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Especial

LULA DERRETE

Por que a melhora da economia não repercute politicamente?

Publicado em 13/06/2025 3:17 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Aos olhos do governo, o Brasil de 2025 é um país que começa, ainda que timidamente, a reencontrar o rumo do crescimento. Para os brasileiros, contudo, a sensação é outra: as prateleiras continuam caras, as promessas parecem distantes e a confiança no presidente, minguante. O retrato dessa dissonância está nas pesquisas do Datafolha e do Ipsos-Ipec, que apontam para um dado preocupante: a avaliação negativa do governo Lula atingiu cerca de 40%, superando com folga os 25% de avaliação positiva — o pior momento do terceiro mandato do petista até agora.

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Essa queda vertiginosa de popularidade do presidente, iniciada ainda no primeiro trimestre, não foi revertida nem mesmo com os sinais claros de melhora econômica. A análise do Planalto é sintomática: há uma boa e uma péssima notícia. A boa, os dados econômicos. A péssima, a incapacidade de transformá-los em apoio popular. A economia pode dar o tom de um governo, mas não garante a melodia se a população não a escuta — ou não a sente.

Desde fevereiro, a trajetória de Lula nas pesquisas tem sido de erosão constante. Em março, o Ipsos-Ipec já apontava uma taxa de rejeição em ascensão, que se consolidou na casa dos 40% até junho. A avaliação regular do governo permanece estável em torno de 30%, mas a queda de quase 10 pontos percentuais entre os que consideravam o governo bom ou ótimo acendeu o alerta vermelho.

Paradoxalmente, esses números surgem em meio a um cenário econômico relativamente favorável: o desemprego está em 6,6% — patamar historicamente baixo — e a renda média do trabalhador cresceu 3,2% em um ano. O Boletim Focus, do Banco Central, projetou uma queda na inflação para 5,5% e revisou para cima o crescimento do PIB: de 2% para 2,02%.

A pergunta que se impõe é: por que a melhora da economia não repercute politicamente?

A resposta pode estar naquilo que o cientista político Antonio Lavareda chama de “desalinhamento perceptivo”. O eleitor médio, sobretudo aquele da base petista tradicional — trabalhadores urbanos, classes C e D —, não percebe melhora em seu cotidiano. No lugar da bonança prometida, vê preços ainda altos nos supermercados e sente o peso de um cotidiano que não alivia. Para quem vive no limite da renda, poucos centavos a mais no quilo do arroz têm mais impacto que a oscilação do dólar ou os relatórios de crescimento do PIB.

A comida como metáfora do fracasso

A simbologia dos alimentos sempre teve forte valor político no Brasil. A imagem da “picanha com cerveja”, tão usada por Lula em sua campanha, tornou-se símbolo de uma promessa de melhoria concreta da vida — uma espécie de parábola do bem-estar popular. O problema é que, para boa parte da população, essa promessa segue distante. Os dados do IPCA mostram que, em 26 meses de mandato, os preços dos alimentos subiram 10,6% — menos que os 22,9% sob Bolsonaro no mesmo período. Ainda assim, a percepção de alta nos preços segue predominante.

Eventos climáticos extremos têm afetado diretamente a produção de alimentos nos últimos dois anos. Chuvas intensas no Sul, secas no Sudeste e queimadas no Pantanal impactaram lavouras e pastagens, encarecendo produtos básicos da cesta alimentar. A política agrícola federal, embora atenta ao tema, não conseguiu implementar ações suficientemente eficazes para mitigar os efeitos da inflação no prato.

A comparação com Bolsonaro surge, mais uma vez, como um espelho incômodo. Mesmo com 700 mil mortos durante a pandemia e inflação superior nos alimentos, o ex-presidente terminou seu mandato com força eleitoral e quase venceu Lula em 2022. O que explica essa resiliência?

A guerra da comunicação

Parte da resposta está na comunicação. Ou melhor, na ausência dela. Especialistas como a jornalista Eliane Cantanhêde e o professor da USP Eugênio Bucci têm reiteradamente apontado a fragilidade da comunicação institucional do atual governo. Enquanto a oposição — especialmente a extrema direita digital — ocupa os espaços de rede com agilidade, o governo responde de forma lenta, burocrática e frequentemente atrasada.

Casos como o da “taxação do Pix” e da “crise do IOF” são exemplares. A primeira, em janeiro, foi amplamente explorada por adversários políticos e gerou uma onda de desinformação. A segunda, mais técnica e menos compreendida, ainda assim contribuiu para o desgaste da imagem governamental. Em ambos os casos, a resposta do Planalto veio dias depois, com explicações técnicas que não conseguiram reverter a maré negativa.

Internamente, aliados reconhecem o padrão. Toda crise segue a mesma sequência: a oposição pauta, o governo silencia, tenta uma resposta institucional, chama o Congresso, e Lula entra em cena por último. A chamada “fórmula repetida” tem falhado sistematicamente. E a Secom, sob Sidônio Palmeira, está sob pressão crescente para reformular sua estratégia.

Além disso, pesquisas internas da Secretaria de Comunicação indicam um crescimento constante das menções negativas ao governo em redes como WhatsApp — uma das principais ferramentas de mobilização e desinformação política no Brasil, como já evidenciado em estudos do ITS Rio e da FGV.

O tempo como capital político

Apesar da crise de imagem, aliados ainda veem uma janela de oportunidade. Falta mais de um ano para as eleições de 2026. E há um consenso no núcleo duro do governo: se a economia continuar melhorando e o governo acertar o tom da comunicação, Lula ainda pode reverter o cenário.

Mas há obstáculos. A relação com o Congresso, apesar dos elogios à nova ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, continua instável. O centrão, sempre pragmático e chantagista, acena para alternativas — e pode, a depender das pesquisas futuras, abandonar o barco antes de 2026. Além disso, há divergências internas sobre a exposição de Lula: alguns defendem mais viagens e presença internacional; outros acham que isso o distância do eleitorado popular.

A experiência histórica indica que tragédias não derrubam necessariamente presidentes — o que importa é a forma como reagem a elas. Bolsonaro não criou a Covid-19, mas foi derrotado pela forma como a ignorou. Se Lula não reagir com firmeza à crise do custo de vida, poderá sofrer destino semelhante. Como disse Norberto Bobbio: “o problema da democracia não é apenas garantir a liberdade, mas torná-la eficaz”.

Lula enfrenta a sombra de Bolsonaro

Lula venceu Jair Bolsonaro nas urnas em 2022 prometendo reconstruir um país devastado pela pandemia, pela erosão institucional e pela radicalização política de extrema direita. Mas, dois anos depois, o lulismo se vê encurralado por uma ironia amarga: grande parte da população enxerga sua gestão como inferior à do antecessor justamente nas áreas que pautaram sua crítica mais contundente ao bolsonarismo — como inflação, segurança pública, saúde e meio ambiente.

É o que revela o levantamento do Datafolha. Em todos os oito temas avaliados na pesquisa, a comparação entre os dois governos trouxe resultados preocupantes para o Planalto. A rejeição ao desempenho de Lula se amplia, sobretudo entre os mais ricos, enquanto suas bases tradicionais demonstram crescente desalento. O sinal é claro: o governo enfrenta não apenas uma crise de percepção, mas uma batalha profunda por legitimidade simbólica.

Inflação e segurança: calcanhares de Aquiles

O dado mais contundente da pesquisa diz respeito ao controle da inflação. Para 50% dos entrevistados, Bolsonaro lidava melhor com o tema que Lula — apenas 29% avaliam o atual presidente como superior, e 17% os consideram equivalentes. O impacto desse dado ultrapassa o campo das percepções e toca diretamente na economia do cotidiano: a alta nos preços dos alimentos segue como o principal fator de desgaste popular.

A diferença entre a realidade estatística e a percepção social é abissal. Dados do IPCA apontam que os alimentos subiram 10,6% nos primeiros 26 meses do governo Lula, contra 22,9% no mesmo período do governo Bolsonaro. Ainda assim, como alertou o economista Armínio Fraga, “a inflação é uma experiência sensorial. O número pode até cair, mas se a comida segue cara, o sentimento de alívio não vem”.

Na segurança pública, o cenário é semelhante. Para 46% dos entrevistados, Bolsonaro teve melhor desempenho; apenas 29% acreditam que Lula está à frente. A retórica punitivista do ex-presidente, ancorada em seu histórico militar e em um discurso de força e autoridade, ainda ressoa fortemente em setores da sociedade — mesmo que o resultado prático de suas políticas tenha sido, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um aumento da letalidade policial e da violência armada.

O Ministério da Justiça sob Lula tem tentado implementar uma coordenação nacional mais efetiva entre as polícias, mas enfrenta resistências dos estados, temerosos de perder autonomia. A fragmentação federativa da segurança é um desafio estrutural que governos de esquerda costumam encontrar, dada sua ênfase histórica nos direitos humanos — algo que, paradoxalmente, continua sendo visto com desconfiança por uma parte do eleitorado que associa segurança a repressão.

Saúde, pobreza e meio ambiente

As áreas que foram carro-chefe da campanha de Lula — e nas quais Bolsonaro acumulava desgastes notórios — também não entregaram o esperado em termos de capital político. Na saúde, 40% acham que Lula é pior, contra 38% que o consideram melhor. É um empate técnico, mas desconcertante: em 2022, o ex-capitão foi acusado de “genocida” pela condução negacionista da pandemia e pelo boicote à vacinação. Lula, por sua vez, recuperou o protagonismo do SUS e investiu na cobertura vacinal, mas não conseguiu converter essas ações em uma percepção de excelência.

No combate à pobreza, o empate é ainda mais simbólico. Lula, cuja biografia se confunde com a ascensão social das classes populares nos anos 2000, agora vê sua marca diluída: 41% o consideram melhor, 40% preferem Bolsonaro. A renda básica foi mantida, mas os efeitos inflacionários e a informalidade no trabalho minaram a sensação de segurança econômica. A inflação, como fenômeno regressivo, atinge mais fortemente os que ganham menos — e seu impacto subjetivo supera os ganhos estatísticos.

No meio ambiente, o resultado surpreende: 38% veem Lula como melhor que Bolsonaro, enquanto 37% o consideram pior. Aqui, pesam as contradições internas da atual gestão. A retórica internacional do Brasil como potência ambiental contrasta com os embates entre o Ministério do Meio Ambiente e setores do próprio governo, como o Ministério de Minas e Energia, especialmente no caso da tentativa de exploração de petróleo na margem equatorial da Amazônia. Como afirmou o professor Ricardo Abramovay (USP): “a credibilidade ambiental se constrói com coerência, não só com discursos”.

Onde Lula leva vantagem: educação, emprego e habitação

As boas notícias para o presidente aparecem nos temas de educação, emprego e moradia. Na educação, 42% consideram Lula melhor que Bolsonaro, ante 38% que preferem o ex-presidente. A margem, porém, ainda está no limite da margem de erro. A principal vitrine do atual governo no setor é o programa Pé-de-Meia, que oferece apoio financeiro a alunos do ensino médio para evitar a evasão escolar.

Na geração de empregos, o governo colhe reconhecimento mais visível: 43% veem Lula com melhor desempenho, ante 36% para Bolsonaro. Os dados do IBGE corroboram essa percepção, com uma taxa de desemprego de 6,6% — uma das menores da série histórica — e aumento do emprego formal com carteira assinada.

Na habitação, há um ganho relevante: Lula é lembrado por seu histórico com o Minha Casa, Minha Vida, retomado nesta gestão com novos investimentos. A confiança nesse setor, especialmente entre as camadas mais pobres, segue sendo uma âncora de apoio para o governo.

Classe, fé e escola: o país dividido

O dado que mais salta aos olhos na pesquisa Ipsos-Ipec é a relação entre renda e avaliação do governo. Entre os mais ricos — aqueles com renda familiar superior a 5 salários mínimos — a taxa de reprovação chega a 59%, ao passo que entre os mais pobres — com renda de até 1 salário mínimo — a aprovação sobe para 33%. É uma fotografia quase clássica das tensões redistributivas que moldam o debate político brasileiro desde o início do século XXI.

Essa divisão não é nova. O cientista político André Singer, em sua obra Os Sentidos do Lulismo (Companhia das Letras, 2012), já apontava a formação de um “bloco histórico popular” sustentado por uma aliança entre o lulismo e os estratos mais vulneráveis da sociedade. A erosão atual desse pacto, no entanto, não indica necessariamente uma conversão conservadora desses grupos, mas sim um esvaziamento de expectativas diante de um cotidiano que não melhora com a rapidez desejada.

O recorte religioso também é elucidativo: 50% dos evangélicos reprovam o governo Lula, contra 32% de aprovação entre os católicos. Trata-se de um reflexo direto da guerra cultural que se consolidou nos últimos anos e que segue sendo instrumentalizada pela oposição — especialmente por figuras ligadas à extrema direita. A bancada evangélica, fortalecida no Congresso, continua operando como um dos principais focos de resistência ideológica ao campo progressista, aproveitando o vácuo deixado por uma agenda moral muitas vezes negligenciada pela esquerda institucional.

Quanto à escolaridade, a pesquisa mostra um dado preocupante: 51% dos mais escolarizados consideram o governo ruim ou péssimo, enquanto 36% dos menos instruídos ainda o aprovam. Essa inversão de expectativas desafia análises simplistas e sugere uma desconfiança crescente entre as camadas médias intelectualmente formadas, que frequentemente exigem coerência discursiva, estabilidade fiscal e políticas públicas tecnicamente embasadas — áreas onde o governo tem enfrentado dificuldades de narrativa, mesmo quando os dados objetivos são favoráveis.

Regiões e o mapa eleitoral reconfigurado

Geograficamente, Lula ainda mantém alguma força no Nordeste, com 38% de avaliação positiva, mas o desgaste se acentua no Norte/Centro-Oeste, onde a reprovação saltou de 43% para 50%. Isso reforça um padrão observado desde as eleições de 2018: a consolidação de uma geografia política em que a oposição à esquerda avança sobre territórios antes neutros ou instáveis.

O Nordeste continua sendo o principal bastião do lulismo — não apenas por gratidão histórica, mas por razões estruturais. É a região mais beneficiada pelas políticas sociais de transferência de renda e investimento em infraestrutura durante os governos petistas. Já o Norte e o Centro-Oeste têm sofrido influências diretas de setores como o agronegócio e o bolsonarismo ruralista, com forte discurso antiambiental e antiestatista.

Para 36%, Janja atrapalha governo Lula

A pesquisa Datafolha mostra ainda que para, 36% dos brasileiros, as ações da primeira-dama, Janja Lula da Silva, mais atrapalham que ajudam o governo Lula.

Outros 14% acreditam que mais ajudam que atrapalham. Outros 40% acreditam que primeira-dama não ajuda nem atrapalha, e 10% dizem não ter opinião formada sobre o assunto.

Segundo o Datafolha, 40% dos homens acham que Janja influencia negativamente o presidente. O número é parecido com a média geral. Entre as mulheres, esse índice cai para 36%.

O voto e a memória política

O impacto da identidade eleitoral é nítido: 75% dos que votaram em Jair Bolsonaro em 2022 avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo. Por outro lado, 53% dos que votaram em Lula ainda o consideram bom ou ótimo. A polarização não se dissolveu após a eleição — pelo contrário, se enrijeceu.

Esse fenômeno é descrito por autores como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018), que alertam para o perigo de sistemas políticos em que a competição eleitoral se transforma em inimizade moral. No Brasil, esse cenário é intensificado por uma guerra informacional constante e por estruturas de comunicação que favorecem o discurso de ressentimento.

Segundo o próprio Ipsos-Ipec, a pesquisa mostra “estabilidade” nos índices em relação ao mês de março. Mas é uma estabilidade paradoxal: o governo não cai, mas tampouco se recupera. Permanece estacionado em um patamar de desgaste que impede iniciativas mais ousadas, gera paralisia na agenda e alimenta o cinismo político.

Como afirmou o sociólogo Zygmunt Bauman, “a crise da democracia é menos sobre o que os governos fazem e mais sobre o que os cidadãos acreditam que eles podem fazer”. Se o governo Lula não reverter a sensação de paralisia, mesmo avanços concretos continuarão invisíveis aos olhos do eleitor.

O desafio de reconectar o país a si mesmo

O Brasil que emerge de ambas as pesquisas é um país cansado, polarizado e profundamente cético. A crise não é apenas de governo, mas de representação, de linguagem, de identidade. O lulismo, enquanto projeto político de inclusão, enfrenta o desafio de atualizar sua gramática — para dialogar com novos sujeitos sociais, com as redes digitais, com o eleitor evangélico, com o jovem precário e com o cidadão urbano indignado.

A próxima eleição será disputada também na esfera simbólica: entre o lulismo do passado e o que ele ainda pode ser no futuro. O tempo corre. E como advertiu o historiador Eric Hobsbawm: “os governos não são julgados apenas pelo que fazem, mas pelo que parecem fazer — e por aquilo que não conseguem impedir.”

O lulismo sempre se ancorou na capacidade de dialogar diretamente com o povo. Quando essa conexão se enfraquece, todo o projeto político se fragiliza. O desafio de 2026 não é apenas econômico, mas simbólico, comunicacional e, sobretudo, moral. É preciso que o governo se reconecte com a vida real da população, que volte a falar a linguagem da esperança concreta, não das estatísticas frias.

A economia pode continuar crescendo. Mas, se o povo não sentir que a vida melhorou, o discurso será inócuo. É esse o dilema do governo: traduzir a bonança dos gráficos em alívio na feira e no supermercado. Reencontrar a alma popular do projeto que o elegeu.

O tempo corre. E como ensina Hobsbawm, “em tempos de crise, a política se torna uma batalha pela definição da realidade”. Essa batalha está em curso. E Lula, mais uma vez, está no centro dela.

A guerra da narrativa e os desafios de 2026

O cenário desenhado pelas pesquisas antecipa, em larga medida, os contornos da eleição de 2026. Lula, embora seja o candidato natural do campo progressista, terá que disputar contra a memória — ou a idealização — do governo Bolsonaro, mesmo com o ex-presidente inelegível até 2030. A direita, fragmentada e à procura de um herdeiro, dificilmente abandonará o legado simbólico do ex-capitão. A disputa será travada não apenas nas urnas, mas no imaginário social.

Para além da comunicação hesitante e da desconexão entre os dados econômicos e a percepção popular, Lula enfrenta outro obstáculo estrutural: a necessidade de governar com um Congresso dominado por uma direita cada vez mais permeável aos métodos e retóricas da extrema direita. Não se trata apenas de oposição ideológica, mas de uma aliança oportunista em torno do desgaste do governo. Parte expressiva do Legislativo opera movida por cálculos eleitorais imediatos e, diante de uma sociedade marcada pela desinformação e pela demonização da política, essa lógica se intensifica. A deliberada sabotagem de pautas do Executivo, muitas vezes disfarçada sob o manto do “centro democrático”, revela um ambiente institucional em que o interesse público cede lugar à guerra simbólica permanente. Nesse cenário, o lulismo encontra dificuldade não apenas para governar, mas para existir como projeto de mediação democrática.

Como lembra o filósofo italiano Norberto Bobbio, “a democracia exige mais que eleições livres: ela exige cidadãos informados e críticos”. O Brasil de 2025 parece prisioneiro de uma inversão: mesmo com avanços objetivos, parte do eleitorado sente que tudo piorou. É o triunfo da percepção sobre o fato, da emoção sobre a razão.

Para Lula, a lição é dura, mas clara: não basta governar. É preciso comunicar. E, mais que isso, é preciso representar — não apenas com números, mas com símbolos, gestos e empatia real. A reconstrução da confiança é uma jornada longa, e o tempo, como sempre, é o recurso mais escasso da política.

O AVANÇO


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