25/02/2024 - Edição 525

Especial

Auto retrato

Publicado em 15/09/2015 12:00 -

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Em 2013, o respeitabilíssimo Dicionário Oxford, o mais extenso da língua inglesa, incluiu um novo verbete em suas páginas: selfie, que reúne o substantivo self (eu, a própria pessoa) e o sufixo ie. Eis sua definição: "Fotografia que alguém tira de si mesmo, em geral com smartphone ou webcam, e carrega em uma rede social.".

A moda de tirar autorretratos com smartphone ou webcam e postá-los em seguida nas redes sociais parece ter vindo para ficar, para alegria de quem acha que cada momento é um flash. Agora que até o selfie pós-sexo (foto que registra o casal logo após o ato sexual) virou mania, especialistas assinalam que se expor demais na internet pode ser sinal de algum problema.

“Há coisas que são dispensáveis, que não interessam a ninguém, mas mesmo assim são postadas. Todo mundo quer se mostrar”, diz o psiquiatra especialista em sexualidade Alexandre Saadeh, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. “A selfie pós-sexo é mais do mesmo. A pessoa expõe a si e ao parceiro”, afirma.

Para a psicóloga Luciana Nunes, mestre em saúde mental e diretora do Instituto Psicoinfo, não há como compreender a necessidade de replicar um registro do momento mais íntimo da vida pessoal.

Aliás, a pesquisadora holandesa Christyntje Van Galagher, da Universidade de Wageningen, desenvolveu um estudo segundo o qual o número de selfies que uma pessoa posta no Instagram pode estar relacionada ao nível da carência sexual da mesma.

O estudo é chamado Het fotograferen van onbering en eenzaamheid, que em português significa algo como Fotografando a carência e a solidão e diz que os selfies são uma fuga da realidade que é tomada pelo abandono e pela insegurança. Carentes na vida real, os viciados em selfies procuram melhorar o seu bem-estar baseados nos likes da imagem que construíram com os filtros e até mesmo com o Photoshop.

Foram avaliadas 800 pessoas que postam muitos selfies e cerca de 83% delas não possuem uma vida sexual satisfatória e enquanto a média de postagem de fotos era de 45 por mês, a de relações sexuais é de apenas 2 no mesmo período de tempo.

Comportamento

Segundo Luciana Nunes, a moda dos selfies pode ser vista como uma evolução do comportamento humano em relação à tecnologia; no entanto, quando existe um desvio do padrão, é possível que algumas pessoas desenvolvam até um vício nesses autorretratos. “Há quem poste 30 selfies por dia e, quando não o faz, sente quase uma síndrome de abstinência”, afirma.

Para Saadeh, vários problemas podem levar à necessidade de megaexposição nas redes sociais. Entre eles, solidão, baixa autoestima, depressão e fobia social. “Quem vive uma vida real, concreta, não tem tempo de postar tanto na internet”.

Quando a questão é baixa autoestima, a psicóloga Beatriz Acampora, professora da Universidade Estácio de Sá, explica que querer aparecer demais é uma estratégia de enfrentamento adotada em busca da aprovação do outro. “A pessoa usa o virtual para fugir da infelicidade”.

"As pessoas esquecem que ser narcisista não é apenas ser egomaníaco – é também algo impulsionado pela insegurança subjacente. É precisar do aval das 'curtidas'", afirma Jesse Fox, professora na Universidade Estadual de Ohio.

Não é de hoje

O selfie não é invenção do mundo digital, é bom frisar (mas é igualmente importante reconhecer que a tecnologia transformou a prática). O primeiro registro reconhecido como tal data de 1839, assinado pelo fotógrafo Robert Cornelius. Os adolescentes também abraçaram a ideia muito antes do Instagram. Em 1914, Anastasia Nikolaevna, de 13 anos, filha do czar Nicolau II da Rússia, posou em frente a um espelho. Logo após o retrato, disse: "Foi muito difícil, minhas mãos tremiam." O próximo passo, é claro, foi compartilhar a imagem com os amigos. Sem acesso ao Facebook, usou cartas.

O autorretrato é um gênero antigo. Há relatos de que, no século V a.C., Fídias deu a uma escultura do templo de Parthenon, em Atenas, seu rosto. Mas foi só no Renascimento que o gênero ganhou força, expandindo a capacidade de expressão artística. Munidos de espelhos de grande qualidade, que então se popularizavam, mestres usaram o autorretrato como caminho para o autoconhecimento: as criações intimistas revelaram vários estados de espírito – um contraponto a temas como a narrativa épica e o convívio social. Artistas como o alemão Dürer (1471-1528) e o holandês Rembrandt (1606-1669) foram pródigos na arte, retratando várias vezes o próprio rosto. Ao mesmo tempo que revelavam a si mesmos, construíam uma imagem pública.

No mundo digital, a brincadeira se espalha à exaustão graças à mistura de dois ingredientes, hardware e software. "Os selfies ganharam relevância depois do lançamento das câmeras que transformaram smartphones com conexão à internet em máquinas fotográficas. E como todo hardware precisa de software, o Instagram teve papel indispensável", diz Luciana Nunes.

Garotada

Há três grupos bem definidos de autores de selfies. O primeiro é formado pelos exibicionistas. É gente que costuma parar diante do espelho do elevador ou da academia e exibir para a câmera, por exemplo, os resultados da malhação. O segundo reúne aquelas pessoas que querem apenas mostrar seu estado de espírito – felicidade ou tristeza ao acordar, ao encontrar um amigo etc. Por fim, tem o time que quer mostrar que está em algum lugar, parque ou shopping, por exemplo, desde que a paisagem não ganhe mais importância do que o autor.

Majoritariamente, os selfies são produzidos por jovens com idades entre 13 e 24 anos. Nove em cada dez pessoas desse grupo postam os autorretratos, revelou o instituto americano Pew Internet Research em estudo realizado em maio com adolescentes americanos. "O selfie permite que você mostre seus sentimentos sem artifícios, sem uso de filtros que distorcem fatos", diz o vietnamita Joshua Nguyen, criador do Selfie, primeiro aplicativo exclusivamente dedicado aos autorretratos. Em geral, esses apps dedicados possuem apenas três botões: um para capturar a imagem, outro para programar o instante em que a foto será feita (temporizador) e, finalmente, um para compartilhar o produto nas redes sociais.

Prejuízos na vida real

Tanta autoexposição pode ter um preço, dizem alguns psicólogos. "Selfie é uma nova maneira de expressão. Doses excessivas, contudo, podem ser nocivas a seus praticantes", diz Larry Rosen, professor de psicologia da Universidade da Califórnia e uma das autoridades quando o assunto é a relação entre homem e tecnologia. Ele defende que o componente eminentemente narcisista do selfie pode induzir transtornos de personalidade, intensificando traços de agressividade e reclusão.

Segundo a psicóloga Ana Luiza Mano, para avaliar o quanto o uso de selfies está sendo danoso, mais importante do que o número de autorretratos publicados é a intenção da pessoa ao divulgá-los e como isso impacta a vida dela.

“O critério leva em conta os prejuízos sociais, físicos e profissionais. Há quem deixe de trabalhar ou falte à escola porque não consegue se desconectar”, exemplifica Ana Luiza, do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“É preciso saber qual o investimento emocional que a pessoa coloca no selfie. Se ela troca de roupas e faz 50 poses para escolher uma foto, isso é um comportamento fora da linha da normalidade”, completa Luciana Nunes.

Transtornos de personalidade, como bipolaridade, também podem levar à megaexposição na internet. Para Beatriz Acampora, está na hora de repensar as fronteiras entre público e privado. “Por que é necessária essa prestação de contas para a sociedade? Por enquanto, temos mais perguntas do que respostas”.

Público e privado

Andrew Hoskins, pesquisador da Universidade de Glasgow, na Escócia, questiona como as tecnologias digitais estão mudando a maneira como os acontecimentos atuais se tornam memória e como essas ferramentas conectadas estão ultrapassando os limites.

Um exemplo são as selfies. Ele usa como exemplo o funeral do ex-governador de Pernambuco e ex-candidato à presidência da República, Eduardo Campos (PSB), quando inúmeras pessoas que passaram pelo local postaram selfies nas redes sociais ao lado da viúva do político, Renata Campos, e até mesmo ao lado do caixão onde estava o corpo. Para Hoskins, tal atitude mostra que manter-se conectado a todo momento – e o principal, tornar-se parte integrante da experiência de estar em qualquer lugar – virou uma espécie de compulsão.

"A noção do que é público se transformou com a tecnologia. E há agora o que eu chamo de compulsão pela conectividade. Então a pergunta a se fazer é por que as pessoas estão tirando selfies? Por que elas estão constantemente registrando tudo? É em parte a ideia do que é estar em um espaço público hoje, o que é entender uma certa experiência ou evento", disse Hoskins. "A tecnologia sempre esteve presente nesse sentido, mas para mim há um ponto em que chegamos longe demais. É quando registrar o evento se torna mais importante do que ver o que está sendo registrado. Acho que esse momento estamos vivendo agora".

O pesquisador escocês afirma que entende que a geração atual é diferente de épocas passadas, especialmente a questão da midiatização dos eventos que mudou muito nos últimos cinco anos. Nesse caso, Hoskins acredita que os usuários desta geração acham normal o registro constante dos lugares e pessoas, e sua publicação no mundo online. "Eles acham que isso é parte rotineira do que significa estar em um evento ao vivo. (…) Quando eu vou para um show, eu quero ver uma banda, eu vou para ver a performance. Eu não quero alguém diante de mim balançando o telefone, a câmera ou um iPad. Mas eu sou de outra geração, eu acho isso estranho", explica.

Sem memória

Embora critique os usuários compulsivos, Hoskins admite que os smartphones fazem parte da sociabilidade do dia a dia, e que, dada a penetração desses aparelhos nas nossas vidas, é impossível escapar deles. Contudo, esses dispositivos estão criando um efeito nomeado por Hoskins como esvaziamento de memória. Em seu livro iMemory, ele cita que a memória hoje é menos uma questão de lembrar e mais uma questão de saber para onde olhar. Isso porque há uma diminuição da memória humana por causa da nossa crescente confiança na tecnologia. "Agora, se eu não me lembro, posso digitar e aparece para mim", disse.

Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos comprovou essa constatação. Eles descobriram que o uso excessivo da internet, especialmente os sites de buscas, como o Google, está aumentando os níveis de esquecimento da população. Assim como os computadores e celulares, esses buscadores se tornaram "extensões da nossa inteligência", em vez de ferramentas separadas. Como consequência, estamos cada vez mais propensos a esquecer dos acontecimentos que não pesquisamos na internet.

Segundo os cientistas, as pessoas agora confiam mais nos meios digitais do que na própria memória para armazenar informações. Na visão desses usuários, guardar dados eletronicamente, como na nuvem ou em outros mecanismos, é mais seguro, confiável e à prova de falhas do que guardar tudo na própria mente ou na de outra pessoa. Os pesquisadores concluíram que a internet está tomando o lugar não só de outras pessoas como fontes externas de memória, mas também das nossas faculdades cognitivas.

"A grande mudança é que a confiança nas tecnologias da comunicação e da informação para criar memórias, para se sociabilizar e para se informar está passando a ser um dependência. E esse é o ponto crítico. Contar com essas tecnologias é bom, na minha opinião. Mas depender delas é outra coisa. A noção de compulsão pela conectividade sugere para mim que estamos dependentes. É essa coisa de não poder ficar sem checar mensagens no telefone, sem tirar fotos. De não poder ficar desconectado por algum tempo, porque nos sentimos sozinhos e alienados", disse Hoskins.


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