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Território Cultural

O som que permanece

Na América do Sul, um festival cultural que também serve como reflexão

Publicado em 16/05/2026 10:42 - Sérgio Carvalho

Divulgação Semana On - IA

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O som que permanece

Enquanto o outono começa a derrubar lentamente a temperatura em Mato Grosso do Sul, Corumbá volta a receber o Festival América do Sul, realizado entre os dias 14 e 17 de maio, na principal cidade pantaneira da fronteira entre Brasil e Bolívia.

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Mais uma vez, artistas, músicos, escritores, artesãos e manifestações culturais de diferentes regiões da América do Sul irão ocupar ruas, palcos e espaços públicos da cidade.

Mas talvez um festival cultural também sirva para uma reflexão.

Talvez ele seja um espaço onde uma sociedade decide o que merece permanecer na própria memória.

Tenho pensado nisso desde a edição do festival no ano passado, quando encontrei o mestre cururueiro Seu Sebastião e segurei, mais uma vez, uma viola de cocho nas mãos.

Existe algo difícil de explicar naquele instrumento.

A madeira escavada. O som áspero. A vibração curta das cordas. A sensação de que não se trata apenas de um objeto musical, mas de uma espécie de território transformado em som.

Neste ano, inclusive, a viola de cocho completa 21 anos, a maior idade, de reconhecimento como patrimônio cultural brasileiro pelo IPHAN. Mas muito antes do reconhecimento oficial, ela já existia viva nas margens dos rios, nas festas populares, nas comunidades pantaneiras e nas mãos de quem aprendeu a transformar madeira em som e memória.

Talvez por isso algumas expressões culturais atravessem o tempo mesmo quando tudo parece mudar tão rapidamente.

A viola de cocho permanece.

Assim como o som do triângulo permanece nas bandas de pífanos do Nordeste. Assim como certas rezas permanecem. Certas receitas. Certas palavras. Certos modos de falar.

Nem sempre percebemos, mas algumas sonoridades continuam vivendo dentro da gente.

Durante nossa conversa, Seu Sebastião me contou algo simples, mas profundamente simbólico.

Antigamente, as cordas da viola de cocho eram produzidas com tripa de macaco. Hoje isso não é mais permitido, numa mudança importante e necessária dentro da compreensão ambiental do nosso tempo. Foi preciso adaptar e agora são usadas cordas de nylon.

Então ele me disse:

“O som mudou, mas eu continuo fabricando as violas.”

A frase ficou comigo desde então.

Porque essa frase fala sobre transformação, mas também sobre permanência.

O tempo muda. As leis mudam. Os materiais mudam. Mas a expressão cultural continua buscando caminhos para sobreviver.

Recentemente, ao publicar aqui na coluna o artigo “O que a gente mantém sem perceber”, recebi uma mensagem pública do músico e compositor sul-mato-grossense Gilson Espíndola que dizia:

“Cultura é aquilo que nos convida ao pertencimento. E quando nós enxergamos, nas manifestações culturais, nos damos valor. Por isso a necessidade do artista ter a possibilidade de mostrar sua arte para a região onde mora. Porque ele conta, pra nós mesmos, quem somos.”

Talvez esteja aí uma das funções mais importantes da arte.

O artista ajuda uma sociedade a se reconhecer.

Ele observa aquilo que muitas vezes passa despercebido: o ritmo da fala, a paisagem, os silêncios, os sotaques, as permanências, os afetos, a memória.

Depois transforma tudo isso em música, fotografia, literatura, teatro, dança, cinema ou artesanato.

O artista não produz apenas entretenimento.

Ele traduz territórios.

E eu acredito que seja justamente por isso que determinadas manifestações culturais precisem ser protegidas com tanto cuidado.

Porque festivais grandes também correm o risco de olhar apenas para aquilo que já chega pronto dos grandes centros culturais do país, enquanto expressões profundamente ligadas ao território acabam ocupando espaços secundários e em alguns casos são até invisibilizados.

Num estado jovem como Mato Grosso do Sul, que ainda caminha em direção aos seus 50 anos, isso se torna ainda mais importante.

O cururueiro. A viola de cocho. O siriri. O cururu. Os cantadores populares. Os músicos de fronteira. Os artistas que transformam rios, estradas, poeira, fazendas, Pantanal e memória em linguagem por meio do fazer artístico.

Tudo isso ajuda a construir a identidade simbólica de um povo.

E é assim que certas manifestações culturais emocionem tanto.

Porque elas não falam apenas sobre arte.

Falam sobre permanência.

Sobre aquilo que continua vivendo dentro da gente, mesmo quando quase tudo ao redor insiste em mudar.

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SÉRGIO CARVALHO

Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.

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