de uma pessoa são as oportunidades econômicas, o nível de renda dos pais, o grau de apoio familiar (em casos financeiros), o acesso a uma rede de proteção social, com programas de transferência de renda, e, especialmente, o grau de escolarização do indivíduo; isto é, o fato de uma pessoa ter ensino fundamental completo ou diploma de ensino médio, superior ou pós-graduação.

Por isso, uma economia que gera empregos e uma sociedade que apoia o empresário e as pessoas em situação de vulnerabilidade são tão importantes, assim como o investimento em educação — desde a primeira infância até a pós-graduação. Mais do que os demais fatores, a educação garante a independência econômica do indivíduo e aumenta as suas chances de alcançar um padrão de renda superior ao dos próprios pais.

Em MS, chance de pobres ficarem ricos é  maior que no resto do País, diz estudo

Mato Grosso do Sul é o estado onde um jovem nascido em uma família pobre tem mais chance de alcançar o topo da pirâmide social no Brasil, segundo o Atlas da Mobilidade Social.

Segundo o levantamento, a chance de alguém nascido entre os 25% mais pobres do Estado chegar ao grupo dos 10% mais ricos é de 2,9%. O índice é o mais alto entre todas as unidades federativas. No topo do ranking, MS é seguido de perto por Distrito Federal e Goiás.

Mesmo com MS liderando o ranking nacional de mobilidade social, o índice de 2,9% ainda é modesto quando comparado a países com maior igualdade de oportunidades, onde as chances podem ultrapassar os 10%.

No Brasil, mesmo nos estados com melhor desempenho, a maioria das pessoas permanece presa às condições econômicas em que nasceu. Em MS, apesar dos avanços, a pobreza ainda atinge milhares de famílias, especialmente nas periferias urbanas e em áreas rurais.

Segundo dados do IBGE, cerca de 2% da população sul-mato-grossense vive em extrema pobreza, com menos de US$ 2,15 por dia (cerca de R$ 12, conforme cotação recente). Já em situação de pobreza estão cerca de 19,3%, aqueles que vivem aproximadamente com R$ 38 por dia.

Mesmo nos estados com os melhores índices — como Mato Grosso do Sul —, a chance de ascensão econômica continua baixa. “O elevador social brasileiro ainda opera com poucas vagas”, afirma Paulo Tafner, diretor do IMDS.

Dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ajudam a explicar o desempenho positivo do Estado. Em 2023, o governo sul-mato-grossense registrou uma redução de 25% na extrema pobreza.

Programas como o Mais Social, Energia Social, MS Supera e o Incentiva+ foram apontados como pilares desse avanço. Além do auxílio financeiro, eles incluem ações de qualificação profissional, estímulo à empregabilidade e articulação com o setor produtivo.

Somente entre janeiro e novembro de 2024, o Estado gerou 26.776 novos postos de trabalho formais — sendo mais de 13 mil no setor de serviços, seguido por indústria (8 mil) e comércio (5 mil).

O papel do Bolsa Família na mobilidade social

Um dos dados mais relevantes do levantamento é o impacto positivo do Bolsa Família na mobilidade social. Segundo Brito, crianças beneficiadas pelo programa por mais tempo alcançaram, em média, dois anos a mais de escolaridade e apresentaram maior probabilidade de subir na pirâmide de renda.

“O programa não só aumenta a escolaridade e o nível de renda, como tende a reduzir a dependência futura da pessoa em relação ao próprio Bolsa Família”, explicou o pesquisador Carlos Ribeiro ao O Globo.

Esses efeitos mostram que políticas de transferência de renda podem romper ciclos de pobreza, embora o alcance ainda seja limitado diante da magnitude da desigualdade estrutural.

Bolsa Família atrapalha o mercado?

Diante do cenário de limitada mobilidade social e profunda desigualdade econômica, surge um intenso debate sobre o impacto real de programas como o Bolsa Família no mercado de trabalho. Empresários frequentemente afirmam que esses auxílios governamentais desmotivam trabalhadores, sob o argumento de que muitos optam por receber o benefício em vez de aceitar empregos formais de baixa remuneração. No entanto, economistas e sociólogos apontam uma realidade distinta e mais complexa. O cerne do problema não estaria numa suposta “acomodação” do trabalhador, como argumenta parte do empresariado, mas na precariedade generalizada das oportunidades de trabalho oferecidas.

Para estudiosos do tema, a preferência pelo benefício é, frequentemente, uma escolha racional e compreensível em face da insuficiência salarial, da precarização das condições trabalhistas e da instabilidade que caracterizam boa parte das ofertas de emprego no Brasil. O sociólogo Jessé Souza, em seu livro A Ralé Brasileira: Quem é e Como Vive (Editora UFMG, 2009), já apontava que o mercado brasileiro oferece predominantemente trabalhos extremamente precarizados, o que empurra muitos trabalhadores para uma situação quase inevitável de dependência de políticas sociais. Corroborando essa visão, a economista Tania Bacelar, professora aposentada da UFPE e especialista em desenvolvimento regional, argumenta que o Bolsa Família é, frequentemente, uma rede de proteção mínima contra condições laborais abusivas ou indignas, e não um fator de desestímulo ao trabalho formal. Dessa forma, ao abordar a questão da mobilidade social, torna-se necessário refletir criticamente sobre o verdadeiro problema estrutural: a persistência da precariedade salarial e das condições indignas de trabalho, em vez de responsabilizar exclusivamente o trabalhador pelas escolhas racionais e pragmáticas que realiza em nome de sua sobrevivência e dignidade.

O governo Lula publicou uma nota institucional na terça-feira, 17, na qual afirma que mais de 98% dos empregos formais gerados em 2024 foram preenchidos por pessoas do CadÚnico — o cadastro nacional utilizado para pagamento de recursos de programas sociais como o Bolsa Família.

A nota aponta que, das 1,69 milhão de vagas com carteira assinada criadas em 2024, 98,87% foram ocupadas por pessoas cadastradas no CadÚnico, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A gestão Lula destaca ainda que, entre os contratados, 1,27 milhão (75,5%) eram beneficiários do Bolsa Família, e outros 395 mil (23,4%) pertenciam ao CadÚnico, mas não recebiam o benefício.

“O Caged mostra, na prática, que as pessoas do Bolsa Família e do Cadastro Único querem trabalhar, estão empregadas, mas buscam empregos decentes. Peço que observem essa realidade para evitar qualquer forma de preconceito contra os mais pobres”, afirmou Wellington Dias, ministro do Desenvolvimento.

Segundo o governo, uma das principais razões para o desempenho foi a chamada Regra de Proteção do Bolsa Família, que permite aos beneficiários manter 50% do valor do benefício por até dois anos após entrarem no mercado formal de trabalho, incluindo os adicionais voltados para gestantes, crianças e adolescentes. Neste mês, mais de 3.000 famílias estão sendo beneficiadas por essa regra.

A partir de julho, a regra terá ajustes com o objetivo de reduzir a fila de espera e priorizar famílias que realmente estão em situação de pobreza ou pobreza extrema. Essa mudança também busca garantir a sustentabilidade e efetividade do programa. As famílias que ultrapassarem o limite de renda para entrada no Bolsa Família – de 218 reais por pessoa da família –, até o limite de renda de 706 reais, poderão seguir no programa por mais doze meses, recebendo 50% do valor do benefício.

Já as famílias cuja renda seja considerada estável ou permanente, como as que recebem aposentadoria, pensão ou Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), poderão permanecer com o auxílio do Bolsa Família por até dois meses. As famílias com pessoas com deficiência que recebem o BPC, o tempo máximo de permanência na Regra de Proteção será de doze meses.

A Meritocracia como Piada de Mau Gosto

Em pleno século XXI, alguns setores do empresariado brasileiro parecem acreditar que vivemos em um parque de diversões meritocrático: quem se esforça, sobe; quem não sobe, é incompetente — simples assim. Acreditar nisso, diante de um país no qual a mobilidade social leva nove gerações para que alguém da base chegue à média, é mais do que descolamento da realidade: é uma performance patética de fantasias liberais.

O economista Ricardo Paes de Barros, referência no tema, lembra que programas como Bolsa Família e Pronatec são “compatíveis com a meritocracia”, pois equilibram as velas e os barcos antes da corrida . Perfeito, mas esses mesmos empresários que invocam a métrica do mérito confundem navios! Ignoram que no Brasil, segundo a OCDE, apenas 2,5% dos filhos dos mais pobres chegam ao topo em uma geração, e que apenas 10,8% sobem algum degrau na pirâmide. Meritocracia, aqui, soa mais como um mito conveniente — um mito “darwinista”, nas palavras do historiador Sidney Chalhoub: “um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais”.

Dissonância Cognitiva à Moda Antiga

Pergunte ao empresário que critica o Bolsa Família se ele tem alguma sugestão para extinguir as barreiras de raça, gênero, renda, acesso à educação de qualidade; se propõe uma reforma tributária progressiva, uma revolução na saúde e educação pública — deixe-o cochilar. Em vez disso, ele prefere o discurso ancestral de “o pobre é preguiçoso” e “meritocracia é o motor da sociedade”. Um sofisma tão velho quanto a elite que o repete.

Chamam Bolsa Família de “bolsa-eleitoral” ou “esmola”. E cria dependência? Contam com aforismos ao invés de dados. O Banco Mundial, em 2006, concluiu que “os efeitos de desincentivo (…) são pequenos” e que transformam a assistência social em “investimento social. Mas tudo isso é ignorado, pois enfraquecer o argumento da meritocracia exige um salto epistemológico difícil demais para alguns.

O Mundo Aceita, o Brasil Rejeita

Na América Latina, Chile e México há programas semelhantes que contam com apoio acadêmico e impacto positivo. O World Bank elogiou o Bolsa Família. Até a revista Economist admitiu que o “programa ganha adeptos no mundo inteiro”. Mas no Brasil, a estratégia é desconectar a realidade, insistir na falácia de que “quem quer, consegue”, ignorando que 1% dos mais ricos ganha 39 vezes mais que 40% dos mais pobres  — um abismo metafísico, não um lance de esforço.

Permitamo-nos um sorriso fino: é fascinante como se exige competência da população mais vulnerável, mas a competência para mudar estruturas — educação, saúde, reforma tributária, fim da concentração de terras, enfrentamento do racismo estrutural — parece fora do alcance da elite. Dissonância cognitiva? Excelente termo da psicologia social para descrever quem grita “meritocracia!” enquanto atua para que as regras do jogo permaneçam viciadas.

O Brasil necessita de uma democracia que promove igualdade de oportunidades reais, não discursos vazios. Que valorize programas progressistas — Bolsa Família, cotas, tributação justa — e que entenda o antirracismo, a laicidade, a liberdade sexual e religiosa são valores centrais, não acessórios. Para retomar qualquer discurso meritocrático legítimo, é preciso que o ponto de partida seja razoavelmente justo — e hoje, ele não é.

Como dizia Maria da Conceição Tavares: “Se você não se preocupa com justiça social, com quem paga a conta, você não é um economista sério. Você é um tecnocrata”.

Bolsa Família evitou mais de 700 mil mortes e oito milhões de internações

Um estudo publicado na revista The Lancet Public Health, em maio, revelou que o Programa Bolsa Família evitou, entre 2004 e 2019, mais de 700 mil mortes e oito milhões de internações hospitalares, com efeitos especialmente significativos entre crianças menores de cinco anos e idosos com mais de 70 anos. Foram examinados dados de 3.671 municípios, definidos pela qualidade adequada de registro civil e das estatísticas, representando mais de 87% da população brasileira.

“O resultado da pesquisa é muito animador, pois mostra que o Bolsa Família também é muito eficiente e traz ótimos resultados na área da saúde. Também nos mostra que as políticas sociais são fundamentais para uma população mais saudável, com o Sistema Único de Assistência Social trabalhando integrado ao Sistema Único de Saúde”, destacou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias.

A pesquisa foi conduzida por Rômulo Paes, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz), Daniella Cavalcanti, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Davide Rasella, da Universidade de Barcelona, e colegas. Intitulada “Efeitos do programa brasileiro de transferência condicionada de renda na saúde ao longo de 20 anos e projeções até 2030: um estudo retrospectivo de análise e modelagem”, a análise é considerada a primeira avaliação abrangente de impacto do PBF sobre mortalidade por todas as causas em todas as idades.

Para o coordenador do CEE-Fiocruz, o PBF, além de combater a pobreza, tem efeitos diretos na saúde da população brasileira. “O estudo indica a excepcional consistência e resiliência do Programa Bolsa Família, indicando que ele possui um desenho que foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo e que sobreviveu aos momentos críticos para a gestão pública no país”, apontou Rômulo Paes.

Um dos maiores programas de transferência de renda com condicionalidades do mundo, o Bolsa Família teve impacto expressivo na saúde da população brasileira ao longo de seus vinte anos de existência. No Brasil, avaliações anteriores também demonstraram que o PBF alcançou impactos positivos, conseguindo reduzir os riscos de doenças infantis e maternas, bem como a mortalidade por causas específicas, como HIV/Aids e tuberculose, especialmente em populações mais vulneráveis.

No entanto, nenhum outro estudo avaliou de forma abrangente a associação entre PBF e mortalidade e hospitalização, geral e estratificada por idade, nas duas décadas de existência do programa. Estudos anteriores avaliaram os efeitos do Bolsa Família na mortalidade geral em períodos mais curtos e em subpopulações específicas.

Divisor de Águas

A consultora em economia e pesquisadora de pós-doutorado da UFBA, Daniella Cavalcanti, reforçou que o programa representou um divisor de águas na proteção social brasileira, especialmente para as populações mais vulneráveis. “Nosso estudo analisou os impactos de duas décadas de implementação do programa, com foco em indicadores de saúde, como hospitalizações e mortalidade. Os resultados são contundentes: o Bolsa Família não apenas aliviou a pobreza no curto prazo, mas também contribuiu para interromper o ciclo intergeracional da pobreza, promovendo melhorias reais e sustentáveis nas condições de vida”, constatou.

Os dados da pesquisa evidenciaram que os efeitos sobre a saúde são mais robustos quando há alta cobertura (percentual de famílias elegíveis atendidas) e alta adequação (valor médio transferido por família) do programa. Nessas condições, a mortalidade infantil caiu 33% e as internações de idosos acima de 70 anos foram reduzidas pela metade. Além disso, as populações historicamente excluídas – como crianças em extrema pobreza, famílias em áreas rurais remotas, e comunidades negras e indígenas – foram justamente as mais beneficiadas.

“Verificamos uma redução significativa nas internações por causas sensíveis à atenção primária e uma queda importante na mortalidade infantil nas regiões com maior cobertura do programa. Isso demonstra que a transferência de renda condicionada, quando associada ao acesso à educação e aos serviços de saúde, tem efeitos duradouros sobre o desenvolvimento humano das novas gerações”, prosseguiu Daniella Cavalcanti.

Para ela, a experiência acumulada ao longo dessas duas décadas comprova que o Bolsa Família é mais do que uma política de assistência: “é um instrumento de promoção de direitos, equidade e mobilidade social. Ao proteger as crianças de hoje, o programa contribui para quebrar o ciclo da pobreza que atravessa gerações”.

A secretária nacional de Renda de Cidadania do MDS, Eliane Aquino, destacou que o estudo reafirma o papel fundamental do Bolsa Família na proteção da vida. Segundo ela, o impacto direto do programa na redução de hospitalizações e mortes demonstra que a transferência de renda, aliada ao acompanhamento das condicionalidades de saúde, como a vacinação em dia, o monitoramento do estado nutricional das crianças e o pré-natal das gestantes, é uma estratégia eficaz para garantir mais qualidade de vida e reduzir desigualdades.

“É um reconhecimento importante do Bolsa Família como ferramenta de proteção social, promoção da dignidade e cuidado com as pessoas em situação de maior fragilidade. Esses resultados reforçam nosso compromisso em integrar de forma ainda mais eficaz o programa com o SUS e com outras políticas públicas. No entanto, seguimos contando com o engajamento dos estados e municípios para enfrentarmos juntos os desafios que afetam tantas famílias brasileiras”, afirmou.

Aliança Global Contra A Fome 

Conforme destacam os autores, o estudo contribui diretamente para os objetivos da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada pelo Brasil durante sua presidência do G20, no ano passado, e que busca fortalecer a cooperação internacional para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 1 e 2 de erradicação da pobreza e da fome.

“O estudo demonstra de forma ainda mais ampla, o que a ciência tem mostrado ao longo dessas duas décadas do Bolsa Família: ele é mais que transferência de renda, é promoção da saúde, ferramenta de justiça social e, referência internacional, tanto que integra a cesta de políticas da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza”, analisou o titular do MDS e presidente do Conselho da Aliança Global, Wellington Dias.

O estudo demonstra a importância do alcance do Bolsa Família, sendo essencial para consolidar os avanços obtidos e garantir que o Brasil continue rumo à agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030.

LULA DERRETE


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