19/05/2024 - Edição 540

Camaleoa

Rolezinho, periferia e ordem

Publicado em 30/01/2014 12:00 - Cristina Livramento

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“Mais ainda, a ruindade faz parte do ser do eu, tanto em mim quanto em vocês no odinóque, e este eu é feito por Bog, ou Deus e é o seu grande orgulho e radóste. Mas o não-ser não pode aceitar o mal, quer dizer, os do governo, os juízes e os colégios não podem permitir o mal porque não podem permitir a individualidade. E não é a nossa História moderna, meus irmãos, a história de bravas individualidades malenques lutando contra essas máquinas enormes?” Anthony Burgess em Laranja Mecânica

Não há dúvida de que o fim de semana tá aí e os mano vão se reunir nos altos da Afonso Pena, pegar o busão na vila, dar um rolê na vila, se pah colar na mina quando descer no ponto do shopping pra mais um novo rolê pelo parque. Só os irmãos, na fita, os maluco pronto pra mais uma cena. É o fim de mais um corre porque tem nego que trampa duro, rala pra caramba a semana inteira e o rolê com os parceiro é o grande momento.

Tá aí a linguagem da rua, do adolescente, do cara da vila e até do carinha do colégio – de playboy – que curte chegah junto e ficah de boa só pelo rolê e pela diversão, se é que você me entende. Energia de adolescente é um absinto que todo pai e mãe deveria experimentar em toda sua extensão. A gurizada quer contar história, rir, falar besteira, azarar pra valer e desfilar aquele estilo descolado pela avenida, na Orla Morena, no shopping center. Só pela patifaria.

Energia de adolescente é um absinto que todo pai e mãe deveria experimentar em toda sua extensão.

Minha filha diz que quem deu ideia do rolê foi o vlogueiro PC Siqueira, mas que a coisa toda tomou uma dimesão diferente e virou o que virou. O que era pra ser um encontro virou treta com a poliça de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Xanadu e Cocanha. Terra de ninguém, os coxinha dizem que não tem mais segurança que precisa mais de polícia, que a última moda é vidro Blindex, carro blindado, mente blindada, e que a cerca elétrica continua em alta, mas sempre vale um cachorro bem treinado e violento que não perdoa bandido vacilão.

O problema da burguesia é achar que dinheiro compra paz, compra sossego e segurança. A vila tá abandonada, as criança tão sem pai nem mãe, cresce pela rua, aprendendo a fazer justiça nos osso da mão. Um guri, de Porto Alegre, uma vez me disse se eu não bater quem apanha sou eu. Ele apanha até aprender a bater pra valer pra – um dia – conseguir sair de casa no respeito, sem levar sova dos mano. Até aí o cara já correu da polícia, tá correndo atrás da mãe que muitas vezes nem nunca viu, sufocado em hormônios e (des)ilusões.

Na vila tem que ter marra pra sobreviver porque é a lei da selva, do mais forte, de quem grita mais alto. Quando cai pra cidade, a marra não serve pra nada, só pra correr da polícia que aperta os cara sempre quando a coisa foge do controle. Sempre sobra pro marrento, cheio da ginga, com aquela calça escorregando pelo quadril e aquele maldito boné que deixa qualquer tiozinho nervoso, os da farda com sangue nos óio e as novinha, ah é!, as novinha bem que curte a patifaria.

Na Orla Morena, de longe você vê a ação. Desliza rampa, impulsiona o corpo, enxuga suor, acena pro amigo do outro lado da rua, dá um empurrão no vacilão que entrou na frente de propósito. A etiqueta da rua. Do mesmo jeito que eu e você sorrimos blasé para nossos (falsos) amigos. Não tem distinção, na selva do marginal ou na selva do coxinha, todo mundo dá seus esbarrão. Vai na fé, irmão.

Todo mundo diz o que você tem que ser, como você tem que pensar, o que precisa vestir pra parecer legal, pra ser amado e pagar de bacana pra geral, mas os mano não tão nem aí porque isso é pensamento pequeno, o barato é ser original (mesmo que andem em bando vestindo tudo igual). É passageiro, papai e mamãe, adolescência é só uma fase, não é a eternidade. Só não vale dar letrinha, professor falando em sala de aula que jardineiro não é gente, que ser pedreiro é coisa de perdedor, tu quer ser dotô pagah caro no carro zero do ano ou qué misturah cimento?

– Na boa, prófi, frau tudo isso aí que tu disse.

Se liga na fita, jardineiro, pedreiro, zelador também é gente e não é o canudo que faz caráter, não adianta falar alto, apontar o dedo na cara da molecada. Olha no olho, papo reto, a vida é dura, a vida ensina, não é teu desprezo que vai fazer diferença, se nem o teu canudo foi capaz de te dar educação. Se liga, lôko, a gurizada não tem MBA, nem pós-graduação, não lê New York Times, nem Spiegel, mas saca na hora quando é tratada feito trapo e sabe muito bem como não deixah barato.

O guri de skate, revistado pela polícia, na entrada do shopping, diz cada um na sua, os cara só tão fazendo o trabalho deles e que não tem ninguém ali diferente, são os mesmos parceiro de sempre, de todo fim de semana. “Os cara daqui não tem moral pra fazer rolê, aqui não é São Paulo.” O outro me diz, “nem sei pra quê serve” e se der b.o “é só sair de perto”. Quem não quer correria, contrariah os da farda, vaza.

– Tira fora esses piercing, moleque, vai lavar essa tatuagem da tua pele com creolina. Vira gente, marginal!

Cada um tem sua cor de pele, seu próprio fedô, uns não fazem questão de esconder, outros usam perfume francês. “Tá de boa” é não julgar o diferente, não achar que os mano da periferia tem que ficar lá na vila onde é o lugar deles, como se o shopping fosse uma espécie de bonde só dos modernete, tipo capa de revista. Pra entrar em shopping não precisa carimbo VIP.

Da vila desce os mano, desce a patrola misturada, zé ruela, bandidinho, marginal, pixador, gente descoladinha, a vovó e o vovô. O skatista, com seus quase 20 anos, vem do Indubrasil todo sábado e domingo pra dá rolê nos altos da Afonso Pena. Ele e seus outros dez amigos, com suas mochilas e seus skates, poderiam se jogar na pista da Vila Nha Nhá, da Vila Almeida, do Jardim Itamaracá e curtir um som, a lua, a amizade dos parceiro. – Sereno!

Mas não tem nada disso, nem pelos bairros, muito menos na periferia.

Paulinho do Radinho, tava no shopping tomando café e lendo um jornal quando o corre aconteceu. “O rolezinho foi uma negação, a gente tinha que tá discutindo cidadania.” A cidade está abandonada, me diz Paulo. “Pego remédio no posto há 20 anos e essa semana gastei 82 reais na farmácia porque não tem no posto.” Negação, negação, negação.

O cientista político diz que o Brasil não valoriza a educação por conta de uma tradição católica que privilegia a elite. Quem tem dinheiro prefere pagar porque o problema não é meu, cada um que cuide do seu. – Pode crê! Tá cheio de gente com grana, vestido de bacana sentado na cadeira do Procon, apelando pra ONU, FBI pra fazer o investimento valer. No momento da dor aguda, do pus, do sangue que nunca estanca – sinto muito, minha senhora, mas isso o teu plano não cobre.

Meu amigo poliça diz que sou inocente, que não vi nada do que a bandidagem é capaz de fazer, que o único jeito é descer a borracha. Até saiu na imprensa, soldado diz que se rolar patifaria vai descer o cacetete na molecada. “Inferninho pra eles.” Apanha em casa, apanha na rua, apanha pra virar profissional. Do crime. Inferninho pra geral.

Meu amigo poliça diz que sou inocente, que não vi nada do que a bandidagem é capaz de fazer, que o único jeito é descer a borracha.

A escola não foi feita pra educar, a família tá falida, vale engolir o choro e encarar o dragão ou se juntar a legião. Quem pode posta foto da bebedeira do fim de semana no instagram que acaba na minha mão virando notícia de polícia. Quem não tem wi-fi no smartphone, dá o confere no tambor porque já perdeu tudo o que tinha pra perder, a fé inclusive, se morrer, tá valendo, irmão. – É o destino, já deu a minha hora.

Chega desse papo, quem tá com o demônio no corpo é outro papo. Eu tô pedindo mais atenção, meu irmão, a juventude quer respirar fundo, gritar aos quatro ventos, sob o sol de Campo Grande, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Xanadu ou Cocanha, ser tratada feito gente. Andar pela rua e não ser confundido com nenhum perdedor porque viver é aprender com os próprios erros.

Aquele cara deslizando sobre rodinhas, da manobra maneira no programa de tevê, de medalha no peito, caiu várias vezes. Ele sabe o significado e o valor da dor e do tombo. Aprendeu que cair faz parte e que a poesia brota da persistência. Uma jabuticabeira nunca vai dar limão.

Tem sol, magrão, fim de semana tá aí, a gente se vê.

Só pela patifaria. Porque é bom pensar na comunidade reunida.

Laranja Mecânica (p.s.: leia o livro)

PC Siqueira e rolezinho

Carlos Alberto Almeida, cientista político

Literatura e cinema

Querô, uma reportagem maldita (1976). Plínio Marcos

Kes (1969). David Bradley

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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