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Teatro do Mundo
A arte não desiste da gente. Então nós também não desistimos dela
Publicado em 01/02/2026 11:19 - Fernando Lopes Lima
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Deveria mesmo existir o muro das lamentações dos diretores de teatro.
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Não um muro sagrado como o de Jerusalém — mas um muro de coxia, feito de tábuas velhas de cenário, pregos tortos, fita crepe e sonhos cansados. Um muro onde pudéssemos apoiar a testa e respirar fundo, pra não desistir.
Porque ser diretor de teatro no interior do Brasil é fazer guerra contra o silêncio — o silêncio do público que não chega, do edital que nunca abre, do patrocínio que não atende, das instituições que tratam cultura como hobby, favor, perfumaria.
É acordar com ideias grandiosas e dormir com boletos.
Ensaiar com paixão e administrar ausências.
Inventar mundos e, ao mesmo tempo, implorar por luz, som, figurino, transporte, almoço.
É pedir empenho de atores que também correm atrás de sobrevivência — porque aqui ninguém tem o privilégio do “tempo para criar”. Aqui a gente ensaia depois do expediente, depois da faculdade, depois da vida. E ainda exige verdade, presença, riso, lágrima, corpo quente e mente disponível. Pedimos tudo sabendo que ninguém está inteiro, nem nós.
Manter um elenco coeso? No interior, isso é mais arte do que direção.
É quase alquimia. Quase religião.
Um ato de fé, de paciência, de teimosia bonita.
E há a solidão. A que ninguém fala.
Aquela de quem conduz o barco e precisa ter resposta pra tudo, mesmo quando está perdido.
Quando o espetáculo ameaça não nascer,
quando a última poltrona vazia dói mais que qualquer crítica,
quando o grupo se dispersa e você continua lá — segurando o fio invisível que só você vê.
Mas, apesar de tudo, a gente fica.
Porque se não formos nós, quem?
O teatro precisa nascer em todos os lugares — nas ruas de terra batida, nos galpões de igreja, nas salas emprestadas, nas escolas que cheiram a giz. O Brasil não pode ser só eixo, só vitrine; precisa de raízes, de vozes, de corpos que falem de onde quase ninguém olha.
E no interior, quando nasce, o teatro é revolução silenciosa.
É gesto político.
É respiro.
É milagre.
Então sim, merecíamos um muro para lamentar.
Mas talvez também merecêssemos uma praça para celebrar.
Porque mesmo chorando, a gente insiste — e insistir, no teatro, é uma forma profunda de amar o mundo.
Quem sabe um dia esse muro exista.
E no topo dele, gravado, esteja o lema secreto dos diretores do interior:
A arte não desiste da gente. Então nós também não desistimos dela.
–
FERNANDO LOPES LIMA
É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.
Estação Cultural Teatro do Mundo
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