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Teatro do Mundo

O cheiro da tinta…

E o fator humano por trás da notícia

Publicado em 06/03/2026 1:30 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Reprodução

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O cheiro da tinta, os dedos manchados, o barulho seco da folha sendo virada — isso tudo era rito. Mas o que doía e, ao mesmo tempo, alimentava era o humano por trás da notícia. O jornalista que errava, insistia, batia na porta, levava “não”, voltava. O colunista que tinha opinião, vício de linguagem, humor ácido ou ternura inesperada. Havia ali um corpo. E um risco.

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O jornal impresso tinha gosto porque tinha autoria. Tinha alguém que assinava. E assinar é se comprometer.

Hoje, a informação é instantânea, abundante, fragmentada. Nunca tivemos tanto acesso — e, paradoxalmente, tantas versões pasteurizadas do mundo. Algoritmos organizam o que vemos. Métricas orientam o que se escreve. O clique virou régua. A velocidade, prioridade. E, no meio disso tudo, o jornalista muitas vezes foi empurrado para a produção em série, para o título chamativo, para a repetição do que já está circulando.

Mas o bom jornalismo — aquele que evoco com saudade — nunca foi só sobre informar. Foi sobre olhar. Sobre escolher o ângulo. Sobre contextualizar. Sobre perguntar: “a quem interessa?”. Sobre desconfiar do óbvio. E, sim, às vezes sobre criar fatos no sentido mais humano da expressão: iluminar aquilo que estava invisível, dar voz ao que ninguém estava ouvindo, transformar o cotidiano em acontecimento.

A inteligência artificial organiza informação. Cruza dados. Estrutura argumentos. Mas não sente o cheiro da tinta, não enfrenta o silêncio constrangedor de uma entrevista, não corre o risco da retaliação. O jornalismo humano carrega ética, medo, vaidade, coragem, cansaço — e é justamente essa mistura imperfeita que o torna vital.

Tenho saudade do tempo em que a mediação era feita por pessoas com rosto, e não por sistemas opacos. Do tempo em que a notícia vinha com assinatura e responsabilidade clara. Do tempo em que havia espaço para a crônica, para o pensamento demorado, para o texto que não precisava disputar com mil notificações.

Mas não acho que o jornalismo morreu. Ele está tensionado. Em crise, sim — econômica, política, tecnológica. Porém, também mais necessário do que nunca. Num mundo saturado de versões, alguém precisa investigar, checar, contextualizar. Alguém precisa sustentar o desconforto da verdade.

Talvez o que esteja em falta não seja o impresso, mas o compromisso público. A ideia de que informar é um serviço à coletividade, e não apenas um produto.

E talvez essa minha saudade seja, no fundo, de um tempo em que a palavra ainda parecia pesar mais.

Sou do tempo em que, no Rio de Janeiro, os jornais tinham críticos de teatro. No Jornal do Brasil, havia Macksen Luiz, que durante vinte anos escrevia sobre as peças a que assistia, fazendo críticas que eram verdadeiras obras literárias. Em O Globo, a temida Bárbara Heliodora tirava o sono dos artistas; suas críticas eram esperadas por todos nós — um misto de admiração, desespero, pena e raiva. No Jornal do Comércio, Leonel Fischer era o crítico que a classe amava: nunca escrevia críticas negativas; só escrevia se gostasse do espetáculo, sempre muito carinhoso e cortês.

Tenho saudade desses encontros. Da espera pelo jornal do dia seguinte. Da responsabilidade de quem escrevia sabendo que seria lido com lupa e paixão. Do tempo em que o crítico ocupava um lugar de interlocutor da cena, e não apenas de comentarista apressado.

Claro que, no meio desse emaranhado, há jornalistas e repórteres engajados; há veículos sérios e pujantes; críticos de arte escrevendo em revistas, jornais virtuais e em sites pessoais, sustentando reflexão e rigor. Apesar da minha saudade, reconheço que nem tudo está perdido.

Enquanto uns vendem meias-verdades ou verdade alguma, outros se preocupam em alimentar a população com informação de qualidade, apurada, responsável. E é essa diferença que ainda sustenta a esperança.

Viva a imprensa. Viva a liberdade. Viva a fraternidade. Viva os que são de verdade. O resto é perfumaria.

FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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