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Ágora Digital

O eco sombrio da tortura

O que diz sobre nós o grito de guerra da PMMS?

Publicado em 02/08/2025 11:11 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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Na véspera da cerimônia de formatura de 427 novos soldados da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, um vídeo gravado nas dependências do comando-geral da corporação revelou um episódio que não pode ser tratado como mero deslize ou bravata juvenil. Com entusiasmo militarizado, os formandos entoam o seguinte verso: “O interrogatório é muito fácil de fazer: eu pego o vagabundo e bato nele até morrer.” Não se trata de hipérbole ou de humor mal compreendido — trata-se de apologia clara à tortura, ao extermínio e ao completo desprezo pelos princípios constitucionais que regem a atuação de qualquer força de segurança em um Estado Democrático de Direito.

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É preciso ser direto: este episódio não é apenas uma afronta simbólica à Constituição Federal de 1988 — que no artigo 5º, inciso III, veda expressamente a prática de tortura — mas um sintoma profundo e alarmante de uma cultura institucional que resiste à profissionalização, à humanização e ao controle democrático das polícias no Brasil. A cena evoca o entulho autoritário ainda não removido desde os tempos da ditadura militar (1964–1985), quando a violência estatal era celebrada e sistematizada como método de controle social e político.

A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul corretamente classificou o episódio como incompatível com os princípios constitucionais. Também o Governo do Estado, em nota, repudiou o ato e prometeu apuração rigorosa.

A pergunta que se impõe, com desconforto crescente, é: como formandos de um curso oficial de formação policial sentem-se à vontade para entoar um canto de apologia à tortura dentro do comando-geral da PM? Onde estava o comando da tropa? Onde estavam os instrutores, os oficiais, os superiores hierárquicos?

A omissão institucional — ou, pior, a conivência silenciosa — é cúmplice da barbárie. Como bem apontou o sociólogo francês Loïc Wacquant, em sua obra Punir os pobres: a nova gestão da miséria (Boitempo, 2007), “a polícia em sociedades desiguais tende a funcionar menos como protetora da cidadania e mais como força de contenção das populações marginalizadas”. Quando jovens soldados comemoram a ideia de matar um “vagabundo” com tortura, não estão apenas replicando jargões de caserna — estão encenando o papel de agentes do terror seletivo, que historicamente recai sobre corpos negros, pobres e periféricos.

A questão, portanto, ultrapassa o âmbito disciplinar. Trata-se de uma crise institucional, política e ética que se abate sobre todo o país. A formação policial deve preparar servidores públicos para proteger direitos, mediar conflitos e aplicar a lei com equilíbrio, proporcionalidade e humanidade. O que estamos vendo, no entanto, são indícios de uma formação que naturaliza a violência como método e a desumanização como linguagem.

Vale lembrar a advertência feita por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém (1963), ao tratar da “banalidade do mal”: o perigo não está apenas nos monstros, mas na obediência cega e acrítica que torna o mal algo rotineiro, burocratizado, institucionalizado. O canto dos formandos da PM-MS não é apenas bárbaro; é burocraticamente bárbaro — ele emerge de uma cultura que falhou em ensinar os limites da autoridade e o valor da vida.

É preciso ir além da indignação momentânea. A sociedade brasileira precisa refletir se deseja continuar delegando o monopólio da força a indivíduos que celebram a violência como método. Têm esses soldados condições psicológicas e técnicas para portar armas, intervir em comunidades, mediar conflitos, lidar com a diferença? A pergunta não é retórica. Trata-se de uma urgência civilizatória.

A resposta democrática a esse episódio deve ser tripla: investigação rigorosa com responsabilização, revisão profunda dos currículos de formação policial e implementação de mecanismos de controle externo efetivo, como ouvidorias independentes e corregedorias não subordinadas à própria corporação.

Como afirmou o jurista e ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, membro da Comissão Nacional da Verdade, “não se constrói democracia com a polícia de um regime autoritário”. É tempo de escolhermos, sem hesitação, que tipo de polícia queremos para o século XXI — uma que proteja a cidadania ou uma que perpetue os horrores do passado.

A democracia não pode ser complacente com o ódio. A liberdade não pode tolerar a tortura. O Estado de Direito não pode conviver com o arbítrio.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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2 respostas para “O eco sombrio da tortura”

  1. Antonio Carlos Polatto disse:

    Sou policial militar a quase 17 anos a serviço do cidadão Sul-Mato-grossense.
    Tanto eu quanto meus companheiros de curso, cantamos estes mesmos versos a anos atrás.
    E aqui estamos. Atuando de forma ilibada.
    Nunca fora da linha da legalidade.
    A cantoria é uma forma de expressar o sincronismo, a unidade, o elevado grau de nivelamento o qual determinado grupo alcança durante a formação, onde todos atingem a adaptação necessária a cada disciplinas ministradas durante o curso de formação.

    Fico triste em ver esse tipo de matéria circular.
    O que prova que nosso país não é de primeiro mundo ainda por conta de forcas contrárias ao desenvolvimento.

    Midia parcial, tentativa de frear o bom andamento das corporações que atuam de forma brilhante e eficazes.

    Se tens duvidas, faça uma enquete onesta e aleatória e jogue para o povo opnar.

    Veremos quem tem mais credibilidade no atual contexto.
    Acho que nosso país passa por momento crítico de corrupção, e ativismo de poder em detrimento de morosidade de outro.
    Tem bastante assunto para vocês noticiarem ao invés de atacar uma instituição renomada.

    Mostre de vez de que lada estão.

  2. Victor Barone disse:

    Entendo, senhor Polatto. A cantoria com apologia à tortura é, segundo o senhor, um ritual de unidade e disciplina. Curioso… também diziam isso em certos regimes do século passado — onde o “sincronismo” era medido pelo volume dos gritos. Quanto à atuação “ilibada”, prefiro não generalizar. Só lembro que legalidade não se canta: se comprova. E se a crítica à barbárie incomoda, talvez o problema não seja a crítica. Quanto à “mídia parcial”: parcial é achar que violência institucional é sinônimo de eficácia. Isso sim nos distancia de um país de primeiro mundo.

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