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Ágora Digital
O episódio do Pix alerta: Quando perdemos a capacidade de distinguir fato de ficção, decisões políticas passam a ser tomadas com base em ilusões e medo
Publicado em 15/01/2025 6:59 - Victor Barone
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Quando as redes sociais começaram a se popularizar no início dos anos 2000, muitos enxergaram nelas uma nova Ágora, um espaço público digital em que ideias seriam debatidas de forma civilizada, fomentando a democracia e a pluralidade. Surgiam ali as possibilidades de amplificar vozes historicamente marginalizadas, promover a diversidade de opiniões e expandir os horizontes culturais e políticos. No entanto, esse sonho utópico foi lentamente corroído por dinâmicas de poder e lucro que transformaram as plataformas em instrumentos de manipulação massiva e desinformação.
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No Brasil, a polêmica envolvendo a revogação de normas fiscais pela Receita Federal, em meio a uma avalanche de fake news sobre o Pix, é um exemplo cristalino dessa distopia. O episódio, alimentado por figuras como o deputado Nikolas Ferreira, o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro evidencia como as redes sociais se tornaram ferramentas de destruição da verdade, com consequências desastrosas para a democracia e a convivência social.
No início, redes como Facebook, Twitter e Instagram eram vistas como revolucionárias. Inspiravam-se na promessa de criar um espaço onde o cidadão comum pudesse não apenas compartilhar experiências, mas também dialogar sobre os grandes temas de seu tempo. A ideia de uma “democratização da comunicação” parecia finalmente ao alcance.
Esse cenário, contudo, sofreu uma guinada quando as grandes empresas de tecnologia perceberam o potencial lucrativo de seus modelos. À medida que os algoritmos passaram a priorizar engajamento a qualquer custo, a civilidade foi deixada de lado. Emoções extremas, como raiva e medo, são poderosos gatilhos comportamentais e foram habilmente explorados pelas plataformas para maximizar o tempo de uso e os lucros com publicidade. Como afirmou Shoshana Zuboff, em seu livro The Age of Surveillance Capitalism, “o objetivo das plataformas não é conectar pessoas, mas prever e influenciar comportamentos para lucrar com eles”.
Essa lógica transformou as redes sociais em ambientes polarizados e hostis, propícios para a propagação de desinformação. O exemplo do Pix ilustra como mensagens manipuladas, projetadas para gerar medo e pânico, circulam com uma velocidade assustadora, alimentadas por bolhas digitais onde a checagem dos fatos é inexistente. É nesse terreno fértil que discursos falsos, como o suposto “imposto sobre o Pix”, florescem.
O enfraquecimento da imprensa tradicional agravou ainda mais o problema. Antes das redes sociais, o jornalismo profissional atuava como mediador do debate público, com padrões editoriais que garantiam, em maior ou menor grau, a verificação dos fatos. Hoje, o jornalismo enfrenta uma crise estrutural provocada pela perda de receita publicitária para as big techs. Isso resultou no fechamento de redações e na precarização do trabalho jornalístico, abrindo espaço para a proliferação de conteúdos de baixa qualidade.
Esse vazio foi rapidamente preenchido por influenciadores digitais que, sem compromisso com a ética ou com a precisão, manipulam narrativas para atender interesses políticos e econômicos. O caso do Pix é emblemático: o deputado Nikolas Ferreira não só difundiu mentiras sobre um suposto imposto, como defendeu abertamente a sonegação fiscal, um crime que mina a própria estrutura do Estado. Tal discurso, amplificado por milhões de visualizações, contribuiu para criar um clima de pânico e desinformação que prejudica a sociedade como um todo.
A desinformação nas redes sociais não é um fenômeno trivial; é um ataque frontal à democracia. Quando grandes parcelas da população perdem a capacidade de distinguir fato de ficção, decisões políticas passam a ser tomadas com base em ilusões. O pânico gerado pelas fake news sobre o Pix levou comerciantes a cobrarem taxas indevidas e quadrilhas a aplicarem golpes, gerando prejuízos financeiros e desconfiança generalizada.
Além disso, a desinformação compromete o debate público, essencial para a construção de consensos democráticos. Como alertou Hannah Arendt, “o ideal de liberdade de pensamento exige um espaço onde as pessoas possam discordar sem medo”. No entanto, as redes sociais, ao privilegiarem o engajamento em detrimento da verdade, sufocam esse espaço, transformando divergências em batalhas ideológicas destrutivas.
A ascensão da pós-verdade, na qual as emoções e crenças pessoais têm mais peso do que os fatos objetivos, é uma engrenagem essencial no funcionamento das big techs e no colapso da verdade compartilhada. Como afirmou o filósofo Zygmunt Bauman, “vivemos em tempos líquidos, onde tudo muda tão rapidamente que as referências fixas se tornam obsoletas”. A pós-verdade não é apenas um reflexo dessa liquidez, mas uma arma utilizada para distorcer a percepção coletiva e minar as bases de uma democracia fundamentada no debate racional e na busca por consenso. Não é apenas um sintoma, mas uma engrenagem essencial desse sistema, sustentando o poder das big techs e corroendo as estruturas que deveriam garantir a circulação de informação confiável e imparcial.
O novo papel das big techs no controle da informação as aproxima, de forma inquietante, de um modelo de poder reminiscente de estados totalitários. Tal como regimes autoritários manipulam a narrativa oficial para manter o controle sobre suas populações, as plataformas digitais utilizam algoritmos opacos para moldar percepções, comportamentos e, em última instância, decisões políticas e sociais. Sob a justificativa do engajamento e do lucro, criam bolhas de pensamento homogêneo, sufocando o pluralismo e reforçando divisões que beneficiam seus próprios interesses econômicos. Essa dinâmica não apenas manipula os usuários, mas os conduz por caminhos que comprometem o tecido social, solapam a democracia e perpetuam ciclos de desinformação que prejudicam a coletividade. Como alertou George Orwell em 1984, “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”. Submetidos ao jugo invisível das big techs, somos levados a questionar se, afinal, estamos mesmo no controle de nossas escolhas ou se estamos sendo silenciosamente conduzidos ao precipício da alienação coletiva.
É possível reverter esse cenário? A solução passa por múltiplas frentes. É urgente regulamentar as plataformas digitais, exigindo transparência nos algoritmos e responsabilidade pela disseminação de conteúdo falso. O Brasil, com o projeto de lei das fake news, está no caminho certo, mas enfrenta resistências significativas. Paralelamente, é fundamental fortalecer o jornalismo profissional, que ainda é a melhor ferramenta para informar a sociedade de maneira ética e precisa.
Cabe a cada cidadão adotar uma postura mais crítica em relação às informações que consome e compartilha. No mundo digital, onde o sensacionalismo reina, a busca pela verdade exige esforço e vigilância. Como afirmou Umberto Eco, “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Precisamos, coletivamente, decidir se vamos continuar aplaudindo os idiotas ou se vamos exigir mais — de nós mesmos, dos políticos e das plataformas que moldam nossa percepção do mundo.
Sob o império da mentira, caminhamos perigosamente para uma encruzilhada civilizatória. Vivemos uma era em que a verdade, outrora pedra angular da civilização, foi sequestrada por narrativas moldadas por algoritmos insensíveis e interesses obscuros. Quando as grandes massas não conseguem mais distinguir fato de ficção, o tecido da democracia se esgarça, e a sociedade se torna presa fácil para o populismo, o autoritarismo e o caos. O episódio do Pix é mais do que um alerta: é um prenúncio de como a manipulação da informação pode reconfigurar os alicerces da convivência humana, conduzindo-nos a um futuro onde a razão é subjugada pelo medo.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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