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Ágora Digital

Parece nazista, soa como nazista, cheira como nazista…

Gesto de Musk é um reflexo de uma sociedade cada vez mais permissiva com o totalitarismo

Publicado em 22/01/2025 11:50 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Photoshop

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Quando Elon Musk, um dos homens mais ricos e influentes do planeta, realiza um gesto que remete à saudação nazista, as consequências transcendem a esfera individual. Trata-se de um ato que, independentemente de sua intenção declarada, opera como um “apito de cachorro” para grupos extremistas, enviando uma mensagem clara a supremacistas brancos, neonazistas e ultradireitistas. É aqui que reside o verdadeiro perigo: na banalização do extremismo e no fortalecimento de narrativas que corroem os alicerces da democracia.

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A questão que se coloca não é apenas se Musk sabia o que estava fazendo — o que, dada sua inteligência e histórico, parece evidente —, mas como seu gesto, sua reação e o contexto em que se insere colaboram para a normalização de símbolos e comportamentos associados ao ódio e à violência política. E, ao contrário do que ele sugere ao minimizar as críticas como “truques sujos”, esses sinais têm um peso histórico e simbólico profundo, que precisa ser analisado com seriedade.

Símbolos são o coração das culturas políticas. Eles carregam significados que transcendem o tempo e o espaço, mobilizando emoções e moldando comportamentos. A saudação nazista é um exemplo paradigmático desse poder simbólico. Embora tenha origem na Roma Antiga, foi ressignificada pelo nazismo como um instrumento de culto ao Führer, encarnando a lealdade absoluta a um regime responsável por atrocidades que redefiniram o conceito de mal na era moderna, entre elas o genocídio de seis milhões de judeus, 3,3 milhões de prisioneiros soviéticos, quase 2 milhões de poloneses, 500 mil ciganos, 300 mil deficientes físicos, milhares de homossexuais e negros.

Como explicou Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, o mal se torna perigoso quando se banaliza, se infiltra no cotidiano e se apresenta como algo normal. O gesto de Musk, em um evento de apoio ao governo de extrema direita de Donald Trump, insere-se precisamente nesse processo. Mesmo que não fosse intencional, o contexto político e social em que ocorreu confere a ele uma leitura inevitável: um aceno simbólico à radicalização.

Além disso, Musk já demonstrou simpatia por ideais nazistas ao expressar seu apoio ao partido Alternativa para a Alemanha (AfD), conhecido por sua retórica xenófoba e conexões com o neonazismo. Ao participar de uma live com Alice Weidel, líder do AfD, Musk reiterou sua afinidade com o revisionismo histórico, ecoando falsidades como a alegação de que o nazismo seria uma ideologia de esquerda — uma tese amplamente refutada por especialistas, como Ian Kershaw, um dos maiores historiadores do nazismo.

O conceito de “apito de cachorro” é central para entender o impacto do gesto de Musk. Esses sinais codificados são projetados para atingir grupos específicos, permitindo que extremistas interpretem a mensagem como um apoio velado enquanto o autor mantém uma negação plausível. Musk, com sua habilidade comunicativa e influência global, está ciente desse mecanismo.

Psicologicamente, esses gestos ativam um senso de validação nos grupos radicais. Como explica o psicólogo social Jonathan Haidt, a extrema direita frequentemente constrói sua identidade coletiva em torno de símbolos e narrativas de resistência contra uma suposta ameaça existencial. Ao utilizar ou se associar a gestos como esse, Musk reforça a crença de que suas ideias e práticas são legitimadas por figuras de autoridade.

A comemoração do gesto por grupos como Proud Boys, White Lives Matter e canais neonazistas no Telegram não foi uma coincidência, mas uma resposta direta à mensagem percebida. “Obrigado por nos ouvir”, escreveu um grupo supremacista. Isso revela a eficácia desse tipo de sinal na mobilização de extremistas e na ampliação de suas redes de influência.

A normalização do extremismo não ocorre de maneira repentina. É um processo gradual que depende da permissividade de figuras públicas e instituições. Como alertou Timothy Snyder em Sobre a Tirania, “o autoritarismo se instala quando os guardiões da democracia falham em resistir às pequenas transgressões”. A reação desdenhosa de Musk às críticas é emblemática dessa falha. Ao recusar-se a reconhecer a gravidade do gesto ou a oferecer um pedido de desculpas, ele não apenas protege sua reputação, mas também enfraquece os esforços globais para combater o extremismo.

Essa dinâmica tem paralelos históricos. No início do regime nazista, muitos na Alemanha descartaram as ameaças de Hitler como exageradas ou transitórias. Essa complacência permitiu que o totalitarismo florescesse. Hoje, figuras como Musk desempenham um papel semelhante ao banalizar gestos e narrativas que sustentam o extremismo contemporâneo.

No Brasil, vimos algo semelhante com Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro, que foi condenado por um gesto associado ao supremacismo branco durante uma sessão no Senado. Como no caso de Musk, a negação posterior não anulou o impacto do gesto, que serviu como um chamado à mobilização para grupos radicais.

O impacto de atos como o de Musk vai além do momento em que ocorrem. Eles corroem as normas democráticas ao abrir espaço para a radicalização e a intolerância. Como argumentou o filósofo Jürgen Habermas, a democracia depende de uma esfera pública onde o debate seja guiado pela racionalidade e pela inclusão. Quando figuras públicas utilizam gestos ou narrativas que remetem a ideologias autoritárias, comprometem essa esfera e ameaçam o tecido democrático.

Nos Estados Unidos, onde a liberdade de expressão é amplamente protegida, a dificuldade em lidar com gestos simbólicos como o de Musk é evidente. Entretanto, a Alemanha, com suas rigorosas leis contra a saudação nazista, oferece um contraste interessante. A proibição desses símbolos reflete uma sociedade que aprendeu com os horrores do passado e que reconhece que certos limites à liberdade de expressão são necessários para proteger a democracia.

Elon Musk, como figura central no cenário político e econômico global, carrega uma responsabilidade proporcional ao seu poder. Suas ações não podem ser analisadas isoladamente, mas dentro de um contexto histórico, político e simbólico que exige vigilância e resistência.

O gesto realizado por Musk é mais do que um movimento desajeitado; é um reflexo de uma sociedade cada vez mais permissiva com o autoritarismo. Ignorá-lo ou minimizá-lo é abrir mão da luta por uma democracia plural e inclusiva. Como disse Martin Luther King Jr., “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. Gestos como o de Musk são uma forma insidiosa de injustiça, que precisa ser confrontada com coragem e determinação.

No fim, o que está em jogo não é apenas a reputação de um bilionário, mas os próprios valores que sustentam as sociedades democráticas. E, para protegê-los, é preciso compreender que o mal nunca é banal quando deliberadamente ignorado.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Sob o império da mentira

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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2 respostas para “Parece nazista, soa como nazista, cheira como nazista…”

  1. Rodrigo Pereira Rodrigues disse:

    Matéria mentirosa e sem dúvidas tendenciosa, a esquerda fez gestos similares inúmeras vezes e o silêncio estarrecedor, Hillary Clinton, Barack Obama, Kamala Harris e outros fizeram gestos similares e NINGUÉM levantou essa polêmica, se ele beber um copo de leite de modo diferente é nazista ????
    A hipocrisia reina na mídia!

  2. Equipe Semana On disse:

    Olá. O artigo lida com fatos e análises históricas. Mas, cada um recebe como quer informação de qualidade. Boa leitura.

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