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Teatro do Mundo

Independência X Interdependência

Ninguém constrói sozinho, muito menos na arte

Publicado em 23/05/2026 11:58 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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Existe uma ideia perigosa de independência que, muitas vezes, tenta convencer as pessoas de que alguém constrói tudo sozinho. Mas nenhuma cidade vive sozinha. Nenhum artista cria sozinho. Nenhuma cena cultural se sustenta isoladamente. Esse “eu” isolado é uma ilusão. O que move uma comunidade é justamente a interdependência: essa rede invisível de pessoas, afetos, investimentos, trocas, apoio mútuo e participação coletiva. Uma sociedade é feita de indivíduos conectados; somos nós por nós para nós.

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A cultura talvez seja um dos exemplos mais claros disso. A criação artística é sempre um ato coletivo e a arte é o principal nutriente da cultura. A arte nos faz avançar enquanto sociedade. Por isso, é tão combatida por aqueles que pretendem nos tirar a liberdade

Toda ação artística, por menor que pareça, produz movimento social, econômico e humano. Um espetáculo movimenta técnicos, músicos, costureiras, iluminadores, cozinhas, bares, gráficas, motoristas, hotéis, fotógrafos, comerciantes. Um show leva pessoas a saírem de suas casas. Uma peça de teatro faz uma cidade conversar consigo mesma. Uma sala de cinema ativa cria memória coletiva. Uma exposição muda o olhar das pessoas sobre o lugar onde vivem.

Arte não é luxo. Cultura não é enfeite. Cultura é infraestrutura humana.

Por isso o financiamento público da cultura é tão importante. As leis de incentivo, os editais, os pontos e pontões de cultura, a Cultura Viva, os mecanismos de isenção fiscal e democratização do acesso aos recursos existem porque a arte produz benefício público. Mesmo quando nasce de um desejo individual, a criação artística alcança a coletividade. O impacto é social, econômico, educacional e afetivo.

Uma cidade sem arte vai adoecendo aos poucos. Perde encontros, perde identidade, perde pensamento crítico, perde circulação econômica, perde pertencimento. A cultura fica desnutrida, violenta, dura. Quando um espaço cultural fecha, não é apenas uma porta que se fecha: fecha-se uma possibilidade de convivência humana.

Ao mesmo tempo, não cabe apenas ao poder público sustentar essa engrenagem. A sociedade também precisa compreender seu papel nessa construção. Participar da manutenção de uma casa de cultura, apoiar artistas locais, frequentar eventos, contribuir financeiramente quando possível, divulgar trabalhos, ocupar os espaços — tudo isso é parte de uma lógica coletiva de sobrevivência cultural.

A Cia Teatro do Mundo entende isso desde o começo. A própria Estação Cultural Teatro do Mundo nasceu chamando a sociedade para perto: campanhas de compra de cadeiras, grupos de apoiadores, participação direta da comunidade na manutenção do espaço, construção coletiva de pertencimento, economia criativa e cooperação. Não se trata apenas de manter um prédio funcionando. Trata-se de manter viva uma possibilidade de cidade.

Porque quando uma pessoa ajuda um artista ou um projeto cultural, ela não está fazendo caridade. Está investindo no movimento da própria cidade. Está ajudando a gerar encontros, pensamento, circulação de dinheiro, gerando renda, emprego, formação humana, turismo cultural, economia criativa e qualidade de vida.

“A arte cria pontes onde o mundo insiste em levantar muros”.

E talvez a grande maturidade de uma sociedade esteja justamente em compreender isso: o bem-estar coletivo depende da capacidade de cuidarmos uns dos outros e daquilo que produz sentido para a vida comum. Cultura é uma responsabilidade compartilhada. Uma cidade viva só existe quando seus habitantes entendem que também são responsáveis por manter acesa a chama da criação, da memória e da imaginação coletiva.

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FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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A arte não sobrevive sozinha

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