22/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

Tem banana suficiente para nós todos, meu amor

Publicado em 03/10/2014 12:00 - Cristina Livramento

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“Apesar de tudo a que têm sido submetidos, os negros são, na maioria das vezes, um povo bastante agradável. Eu realmente tenho pouco a ver com eles, pois só me misturo com meus iguais ou com ninguém, e, como não tenho iguais, não me misturo com ninguém.” Ignatius Reilly em Uma Confraria de Tolos de John Kennedy Toole.

Ser ofendido pelo fato de ser negro não é nenhuma novidade. O xingamento da gremista Patricia Moreira ao jogador Aranha, do Santos, durante o jogo do dia 28 de agosto, faz parte da vida de muitos brasileiros. A diferença talvez esteja em como a gente reaja às agressões, piadas, insinuações. A pergunta que me faço sempre é se o nível de importância a que damos ao fato não retroalimenta o preconceito.

Patricia disse, durante diversas entrevistas, que agiu levada pelo momento e que nunca pensou que estaria ofendendo o jogador. Diversas imagens comprovam que a gremista não foi a única a xingar Aranha de “macaco” e nem é a primeira vez que assistimos cenas explícitas de preconceito em uma transmissão ao vivo.

Em diferentes grupos sociais, seja no trabalho ou na escola, no clube ou na igreja, o preconceito contra o negro é algo ainda pulsante em nossa sociedade. A coerência do discurso “eu não tenho preconceito contra negro” é, quase sempre, equivalente ao discurso da caridade. Quanta gente não separa sacolão, caixas de brinquedo para doar para os miseráveis da favela, mas é incapaz de dar bom dia para o vigia do prédio?

O discurso da igualdade é uma coisa linda que sai da boca de quem mostra os dentes em um sorriso brilhante de propaganda de creme dental. Na prática, o lance é outro. Temos preconceito sim com o negro, com o gordo, o deficiente e por aí vai, basta ser diferente.

Sei o que isso significa há muito tempo e nem precisei sair de casa para perceber que minha cor era ruim, feia e suja. E eu nem sou negra! Sinceramente, hoje em dia, nem tento mais entender o que passa pela cabeça dessas pessoas. De vez em quando aparece uma “branquela” pra sugerir que eu faça chapinha no meu cabelo só para “variar” e têm os doidos de pedra como uma professora aposentada, muito atuante na igreja do bairro, que me chamou de “negrona fedorenta” durante uma típica discussão familiar, em Porto Alegre (RS). Faz parte.

Em pleno século XXI, sequer conseguimos respeitar a religião afro. Levantar a mão e dizer que é da Umbanda, do Candomblé ou do Batuque é ainda um ato que implica segregação e, mesmo assim, em qualquer lugar deste Brasil, socialites, políticos e celebridades “batem cabeça” às escondidas e, no domingo, estão na igreja beijando a mão do padre. Temos vergonha sim e uma barreira gigantesca com a cultura negra.

O discurso da igualdade é uma coisa linda que sai da boca de quem mostra os dentes em um sorriso brilhante de propaganda de creme dental. Na prática, o lance é outro.

A Lei Áurea, apesar de ter 126 anos, é um fato recente em nossa história. Somos ainda muito crianças para cobrarmos uma atitude de maturidade da nossa sociedade não porque nos falte informação, mas porque ainda não aprendemos a pensar como coletivo. Apesar de tudo o que já sabemos sobre nossos antepassados, gostamos de permanecer no estado de ignorância. É um lugar quentinho e aconchegante.

Não quero justificar nossa estupidez como sociedade, mas de fato levamos muito tempo para evoluir como cidadão, por exemplo. Ser homem pensante exige muito mais do que ter acesso à informação, exige vivência e reflexão.

Uma sociedade que ainda precisa de bandeiras e faixas para lutar pelo direito das “minorias” – seja ela qual for – está muito distante do que poderíamos chamar de “exercício da cidadania”. Quando conseguirmos alcançar o patamar de gente grande, a característica mais marcante será o pensamento individual – “para ser bom para mim precisa ser bom para todos, sem nenhuma distinção”.

Links relacionados

Ao mestre com carinho (1967), de James Clavell

Histórias Cruzadas (2011), de Tate Taylor

Olhos azuis (1996), sobre a professora e socióloga Jane Elliott e seu exercício de discriminação aplicado em salas de aula e workshops

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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