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Território Cultural
Entre o Pantanal e a Bahia, a arte brasileira revela conexões que atravessam paisagens, memórias e sensibilidades coletivas
Publicado em 22/05/2026 1:13 - Sérgio Carvalho
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Você já teve a impressão de que a arte parece percorrer distâncias que a lógica ainda não consegue medir? Me peguei pensando nesse universo esses dias.
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Pense comigo: uma pintura produzida às margens do Rio Paraguai, em Corumbá, pode dialogar silenciosamente com a abertura de uma novela ambientada no litoral baiano dos anos 1970. Quer saber como? Continue a leitura e, no final, deixe também o seu olhar sobre esse raciocínio. E os estudiosos, claro, fiquem à vontade para tentar nos explicar algo de científico.
Um artista do Pantanal e uma construção estética da televisão brasileira podem nunca ter se encontrado, nunca terem compartilhado referências diretas, e ainda assim produzirem imagens que parecem nascer da mesma memória.
E você, já parou para pensar sobre isso? Em viagens pelo Brasil, ou até fora dele, às vezes surge a sensação de reconhecer cores, movimentos, símbolos ou emoções em lugares completamente diferentes. Como se determinadas manifestações humanas se comunicassem à distância, ultrapassando tempo e território.
Ao observar algumas obras do pintor sul-mato-grossense Jorapimo, um dos nomes mais importantes das artes plásticas do Pantanal brasileiro, sempre tive a sensação de que deveria ter sido o Jorapimo autor da primeira abertura da novela Gabriela, exibida pela Rede Globo em 1975, e que foi protagonizada por Sônia Braga.
Jorapimo, nascido em Corumbá, transformou o Pantanal em linguagem visual. Sua pintura nunca retratou apenas paisagens. Ela registrava permanências humanas. Canoeiros atravessando lentamente o Rio Paraguai, lavadeiras inclinadas sobre pedras e tábuas na água, populações ribeirinhas dissolvidas entre reflexos, barcos, calor e movimento.
Há presença humana em suas telas, mas sem rigidez. Os corpos parecem misturados à luz, ao barro, ao vento e à umidade pantaneira. As cores terrosas, os vermelhos intensos, os amarelos queimados e os azuis fluidos produzem uma sensação de calor humano e de terra vivida.
Existe algo de orgânico em sua obra. Como se o Pantanal respirasse dentro da tinta.
Curiosamente, algo semelhante acontece na primeira abertura de Gabriela. Não são imagens realistas ou cenas tradicionais da novela. A sequência foi construída quase como uma pintura em movimento. Sol forte, terra seca, cactos, figuras humanas desenhadas com traços que lembram carvão ou grafite grosso sobre uma superfície áspera.
Existe ali uma estética rústica, quente e profundamente brasileira. Os desenhos parecem surgir da própria terra.
É justamente nesse ponto que a abertura de Gabriela se aproxima das obras de Jorapimo. Não pela temática direta, mas pela sensação visual. Pela matéria estética. Pela forma como ambos transformam calor, território e presença humana em linguagem artística.
Os traços fluidos, as figuras parcialmente dissolvidas, o aspecto terroso e a impressão de movimento aproximam duas obras produzidas em contextos completamente diferentes, mas ligadas por uma mesma memória sensorial brasileira.
Há uma conexão difícil de explicar racionalmente, mas impossível de ignorar no campo da percepção.
A ciência pode associar isso a repertórios culturais compartilhados, processos históricos semelhantes ou símbolos que percorrem regiões diferentes de um mesmo país continental. Ainda assim, existe uma camada mais delicada nessa observação: uma espécie de consciência estética brasileira.
Determinadas sensibilidades parecem circular pelo país como rios invisíveis, levando gestos, cores, ritmos e percepções de um território ao outro sem pedir autorização à geografia.
O Pantanal e a Bahia possuem ritmos diferentes, histórias particulares e paisagens distintas. Mesmo assim, em algum ponto da construção simbólica brasileira, parecem conversar por meio da arte.
Essa percepção também aparece nas festas populares.
Quem observa com atenção o São João de Corumbá, alegre, colorido, democrático e familiar, percebe em muitos momentos uma atmosfera visual que dialoga com o Carnaval de Olinda. As cores intensas, as fitas, os adornos, a ocupação afetiva das ruas, a presença das famílias, das crianças, da música e da celebração coletiva.
Festas separadas por milhares de quilômetros, calendários diferentes e contextos culturais próprios, mas que carregam uma energia semelhante, como se compartilhassem a mesma vontade brasileira de transformar espaço público em encontro humano.
Você já esteve nos Quatro Cantos, em Olinda, em plena terça-feira de Carnaval? Esteve na Ladeira Cunha e Cruz, em Corumbá, em plena noite de 23 de junho?
Procure essa experiência. E é possível viver as duas no mesmo ano.
E aí eu me pego pensando, que uma das funções mais bonitas da arte talvez seja justamente essa: revelar conexões antes mesmo que elas possam ser plenamente compreendidas.
Porque nem toda ligação humana nasce do encontro físico. Algumas surgem da percepção. Outras da memória coletiva. E algumas parecem nascer desse grande imaginário cultural brasileiro, onde o país deixa de ser apenas território e passa a ser linguagem, expressão e sensibilidade de um povo.
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SÉRGIO CARVALHO
Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.
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