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Território Cultural

Campo Grande e a casa que ainda falta à arte

Assim como nós, humanos, a arte também precisa de abrigo

Publicado em 29/05/2026 1:27 - Sérgio Carvalho

Divulgação Semana On - IA

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Assim como nós, humanos, a arte também precisa de abrigo.

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Precisa de lugares onde possa repousar sem se dispersar. Precisa de paredes, silêncio, luz, acústica. Precisa de memória e cuidado. Tem necessidade de casas onde a criação não seja apenas passagem, evento ou improviso, mas seja permanência.

Por isso as sociedades criaram historicamente museus, galerias, casas de exposição, salas de concerto, escolas de dança, centros culturais e teatros. Cada uma dessas edificações nasce de uma intuição civilizatória muito antiga: a de que a arte precisa ser protegida para continuar nos protegendo. E isso filosófico e profundo.

Nesse conjunto de abrigos simbólicos, o teatro ocupa um lugar muito especial.

Porque o teatro é uma das casas mais completas da manifestação artística humana.

Ali, o corpo comparece inteiro. A voz, o gesto e a respiração pulsam. O silêncio, o olhar, a escuta, a memória, o medo, o riso e a lágrima nos tornam mais humanos. A música, a luz, o espaço e o tempo se organizam diante de uma plateia viva. Diferente de outras linguagens, o teatro exige do ser humano quase todos os seus mecanismos de expressão e percepção.

O ator oferece o corpo.

A plateia oferece presença. Juntos existe emoção.

E entre um e outro se forma esse pacto antigo que permanece há séculos: alguém se coloca diante de outros para representar a vida, e outros aceitam permanecer ali, em silêncio, para reconhecer alguma coisa de si mesmos.

É por isso que o prédio teatral nunca é apenas um prédio.

Ele é abrigo, casa, endereço e rito.

E talvez valha uma pergunta simples pra você que lê este artigo:

Quando você pensa em arte e pensa em Campo Grande, onde imagina que deveria existir um grande teatro municipal?

Em qual ponto da cidade ele você acredita que ele faria sentido?

Próximo aos parques? Ou dentro de um dos parques da cidade? Integrado à região central? Próximo às universidades? Conectado aos corredores culturais?

Porque quando uma cidade constrói um teatro, ela também decide simbolicamente onde deseja colocar a arte dentro da vida urbana.

Quando uma cidade não possui um grande teatro, não lhe falta apenas uma construção. Falta a esta cidade também um espaço simbólico capaz de dizer que determinadas experiências humanas merecem proteção, permanência e escala pública.

Campo Grande carrega hoje uma dessas ausências.

Não se trata da falta de artistas. Mato Grosso do Sul produziu e produz músicos excepcionais, atores, bailarinos, escritores, artistas plásticos e manifestações culturais que traçam caminho entre fronteiras. Também não se trata da ausência de público. O sul-mato-grossense frequenta festivais, ocupa feiras culturais, lota teatros quando há circulação de espetáculos e demonstra, há décadas, uma relação afetiva profunda com a música, com a dança e com a produção artística regional.

O que talvez exista é a ausência simbólica de um grande teatro municipal.

E quando falamos em grande teatro, não estamos falando apenas de um prédio monumental, com lustres, mármore ou arquitetura grandiosa. Estamos falando de um equipamento cultural capaz de posicionar uma cidade dentro de determinados circuitos artísticos nacionais e internacionais.

Hoje, Campo Grande possui dois importantes teatros públicos voltados às artes cênicas: o Teatro Aracy Balabanian e o Teatro Glauce Rocha. Ambos possuem relevância histórica, artística e afetiva para a cidade. O Glauce Rocha, inclusive, faz parte da memória de formação de muitos artistas sul-mato-grossenses.

Eu mesmo quando estava em formação como ator tenho lembranças pessoais daquele espaço desde o fim da década de 1980.

Recentemente, voltei ao Glauce Rocha para assistir ao monólogo “Prima Facie”, com Débora Falabella. Um espetáculo de quase duas horas de duração, sustentado praticamente pela força da interpretação, pela iluminação cênica, pelo desenho sonoro e pela atmosfera do palco italiano. Sim. Era possível observar que a luz poderia ser mais precisa. Mas sem dúvida eu estava diante da experiência artística que depende profundamente do ritual teatral.

E é possível que exatamente por isso o episódio ocorrido naquela noite tenha sido tão simbólico.

Nos primeiros vinte minutos de apresentação, o alarme de incêndio do teatro disparou abruptamente durante a sessão. Não parecia um alerta emergencial real, mas possivelmente um equipamento sem a devida manutenção ou estabilidade operacional.

O espetáculo foi interrompido emocionalmente.

A tensão tomou conta da sala por alguns instantes. O público perdeu a imersão e a atriz precisou sair de cena, esperar restabelecer o sistema e sustentar novamente a reconstrução daquele pacto silencioso que o teatro exige entre palco e plateia.

Ali ficou evidente algo importante: espaços culturais não são apenas paredes que recebem apresentações. Eles exigem manutenção técnica permanente, atualização estrutural e compreensão pública de que a experiência artística também depende da qualidade do equipamento cultural que a sustenta.

Mas é preciso dizer com honestidade: nenhum dos dois teatros hoje, em Campo Grande, foram concebidos estruturalmente para receber grandes produções internacionais como ópera, concertos sinfônicos de grande porte ou montagens cênicas com exigências técnicas mais complexas.

Isso interfere diretamente na vida cultural da cidade, sem dúvida.

Existe uma diferença importante entre possuir espaços de circulação artística e possuir um teatro com capacidade técnica, acústica, cenográfica e operacional para integrar determinados roteiros culturais.

Grandes companhias internacionais não escolhem uma cidade apenas pelo desejo abstrato de circulação cultural. Elas observam se há capacidade técnica de palco, acústica adequada, estrutura para orquestra, bastidores funcionais, camarins, equipamentos de luz e som, condições de montagem, logística operacional e viabilidade econômica para uma temporada.

Ou seja: o prédio interfere diretamente na possibilidade do encontro cultural acontecer. A arquitetura não é detalhe. Ela pode abrir ou fechar portas para que determinados espetáculos cheguem até uma cidade.

Historicamente, os grandes teatros do mundo nunca foram apenas espaços de espetáculo. Foram símbolos urbanos.

O Teatro Amazonas, em Manaus, representou o desejo amazônico de pertencimento ao circuito cultural internacional durante o ciclo da borracha.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro integrou o projeto de modernização da antiga capital federal.

O Theatro Municipal de São Paulo tornou-se palco da Semana de Arte Moderna de 1922, alterando definitivamente os rumos da arte brasileira.

Em todos esses casos, o teatro ultrapassou a função de palco.

Ele se transformou em afirmação de cidade.

A pergunta importante para Campo Grande talvez não seja simplesmente:

“Precisamos de um grande teatro?”

A pergunta é:

“Que lugar cultural desejamos ocupar nas próximas décadas?”

Porque um grande teatro não beneficia apenas artistas nem se limita ao entretenimento. Uma casa teatral estruturada gera trabalho, cria empregos, movimenta técnicos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, músicos, produtores, professores, estudantes, fornecedores e profissionais da economia criativa. E mais, um teatro com essa capacidade funciona como instrumento de formação continuadaa em diferentes áreas e vai além. Entorno do teatro também se alcança a hotelaria, a gastronomia, o turismo, a circulação universitária, o intercâmbio cultural e a formação artística.

Um teatro devolve à sociedade mais do que uma programação de espetáculos. Ele pode formar público, estimular vocações, qualificar profissionais, ampliar repertórios e criar uma relação mais madura entre a cidade e sua própria produção cultural.

E aqui surge outra pergunta importante.

Quantas pessoas em Campo Grande já desejaram estudar teatro, ballet, música, iluminação, cenografia, canto lírico ou formação técnica ligada às artes, mas nunca encontraram estrutura continuada para isso?

Porque um grande teatro não serve apenas para receber espetáculos prontos.

Ele também pode ser espaço permanente de pesquisa, ensaio, formação e desenvolvimento humano.

Companhias clássicas de música, dança e teatro poderiam desenvolver residências, oficinas, intercâmbios e processos pedagógicos dentro de uma estrutura física do teatro preparada para isso.

Isso é um sonho distante?

Ou estamos apenas começando uma conversa que cidades amadurecidas culturalmente acabam fazendo em algum momento da própria história?

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas profundamente importante.

Os teatros são lugares de convivência simbólica.

São espaços onde desconhecidos silenciam juntos diante da arte. Como o que vivi recentemente no Glauce Rocha. Onde jovens podem ter o primeiro contato com uma orquestra sinfônica. Onde crianças descobrem o encantamento da cena. Onde uma cidade aprende a ocupar coletivamente experiências de beleza, reflexão e sensibilidade.

Cidades que investem fortemente em cultura raramente enxergam grandes equipamentos culturais apenas como gasto.

Elas entendem esses espaços como infraestrutura civilizatória.

E não se trata aqui de defender um projeto fantasioso, distante da realidade econômica ou desconectado das urgências sociais.

Ao contrário.

Justamente por amadurecer como capital regional, Campo Grande precisa começar a discutir seriamente qual é o papel da cultura dentro do seu planejamento urbano de futuro. Logo, logo, a cidade será a primeira capital do Brasil conectada mais rapidamente aos países asiáticos, por meio do corredor bioceânico.

A cidade cresceu.

O Estado amadureceu.

A produção artística sul-mato-grossense também amadureceu.

Mas a infraestrutura cultural de grande porte ainda parece pequena diante da dimensão simbólica que Campo Grande alcançou.

É curioso perceber que, em muitos momentos, cidades investem primeiro em estruturas voltadas ao consumo e somente depois refletem sobre os espaços destinados à experiência coletiva da cultura.

Um grande teatro municipal não resolveria sozinho os desafios culturais da capital.

Mas poderia representar algo importante: um gesto público de reconhecimento de que arte, cultura e convivência humana também são parte do desenvolvimento.

E talvez exista algo ainda mais profundo nisso tudo.

Toda cidade constrói monumentos que revelam aquilo que considera importante deixar para o futuro.

Algumas constroem viadutos.
Outras constroem centros comerciais.
Outras erguem arenas esportivas.

Mas existem cidades que decidem construir espaços onde as pessoas possam aprender, sentir, imaginar e compartilhar experiências humanas através da arte.

E talvez exista um receio silencioso nesse debate.

O medo de parecer sonhador demais.

O medo de que defender cultura em larga escala seja interpretado como excesso, luxo ou distanciamento da realidade.

Mas será mesmo?

Discutir um teatro municipal é ingenuidade?

Ou é justamente reconhecer que desenvolvimento urbano também envolve formação humana, acesso à arte, criação de memória coletiva e amadurecimento cultural?

Porque em algum momento toda cidade precisa decidir o que considera essencial para o futuro que deseja construir.

O debate sobre um grande teatro municipal em Campo Grande não é apenas um debate sobre concreto.

É também um debate sobre qual memória cultural queremos deixar para as próximas gerações.

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SÉRGIO CARVALHO

Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.

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