19/05/2024 - Edição 540

True Colors

Se seu filho brinca com bonecas, pode ser uma fase. Mas pode também não ser

Publicado em 27/08/2015 12:00 - Guilherme Cavalcante

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Criar filhos se tornou uma espécie de arte, um campo de estudo dividido em teoria e prática em plena ebulição. A cada dia, um novo aprendizado, que resulta em estantes repletas de ensinamentos, assinados por especialistas renomados. E com essas lições, vem a certeza de que as pessoas nascidas entre 20 e 30 anos atrás foram educadas de uma forma completamente obsoleta para os dias atuais.

Mas uma coisa ainda está emperrada, isso desde muito antes de eu nascer, que é a dificuldade de lidar com a sexualidade e a identidade de gênero dos filhos que insistem em fugir da norma. Até já conseguimos observar a tolerância e o acolhimento nos lares para jovens adolescentes, convictos de suas realidade, capazes de articular com profundidade os argumentos que embasam suas certezas. Mas nos primeiros estágios da infância, a nota tocada fora do tom é vista pelos pais como apenas… Uma fase.

Um fase. De forma geral, o jeito moderno de lidar com as adversidades é considerá-la uma fase. Um menino que gosta de boneca vive um fase. A menina que gosta de carrinhos também vive uma fase. Ou ainda: carrinhos e bonecas são apenas brinquedos, não dá para dizer que com base nessas escolhas as crianças serão X ou Y.

Realmente, pode ser uma fase. Ou talvez o menino realmente goste de brincar com bonecas e isso não queira dizer muita coisa sobre a sexualidade dele. Mas pode dizer, também. Aliás, o que mais se observa é justamente isto: se seu filho gosta de boneca, é bem possível, estatisticamente falando, que ele seja bicha, sim.

Isso porque ainda não temos ações (discussões, debates, políticas etc) contundentes na perspectiva de promover a neutralidade dos papeis de gênero e de sexualidade, ensinados desde quando nascemos e reforçados pelos brinquedos, a priori. Ainda estamos muito distantes dessa nova realidade (que uma hora vai acontecer, mais não agora).

Assim, dizer que é só uma fase ou que o carrinho é apenas um brinquedo não vai mudar os fatos de que, sim, você pode ter que lidar com uma nova realidade para o filho que você teve, uma realidade na qual preconceito, discriminação e violências existem de forma direcionada, enfática e frequente.

O brinquedo, a expressão, os gostos, tudo isso pode ser indícios de que seu filho precisará de você mais do que você imagina. Reprimir ou encontrar desculpas são uma forma de se acovardar diante do papel não desempenhado, que é saber lidar com a sexualidades e identidades de gênero dos filhos fora da "norma padrão". Portanto, ao menor sinal ou indício de que as coisas não sairão como planejado, digamos assim, pode ser o caso dos pais procurarem orientação para educar a prole com acolhimento, respeito, na perspectiva de um crescimento saudável.

E dá super certo. Prova disso é o vídeo que há alguns dias já está rolando na Internet. Mikki Willis é pai de duas crianças e um deles fez aniversário. Ele acabou escolhendo uma boneca em vez de um brinquedo mais "masculino". E por meio de um vídeo, Willis mostrou ao mundo como deve agir um pai realmente preocupado e conectado com as necessidades do filho. Confira no vídeo abaixo e aproveite para admirar um pouco esse paizão, porque, né?

Ah, em tempo: já tratei de assuntos com pontos afins com a coluna desta edição em outros momentos, os quais você pode conferir logo abaixo:

Shiloh Jolie-Pitt – E porque temos que aprender a lidar com a transexualidade.

É de menino ou de menina?

Leia outros artigos da coluna: True Colors

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *