20/05/2024 - Edição 540

Camaleoa

Praia do Futuro tem gosto de coragem

Publicado em 06/06/2014 12:00 - Cristina Livramento

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“(…) porque tem dois tipos de medo e de coragem. O meu é de quem finge de que nada é perigoso, o seu é de quem sabe de que tudo é perigoso nesse mar imenso.” Aquaman em Praia do Futuro

 

Semana passada, em volta de uma mesa de posto de combustíveis, em pleno sol do meio-dia, conversei com desconhecidos sobre os caminhos que resolvemos tomar na vida. O homem com mais de 50 anos, dizia que “cada um faz seu próprio caminho” e que, quando a gente atropela a rotatória, às vezes, a vida dá chance de “fazer o retorno”.

A vida é generosa com todos nós, mas para alcançarmos a plenitude, sentirmos o gosto da quintessência do existir, é preciso ter coragem. E é sobre isso que fala o filme Praia do Futuro, que entrou em cartaz nesta quinta-feira (5), no Cinépolis, em Campo Grande.

Muito mais do que qualquer outra polêmica que já tenha sido dita e registrada pela imprensa, Praia do Futuro fala a todos nós sobre nossa covardia e o nosso medo de encarar quem nós somos e nossos próprios sonhos.

As várias vezes em que o personagem de Wagner Moura, o bombeiro salva-vidas Donato, aparece dançando em uma boate em Berlim é sobre essa libertação. O encontro pessoal e intransferível de Donato com ele mesmo. O homem refém do medo do desconhecido, preso às falsas desculpas que sempre damos para nós mesmos para darmos um passo a frente, em processo de libertação em terra estrangeira.

Donato é o super-herói Aquaman para o irmão mais novo, Ayrton, personagem do ator Jesuíta Barbosa, e que se maravilha diariamente com o sol e o mar da Praia do Futuro, no Ceará. Ele vive para o irmão, para a mãe e as irmãs. Mas a vida, essa grande sacana selvagem, coloca à sua frente o alemão, Konrad, personagem do ator Clemens Schick.

É Konrad e todo o sentimento que esse encontro proporciona que move Donato para frente. Apesar de todos seus questionamentos, o bombeiro brasileiro se vê em terra estrangeira superando a covardia e o medo de tempos em tempos. Não sei o que é pior (ou melhor), se a opção de nunca se arriscar ou de acumular cicatrizes. Eu sempre quero saber o que está logo ali, virando a esquina. É uma curiosidade quase incontrolável. Em ambos os casos, há um preço a se pagar. Em ambos os casos, é preciso ter consciência sobre os riscos, do caminho escolhido e coragem para enfrentar as consequências dessa escolha.

A compreensão dessa coisa toda é tão bela que só consigo ver traduzida no momento em que Donato dança de olhos fechados dentro da boate. No momento em que ele e Konrad dançam juntos, de braços para o alto, se abraçando, rindo, celebrando a vida. Isso não tem outro nome senão amor. Amor entre seres humanos, amor pela própria vida em si. O verdadeiro ato de existir, de se deixar ser tomado por esse imenso e interminável caos poético que é o viver.

Atenção à parte final do filme, com a carta de Donato para o irmão, Ayrton. É pura generosidade do diretor Karim Aïnouz para conosco, telespectadores. Aproveitem!

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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