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Ágora Digital
Rei do Ovo é o retrato de uma elite apodrecida que depende de um Estado cúmplice
Publicado em 17/06/2025 1:09 - Victor Barone
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Por vezes, a história nos brinda com personagens que parecem saídos diretamente de romances satíricos — figuras cuja percepção da realidade é tão distorcida que seria cômica, não fosse trágica. Ricardo Faria, o autointitulado “Rei do Ovo”, é uma dessas figuras. Bilionário, controlador da multinacional Global Eggs, proprietário de um império que despeja generosamente 13 bilhões de ovos por ano no mercado, ele se viu, recentemente, às voltas com um problema gravíssimo: segundo suas próprias palavras, contratar trabalhadores no Brasil virou um “desastre”. A causa? Ora, as pessoas estão “viciadas no Bolsa Família”.
Sim, você não leu errado. Acredite, a decadência moral do Ocidente, para esse magnata das granjas, passa não pelas obscenas desigualdades sociais que definem o Brasil, tampouco pela miséria que assola milhões. O problema, segundo ele, são os R$ 666 mensais, em média, que um beneficiário do Bolsa Família recebe — valor que, segundo a lógica aviária do bilionário, tornaria o trabalho braçal de coletar ovos, limpar granjas e lidar com galinhas uma opção… pouco atraente.
E quem poderia culpá-los? Na Granja Faria, uma vaga de operador de produção exige, além da disposição para abandonar sua família e morar no local, “vivência no ramo de avicultura”. Tudo isso pela fortuna de R$ 1.670,00 mensais, um salário que não só é 14% inferior à já indecente média nacional para a função, como ainda está sujeito aos tradicionais descontos que o neoliberalismo de galinheiro se recusa a contabilizar nas entrevistas à imprensa.
O que Ricardo Faria expressa não é só ignorância. É a expressão mais acabada de uma dissonância cognitiva que acomete boa parte das elites econômicas brasileiras. Uma elite que, ao contrário de seus pares em países minimamente civilizados, jamais aceitou o pacto social básico que sustenta qualquer democracia funcional: o reconhecimento de que quem trabalha tem direito a viver com dignidade.
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos define bem esse fenômeno quando fala do “fascismo social” — aquele que “expulsa grandes grupos sociais da cidadania, da dignidade e dos direitos, não pelas armas, mas pela precarização da vida cotidiana” (A Crítica da Razão Indolente, 2000).
E não se trata de exagero. A mesma empresa cujos lucros permitiram a Faria estrear na lista da Forbes, com um patrimônio de R$ 17,45 bilhões, responde a uma coleção de processos trabalhistas que inclui desde assédio moral até não pagamento de horas extras e verbas rescisórias. No Piauí, em 2023, o Ministério Público do Trabalho instaurou um inquérito para investigar irregularidades nos contratos de trabalho. A cena se repete em estados como Mato Grosso, Maranhão, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul.
O discurso do “Rei do Ovo” é velho conhecido no Brasil. Trata-se do mito do empreendedor-herói, aquela figura abnegada que carrega o país nas costas, sufocado por impostos, regulamentos e, claro, trabalhadores ingratos. É o mesmo script que ouvimos quando se atacou o décimo terceiro salário, as férias remuneradas, a licença maternidade e, mais recentemente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), dilacerada pela reforma trabalhista de 2017.
O resultado dessa sanha desregulamentadora? Mais empregos? Não. Mais miséria. Dados do IBGE mostram que, após a reforma, o número de trabalhadores sem carteira assinada no setor privado chegou a 13,2 milhões em 2023 — um recorde histórico. O trabalho informal, precário e mal remunerado se tornou regra, não exceção.
Culpar o Bolsa Família é uma estratégia tão rasteira quanto recorrente. O economista Eduardo Moreira foi cirúrgico ao comentar: “Se [alguém de] uma família com R$ 1.000 do Bolsa Família opta por não aceitar um emprego, a pergunta correta não é o que há de errado com o programa social, mas sim com o tipo de vaga que está sendo oferecida.”
O programa, aliás, custa aos cofres públicos menos de 1% do PIB e tem efeitos extraordinários na redução da pobreza extrema, no aumento da frequência escolar e na melhoria dos indicadores de saúde pública, segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
O incômodo de figuras como Ricardo Faria não é exatamente com o Bolsa Família. É com a ideia de que o trabalhador possa ter qualquer margem de escolha. O medo, em última análise, é que a democracia — essa invenção subversiva que atrela direitos à cidadania — permita que o trabalhador diga, com toda a elegância: “Prefiro não.” Prefiro não aceitar um trabalho indigno. Prefiro não aceitar ser explorado. Prefiro não abrir mão da minha vida, da minha família e da minha saúde mental para enriquecer quem já tem mais do que qualquer ser humano jamais precisará.
A ironia final dessa história é que, enquanto se aponta o dedo para os pobres, acusando-os de viver às custas do Estado, são justamente os bilionários que dependem de um Estado cúmplice, que tolera isenções fiscais obscenas, fraudes trabalhistas, destruição ambiental e políticas que garantem a concentração de renda como regra e não como exceção.
Como bem disse o filósofo Noam Chomsky, em entrevista à BBC: “Quando se fala de subsídios, quem mais depende deles são as grandes empresas. Eles adoram o socialismo — para eles mesmos. O mercado livre é só para os pobres.”
Que o rei dos ovos, portanto, continue empilhando suas omeletes de bilhão. Mas que ao menos tenha a decência de parar de culpar quem apenas deseja, de forma modesta, colocar comida no próprio prato — e, quem sabe, até um ovo.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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