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Ágora Digital

Patriotas de araque

O Brasil não vai se curvar ao império da mentira e do medo

Publicado em 18/07/2025 1:44 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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Em momentos críticos da história, a soberania de uma nação não se mede por discursos inflamados ou bandeiras desfraldadas, mas por sua capacidade de resistir a pressões externas sem abrir mão de seus princípios, instituições e autodeterminação. O Brasil vive, neste exato instante, um desses momentos — e qualquer hesitação pode custar décadas de conquistas democráticas.

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A tentativa coordenada de interferência liderada por Donald Trump, com o apoio declarado da família Bolsonaro e de setores da direita brasileira que dão mostras de que estão dispostos tudo pelo poder, é um episódio grave que não pode ser minimizado sob o pretexto de pragmatismo ou diplomacia. Ao exigir a suspensão do julgamento de Jair Bolsonaro por sua participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, Trump atua não como aliado ou parceiro comercial, mas como um agente de desestabilização — investido do delírio colonial de que ainda pode ditar os rumos de governos soberanos ao sul do Equador.

A carta publicada por Trump em sua plataforma — redigida a pedido de Eduardo Bolsonaro — é um acinte à soberania nacional. O ex-presidente dos EUA não se limitou a opinar: ele ordenou. Disse que “observará o Brasil atentamente”, como se fôssemos um protetorado sob sua tutela. Trata-se de uma postura imperialista, reminiscente dos tempos da Doutrina Monroe, em que os Estados Unidos se atribuíam o papel de “guardiões” do hemisfério ocidental. Mas este não é mais o século XIX, e o Brasil não é mais uma república em formação.

A reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi firme, mas ponderada. Em pronunciamento na quinta-feira (17), Lula reafirmou que “o Brasil tem um único dono: o povo brasileiro”, deixando claro que não permitirá que a Justiça se submeta a interesses estrangeiros, tampouco que empresas americanas desrespeitem as leis nacionais. Mais do que um gesto de orgulho patriótico, trata-se de uma defesa necessária da democracia.

Essa postura contrasta de forma gritante com o servilismo do bolsonarismo, que, diante de Trump e dos Estados Unidos, se ajoelha com uma devoção canina, disfarçada de estratégia diplomática. O mesmo grupo que se dizia defensor intransigente da pátria agora implora por intervenção estrangeira, revelando o velho complexo de vira-lata travestido de ideologia. O bolsonarismo, no fundo, nunca teve compromisso com a soberania nacional — apenas com sua própria sobrevivência política.

Como bem lembrou o jurista e filósofo italiano Norberto Bobbio, “não existe democracia sem o império da lei” — e, no Brasil, a lei deve valer para todos, inclusive para ex-presidentes que atentaram contra o Estado Democrático de Direito. Submeter nosso sistema de Justiça a pressões externas seria não apenas uma rendição, mas um suicídio institucional.

O governo brasileiro, ao contrário do que dizem os arautos do entreguismo, jamais se furtou ao diálogo. Desde março, negociações comerciais com autoridades norte-americanas vêm sendo conduzidas com seriedade. O que o Brasil não pode aceitar — e corretamente não aceita — é que esse diálogo seja sequestrado por interesses eleitoreiros e golpistas. Como disse o Itamaraty, a “politização equivocada do assunto não é de responsabilidade do Brasil”, e sim daqueles que misturam política externa com vingança ideológica.

Ao defender que plataformas digitais norte-americanas se submetam às leis brasileiras e que o Pix — uma inovação tecnológica pública e nacional — seja protegido das ingerências estrangeiras, o governo Lula reafirma um princípio básico do constitucionalismo moderno: o de que o Estado deve proteger o interesse coletivo frente a poderes econômicos ou transnacionais.

A postura de Trump, por sua vez, é coerente com seu histórico: submeter aliados à humilhação tem sido parte de sua estratégia política. Emmanuel Macron foi ridicularizado em reuniões da OTAN; Angela Merkel, espionada. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi colocado em situação constrangedora. O sul-africano Cyril Ramaphosa foi indiretamente insultado. Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, foi chamado de “fraco” e “desonesto”. Quando líderes de outras nações não se alinham cegamente à sua agenda, Trump os trata como inimigos. Como afirmou o historiador Timothy Snyder, professor da Universidade de Yale, “Trump não valoriza a democracia nem em casa, nem fora. Seu projeto é autoritário e personalista” (On Tyranny, Tim Duggan Books, 2017).

E aqui entra um ponto crucial: ao se alinhar ao trumpismo, o bolsonarismo – e os representantes da direita que ecoam sua voz por mero interesse eleitoral – deixa de lado qualquer resquício de nacionalismo real. O que resta é um servilismo travestido de patriotismo — uma versão grotesca do “complexo de vira-lata” de que falava Nelson Rodrigues. Os mesmos que se dizem defensores da pátria agora pedem, sem constrangimento, que um ex-presidente estrangeiro interfira em decisões do Supremo Tribunal Federal.

É preciso dizer com todas as letras: isso é traição à pátria.

É igualmente grave a postura de setores da elite política e econômica nacional que, diante da ameaça tarifária dos Estados Unidos, sugerem que o Brasil deva “ceder” ou “negociar” valores inegociáveis, como a independência do seu Judiciário. Essa lógica, travestida de pragmatismo, nada mais é do que rendição. Defender que o país sacrifique sua soberania para escapar de sanções ou chantagens econômicas é, no fundo, aceitar que sejamos governados de fora para dentro. Como alertou o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “a soberania começa a ser abalada quando os próprios cidadãos duvidam de sua legitimidade” (A Crítica da Razão Indolente, Cortez, 2000). A defesa da soberania não é um luxo ideológico; é uma condição essencial para a democracia florescer. Abrir mão dela em nome da estabilidade imediata é uma aposta perigosa — e covarde — num futuro tutelado.

Não estamos diante apenas de uma disputa comercial ou de uma divergência diplomática. O que está em jogo é a capacidade do Brasil de se manter como nação soberana, democrática e independente em um cenário global onde o autoritarismo avança com rosto conhecido e métodos cada vez mais agressivos.

O centro progressista precisa compreender a gravidade do momento. Não se trata mais de polarização política ou de diferenças ideológicas. Trata-se de proteger o Estado brasileiro de um projeto autoritário internacional que une Trump, Bolsonaro, Orbán, Javier Milei e outros nomes que têm como denominador comum o desprezo pelas instituições democráticas.

A defesa da soberania nacional é, hoje, um imperativo moral e político. Não se trata de nacionalismo chauvinista, mas de dignidade institucional. Como ensinou Paulo Freire, “a liberdade não se recebe, conquista-se” — e, para conquistá-la, é preciso coragem para dizer não aos que nos querem de joelhos.

O Brasil não deve e não vai se curvar. Não ao império do dólar, não ao império da mentira, e muito menos ao império do medo.

Mafiosos e chantagistas

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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