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Teatro do Mundo

A montagem como processo

Não se trata apenas organizar cenas, mas habitar um tempo comum

Publicado em 27/02/2026 1:19 - Fernando Lopes Lima

Divulgação

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Um processo de montagem precisa durar o tempo necessário para que seja, de fato, um processo.

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Não se trata apenas de chegar a um espetáculo, mas de percorrer um caminho. A montagem é o resultado visível de uma trajetória invisível, feita de tentativas, escutas, erros, descobertas e transformações.

No percurso, o espetáculo muda — e nós também.

Peter Brook lembra que o teatro acontece no espaço do encontro e da atenção. Esse encontro não nasce pronto: ele se constrói no tempo, na convivência e na fricção entre os corpos, as ideias e a realidade. Um processo apressado pode até gerar uma forma, mas dificilmente produz sentido compartilhado.

Eugenio Barba, ao falar do teatro antropológico, reforça que o trabalho do ator não é apenas técnico, mas existencial. O processo de criação transforma o intérprete porque exige presença, risco e disponibilidade para o desconhecido. Não é possível atravessar esse caminho sem ser afetado.

No Brasil, o Grupo Galpão é um exemplo emblemático de como o tempo e a coletividade são motores da criação. Seus espetáculos nascem de longos processos de pesquisa, improvisação e diálogo com o espaço público e com a cultura popular. O resultado não é apenas uma obra, mas a sedimentação de uma prática, de uma ética e de uma identidade artística construída ao longo dos anos.

Já o Teatre del Soleil, sob a direção de Ariane Mnouchkine, reafirma a ideia de que o processo é tão importante quanto o resultado. A criação coletiva, o compartilhamento de funções, o longo tempo de ensaio e a escuta radical do outro fazem da montagem uma experiência de transformação humana e política. No Soleil, o espetáculo é inseparável do modo como ele foi criado.

Montar uma peça, portanto, não é apenas organizar cenas, mas habitar um tempo comum. É aceitar que o processo nos desloque, nos confronte e nos reconfigure. Quando respeitamos esse tempo, o espetáculo deixa de ser apenas um produto final e passa a carregar as marcas vivas do caminho percorrido.

A montagem, assim, não é um ponto de chegada.

É memória de um trajeto — e testemunho das transformações que aconteceram enquanto caminhávamos juntos.

FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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Os que ficam: a força invisível do teatro no interior do Brasil

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