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Teatro do Mundo

O Poder e o Abismo

Shakespeare e a engrenagem trágica do humano

Publicado em 02/05/2026 2:11 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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A imagem do mundo como uma roda em movimento, ora elevando, ora esmagando, atravessa a obra de William Shakespeare com uma força quase inevitável. Reis tornam-se mendigos, amigos tornam-se traidores, e o poder, quando alcançado, frequentemente revela não a grandeza do homem, mas suas fissuras mais íntimas.

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No ensaio crítico de Jan Kott, reunido em “Shakespeare Nosso Contemporânea”, essa dinâmica é descrita como o “Grande Mecanismo”: uma engrenagem histórica e humana em que a ascensão ao poder já contém em si o germe da queda. Para Kott, as tragédias históricas de Shakespeare, como “Macbeth”, “Rei Lear” e “Ricardo III”, não são apenas retratos de um passado monárquico, mas alegorias permanentes da política, válidas em qualquer tempo. O poder não purifica; ele testa, tensiona e, frequentemente, corrompe.

Já Harold Bloom, em “Shakespeare: A Invenção do Humano”, desloca o foco do sistema para o indivíduo. Para Bloom, Shakespeare inventa o humano ao revelar a interioridade — personagens que pensam sobre si mesmos, que se contradizem, que se transformam. Em figuras como Macbeth ou Iago, não vemos apenas vilões, mas consciências em movimento, capazes de justificar o injustificável. O mal, portanto, não é externo: ele nasce de uma imaginação poderosa, que reconfigura a realidade para servir ao desejo.

Se cruzarmos essas duas leituras, o mecanismo histórico de Kott e a interioridade inventiva de Bloom, chegamos a uma visão inquietante: o sistema empurra, mas é o sujeito que consente. O poder oferece a possibilidade; o humano a realiza.

Em “Macbeth”, por exemplo, o assassinato do rei não é apenas um ato político, mas um mergulho psicológico. Macbeth sabe, hesita, imagina e mesmo assim age. A famosa frase de Macbeth (Ato 1, Cena 7): “Não tenho espora / Que pique os lados da minha intenção, senão apenas / A ambição saltadora” – “I have no spur / To prick the sides of my intent, but only / Vaulting ambition” revela que não há justificativa externa suficiente: é a ambição que o move, uma força interna que distorce sua percepção moral. O mesmo ocorre em Rei Lear, onde a divisão do reino, baseada em palavras vazias de amor, desencadeia uma série de traições familiares que expõe a fragilidade dos laços humanos diante do poder.

Trair o próprio irmão (“Hamlet”), nesse universo, não é uma exceção, é uma possibilidade latente. Basta que a roda gire.

Ao trazer essa reflexão para o Brasil contemporâneo, o paralelo não é difícil. Em diferentes esferas, política, econômica, institucional, vemos a repetição de padrões que Shakespeare dramatizou há séculos. A busca pelo poder, muitas vezes, não se dá em nome de um projeto coletivo, mas de uma afirmação pessoal, onde alianças são frágeis e a lealdade é contingente. Assassinatos, disputas internas, traições entre aliados: tudo isso parece ecoar o “Grande Mecanismo” descrito por Kott.

Mas seria simplista atribuir tudo ao sistema. Bloom nos lembra que o verdadeiro drama está na consciência individual. O Brasil, assim como o mundo, não é apenas palco de estruturas corruptoras, mas de sujeitos que escolhem, justificam e executam suas ações. A corrupção não é apenas um efeito do poder; é também uma invenção humana, uma narrativa que cada agente constrói para si mesmo.

No cenário global, essa lógica se amplia. Lideranças que manipulam a verdade, guerras justificadas por discursos ambíguos, democracias tensionadas por ambições autoritárias — tudo isso reforça a atualidade de Shakespeare. O mundo continua sendo uma roda, mas talvez hoje ela gire mais rápido, impulsionada por tecnologias que amplificam tanto a voz quanto a manipulação.

O ponto mais perturbador, no entanto, permanece: Shakespeare não nos permite a ilusão de que somos diferentes. Ao contrário, ele sugere que todos carregamos, em potência, a capacidade de Macbeth, de Iago, de Lear. O poder não cria monstros — ele revela o que já estava lá.

Assim, a pergunta que fica não é apenas sobre os que governam, mas sobre todos nós: o que faríamos se a roda nos elevasse? Até onde iríamos para permanecer no topo?

Talvez seja essa a verdadeira invenção do humano: não apenas a capacidade de sonhar, criar ou amar, mas também de justificar o abismo – e, se necessário, empurrar o outro para dentro dele.

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FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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