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Ágora Digital
O jornalista Victor Barone comenta a mordaça contra o padre Júlio Lancellotti
Publicado em 16/12/2025 6:05 - Victor Barone
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A decisão do cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, de determinar que o padre Júlio Lancellotti suspenda transmissões de missas e se afaste das redes sociais provoca mais do que perplexidade: expõe uma ferida antiga e mal cicatrizada da relação entre religião, poder e compromisso ético com os excluídos. Não se trata de um debate interno e menor da Igreja Católica. Trata-se de um episódio profundamente político, social e moral — ainda que travestido de “recolhimento” e “proteção”.
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Padre Júlio não é um sacerdote qualquer. Há mais de 40 anos na paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, tornou-se uma referência nacional e internacional no acolhimento à população em situação de rua. Coordena a Pastoral do Povo de Rua, um braço da própria Igreja cuja missão é explícita: cuidar de quem foi descartado por uma sociedade que prefere não ver — e, muitas vezes, criminalizar — a pobreza extrema. Quando o Estado falha, e ele falha reiteradamente em suas esferas municipal, estadual e federal, é o padre quem oferece comida, escuta, proteção e dignidade.
O ataque a Júlio Lancellotti não surge no vácuo. Ele é consequência direta de uma sociedade que se incomoda com quem revela suas contradições. Ao estender a mão a pessoas em situação de rua, o padre expõe a hipocrisia de um modelo urbano, econômico e político que naturaliza a exclusão. Zygmunt Bauman, em Vidas Desperdiçadas (2004), já nos alertava que o capitalismo contemporâneo produz “refugos humanos”, indivíduos considerados excedentes e, portanto, indesejáveis. Júlio não aceita essa lógica — e por isso incomoda.
A pergunta central permanece sem resposta: por que desligar da tomada justamente quem mantém a Igreja conectada à realidade concreta do sofrimento humano? Por que silenciar um sacerdote cuja prática está em plena consonância com o Evangelho? “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”, disse o papa Francisco.
É difícil ignorar o contexto político que cerca essa decisão. Setores conservadores — muitos deles abertamente alinhados à extrema direita — transformaram o trabalho social em suspeita ideológica. O fato de um deputado do PL de Minas Gerais ter articulado um abaixo-assinado pedindo o afastamento de Júlio Lancellotti junto ao Vaticano é sintomático. Mais inquietante ainda é a possibilidade de que tais pressões estejam sendo consideradas por instâncias da hierarquia eclesiástica.
A história oferece alertas claros sobre os riscos dessa escolha. O teólogo Leonardo Boff, em Igreja: carisma e poder, analisou como a institucionalização excessiva e o medo do conflito social frequentemente afastaram a Igreja de sua vocação. Já Max Weber lembrava que toda instituição corre o risco de substituir valores por conveniência, ética por administração. Quando isso acontece, o poder passa a falar mais alto que o amor ao próximo.
Do ponto de vista democrático, a decisão também é problemática. A liberdade de expressão é um pilar das sociedades abertas. Silenciar uma voz que denuncia a exclusão e humaniza os invisíveis não protege a Igreja — a enfraquece moralmente. Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, advertiu que a omissão diante da injustiça é uma forma de cumplicidade. O silêncio institucional, neste caso, não é neutro.
Se Jesus retornasse hoje, estaria entre os pobres, os rejeitados, os que dormem nas calçadas. “Eu estava com fome, e me destes de comer” não é uma metáfora abstrata; é um imperativo ético.
Setores do cristianismo, do catolicismo ao protestantismo, precisam decidir se querem ser uma força de acolhimento ou um instrumento de exclusão. Amar o próximo não é compatível com teses políticas que propagam ódio, criminalizam a pobreza e flertam com o autoritarismoenha. A Igreja que se afasta de quem protege os desprotegidos se afasta de sua própria razão de existir.
Dom Odilo Scherer ainda deve explicações claras à sociedade e aos fiéis. Se não o fizer, corre o risco de ser lembrado não como um pastor, mas como alguém que, diante da injustiça, escolheu o lado errado da história. Padre Júlio Lancellotti, ao contrário, já escolheu há décadas — e é por isso que incomoda tanto.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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