25/05/2024 - Edição 540

Camaleoa

Onde está a Justiça?

Publicado em 14/02/2014 12:00 - Redação Semana On

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“Nem tudo que reluz é ouro”. William Shakespeare

Desde aquele manifesto no Rio de Janeiro, no qual o cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Ilídio Andrade, foi atingido por um rojão, o estado de coisas fugiu um pouco mais do controle. Desde este episódio, acompanhar os comentários das pessoas e de amigos não tem sido nada fácil. Os adjetivos e as mãozinhas levantadas para o alto com gritos de Justiça – a qualquer preço – nunca na história deste país ganharam níveis tão ensurdecedores.

“Cretina”, referente a Sininho, “num país sério esse merda que estourou a cabeça do cinegrafista iria para a cadeira elétrica ou prisão perpétua”, referente a Fábio Raposo e Caio Silva de Souza, “ele só estava trabalhando”, referente a Santiago, podem nos dizer e muito sobre o Brasil nesse momento.

Primeiro, seria muito bom para a sanidade e o bem-estar de todos os envolvidos que, antes de nos posicionarmos com verdades, em uma situação como esta, atentarmos que nenhum de nós estava no local. Em segundo lugar, para a sanidade e o bem-estar de nossos filhos, deveríamos lembrar que o fato em si é apenas a consequência de uma série de ações acumuladas.

Qualquer um que vá para um protesto onde tenha um aglomerado de pessoas e um aglomerado da polícia muito bem armada, é praticamente óbvio que alguém pode ou vai sair dali machucado.

Posto isso, então poderíamos lamentar a morte de Santiago que todos nós vimos praticamente em tempo real. Santiago era um trabalhador, pai de família, casado, estava lá sem ter a mínima ideia de que sua estadia neste planetinha de merda ia acabar ali. Quero aproveitar a oportunidade e te lembrar, leitor, que todos nós UM DIA iremos morrer, só não sabemos quando, onde e como. Santiago estava fazendo o que ele sabia fazer e, muito provavelmente gostava de fazer, contar histórias.

Em um protesto onde tenha um aglomerado de pessoas e um aglomerado da polícia muito bem armada, é praticamente óbvio que alguém pode ou vai sair dali machucado. É o mínimo. Quem sai de casa para ser manifestante, quem sai de casa para ser polícia e quem sai de casa para cobrir o fato precisa ter consciência disso. Também lamento a morte de Santiago, mas se fosse meu pai, por exemplo, eu choraria de saudade, mas também de orgulho e não permitiria que transformassem a morte dele, a sua memória, em uma bandeira política.

Lembro muito bem – e é uma coisa que não vou esquecer nunca – da sabatina de perguntas que fizeram ao fotógrafo de guerra, André Liohn, durante o Festival de Fotografia em Porto Alegre, em 2012. A grande dúvida, a maior de todas, era se ele não pensava nos filhos e na mulher quando ele ia pra guerra, se valia à pena sair de casa sabendo do risco de não voltar e as crianças crescerem sem o pai. Por mais que ele explicasse a importância de existir alguém naquela zona de conflito para contar para o resto do mundo a história daquele povo, as pessoas insistiam na valorização da vida dele em detrimento da história e do papel do fotojornalista. Liohn fotografou, entre tantos outros conflitos, a Primavera Árabe, no Egito.

É bem provável que, hoje, o mesmo grupo que fez esse tipo de pergunta, esteja fazendo outra observação sobre a morte de Santiago. Afinal de contas, lá era Primavera Árabe, aqui é Brasil, não tem nada a ver uma coisa com a outra. O que está acontecendo aqui é um bando de infiltrado vagabundo assassino deslegitimando as manifestações pacíficas populares. Não! É a mesma coisa se olharmos como um povo – povo é massa e massa você não controla – insatisfeito com “o estado de coisas”. (A expressão é do ex-secretário de Segurança Nacional, Romeu Tuma Jr. tirada da entrevista ao programa Roda Viva, da Tevê Cultura.

Quando um povo não suporta mais ser tratado como lixo ele vai às ruas. Uma transformação é um processo sempre doloroso e confuso. Crescer e amadurecer dói. O processo de transformação de uma sociedade não é diferente. Em outras palavras, transformar o estado de coisas consiste no surgimento de várias manifestações, todas legítimas, nem todas com o mesmo objetivo. Há toda sorte de classes sociais, interesses e ideologias furando literalmente o olho uns dos outros para prevalecer seus próprios interesses.

Pra mim, nem polícia, nem vândalo, nem jornalista é herói ou vítima. Ou melhor, todos somos vítimas e responsáveis pelo estado de coisas em que vivemos, criamos e mantemos.

Quando um povo não suporta mais ser tratado como lixo ele vai às ruas. Uma transformação é um processo sempre doloroso e confuso.

Dois infelizes

Fábio e Caio são dois infelizes que estavam na hora e no lugar errado. Se fossem outros rapazes, não teria acontecido nada com eles e se a cabeça estourada fosse de um brasileiro “qualquer” também estariam livres, em casa, vendo tevê e pensando, porra, vou na próxima manifestação com certeza. O jornalista e escritor Eduardo Sterzi, em sua página no Facebook, contabilizou 7 pessoas mortas – mais 13 em um evento apenas – na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ). “Neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes.”

Por que será então que, só depois da morte de um cinegrafista de uma grande emissora brasileira, a Rede Globo resolveu fazer um editorial pedindo JUSTIÇA? Por que será que os manifestantes passaram a agredir os jornalistas e, preferencialmente, os da Rede Globo quando a onda de manifestações surgiu no ano passado? “A violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa”, diz William Bonner no editorial. Ele está falando de qual tipo de violência, da psicológica e social que o povo brasileiro tem sofrido ou da violência (re)produzida por um grupo que – descontrolado, sim – tem ido às ruas dizer que não vai mais tolerar ser tratado como IMBECIL?

Como um jornalista vai cobrir as manifestações com bombas e pedras e balas de borracha e bombas de efeito moral estourando de um lado para o outro? Vamos perguntar para o fotojornalista André Liohn e tantos outros que cobriram e ainda cobrem guerra pelo mundo afora. André já perdeu muitos amigos, outros jornalistas continuam desaparecidos, nem por isso você vai ouvi-lo falar em vitimização ou – por favor, camarada, joga a bomba pra lá porque eu sou imprensa e não posso ser atingido, sabe como é, eu sou o máximo e tô passando.

Por que será então que, só depois da morte de um cinegrafista de uma grande emissora brasileira, a Rede Globo resolveu fazer um editorial pedindo JUSTIÇA?

“Nós pedimos racionalidade aos que contaminam as manifestações com violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e impede o trabalho jornalístico que é essencial numa democracia.” Mais adiante Bonner pede punição. “A Rede Globo se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados e exemplarmente punidos e que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais que a pura irracionalidade.”

Então vamos falar sobre a violência que tira a vida de pessoas e machuca pessoas inocentes.

Em 2012, 1.018 casos de estupro foram registrados no estado de Mato Grosso do Sul. O índice representa 40,6 estupros para cada 100 mil habitantes, o dobro da média nacional é que de 26,1.

No País, foram 50.617 casos, ou 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. O índice representa aumento de 18,17% em relação a 2011, quando a taxa era de 22,1. Fora os casos de abusos e de estupro que não são registrados por medo e por vergonha.

Onde está a justiça?

O que dizer para a família de Giovanna Nantes de Oliveira, depois de a polícia concluir o inquérito de 503 páginas, e indiciar o ex-namorado, Matheus Zadra Tannous como responsável por ter quase matado a garota de 19 anos, agredindo-a no rosto com o calcanhar e uma cadeira? Matheus está solto. Onde está a Justiça?

O que você diz para a mãe de uma criança de 12 anos que, ao chegar em casa, se depara com sua filha amarrada com um cadarço e violentada? Na manhã da última sexta-feira (7), mais um estupro aconteceu em Campo Grande, no Bairro Taveirópolis, e à boca pequena os moradores dizem que ele é do bairro. Onde está a Justiça?

Rita*, uma senhora de 68 anos, há sete meses ia ao posto de saúde sangrando muito pelo ânus. O médico nunca olhou para ela ou sequer a examinou. Sempre saiu de lá com comprimidos de paracetamol, nunca foi encaminhada para um especialista. Rita foi tratada por um médico pago pelos amigos da igreja. Onde está a Justiça?

O que podemos dizer para todas as vítimas de enchentes no Brasil? Quem são os responsáveis por não executarem o crescimento ordenado de uma cidade, de um país? Quem são os responsáveis pelas obras mal planejadas e orçamentos superfaturados e sempre desviados?

Todo dia uma família é sequestrada, roubada e torturada em algum lugar do país. Quem são os responsáveis por essa onda de violência descontrolada? O que vamos dizer para essas vítimas e tantas outras que ainda virão? Onde está a Justiça?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 1,2 milhão de pessoas morram de acidente de trânsito. E até quando vamos assistir casos de impunidade como aquele em que um ciclista morreu atropelado por Thor Batista? Onde está a Justiça quando sempre quem tem poder e dinheiro pode contratar um dos melhores advogados criminalistas do país?

O que dizer para as vítimas assassinadas covardemente em esquinas, em pontos de ônibus por uma juventude totalmente descontrolada, doentia e sem escrúpulos? Ouvimos eles dizer, na tevê, ah eu achei que era uma puta e aguardamos ansiosamente o momento do grande beijo gay da novela das 9?

O que dizer para as inúmeras vítimas de erro médico no SUS, o que dizer para as famílias vítimas da médica Virgínia Soares de Souza, acusada pelo Ministério Público de antecipar a morte dos pacientes da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Evangélico de Curitiba? Alguém da imprensa, alguma vez, fez editorial pedindo JUSTIÇA?

Recentemente, no Mato Grosso do Sul, foi criada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa para apurar as possíveis irregularidades na utilização de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) de 14 municípios.

Além de apontar aquilo que todos nós já sabemos, quando finalizou a investigação empurrou a responsabilidade para o Ministério Público Estadual e Federal. Fico imaginando aqui, com os meus botões, se era para apontar o que todo mundo já sabe e para não resolver nada, então precisava gastar aproximadamente R$ 350 milhões em seis meses?

Somente com consultores foram gastos R$ 132.764,00. Entre os agraciados, há desde profissionais liberais já contratados pela Assembleia até ex-secretários estaduais ligados ao PT. Com os maiores pagamentos aparecem na lista o advogado Ronaldo de Souza Franco (R$ 22.085,6), o cientista político Saulo Monteiro de Souza (R$ 18.035,6), a psicóloga Lilian Regina Zeola (R$ 9.760,4), o advogado Rafael Meirelles Gomes de Avilla ( R$ 9.760,4), a jornalista Evellyn Rabelo Ferreira (R$ 8.029,24) e o médico e sindicalista Ronaldo de Souza Costa (R$ 5.729,97). (fonte Midiamax)

Nunca vamos conseguir acabar com a violência se não resolvemos os problemas mais básicos, garantidos pela Constituição, ao povo brasileiro.

Por que será que temos milícias cada vez mais atuantes pelo país? Será que somos tão ingênuos que achamos ser possível acabar com elas colocando mais polícia armada na rua? Nunca vamos conseguir acabar com a violência se não resolvemos os problemas mais básicos, garantidos pela Constituição, ao povo brasileiro.

Que tipo de futuro nós temos em um país onde universitários aplicam trotes em calouros com alusão ao sexo oral em plena Avenida Paulista, na cidade de São Paulo? Vamos todos gritar por JUSTIÇA e colocar esses delinquentes na cadeia? Ou vamos amarrá-los nus em um poste em uma rua qualquer?

O que mais me estarrece, desde a morte de Santiago, é lembrar que a nossa presidente da República, Dilma Rousseff, foi durante muito tempo também uma militante e, segundo as más línguas, andava armada, não com um rojão, mas com pistolas, fuzis e metralhadoras. Apesar da presidente ter emitido nota dizendo que “nunca participou de nenhuma ação armada”.

Vamos então dizer que Dilma nunca militou armada. Ele era uma liderança tanto que foi presa e torturada. É essa mesma mulher, militante, presidente hoje do Brasil que pede para que a Polícia Federal intensifique e puna os responsáveis pela morte de um cinegrafista. Todo o resto, o estado de coisas, nunca foi resolvido com tanta rapidez e eloquência. Talvez seja menos importante.

Dilma Rousseff é sucessora do ex-presidente, Luis Inácio Lula da Silva, o primeiro homem do povo, ex-metalúrgico e defensor dos oprimidos. Ambos do mesmo partido, o PT, que apoia os indígenas no que diz respeito a retomada de terras que um dia foram deles, hoje, posse de produtores rurais.

Por que será que o PT ainda não resolveu a questão indígena, falta dinheiro? Verba para fazer obra superfaturada para a Copa do Mundo se dá um jeito mesmo que seja para inglês ver e resulte na morte de alguns funcionários. Onde está a JUSTIÇA?

E como explicar a invasão de 15 mil pessoas do Movimento Sem Terra (MST), outra classe também defendida pela esquerda petista durante campanhas de eleição, esta semana, na Praça dos Três Poderes, em Brasília?

E se isso não fosse suficiente, o próprio governo da ex-militante Dilma Rousseff quer elaborar um projeto para combater o vandalismo nas manifestações. E que seja rápido, de preferência, antes dos jogos da Copa do Mundo começarem e os turistas estiverem pelas bandas de cá com suas máquinas fotográficas e meias brancas esticadas até os joelhos falando como é verde nosso país, como somos um povo caloroso e autêntico.

Sobre o estado de coisas e a difícil arte de separar o joio do trigo

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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