14/06/2024 - Edição 540

Eles em Nós

No futebol, o inimigo não é a troca de experiências, mas o pachequismo

'Forma própria' de jogar não resiste a intercâmbios ao longo da história

Publicado em 25/09/2023 11:51 - Idelber Avelar

Divulgação Pixabay

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O ano de 2026 igualará o maior jejum do Brasil em Copas do Mundo, e não faltam ideólogos para ler na realidade o oposto do que ela diz. Incrivelmente, o pachequismo está de volta para recuperar a identidade nacional, mas agora o inimigo é a “rigidez” do “jogo posicional” de Guardiola e companhia. Segundo essa cantilena, as derrotas se devem à mania de copiar a Europa, à moda de estudar tática e à perda daquela ginga nacional espontânea que, se deixada em paz, vencerá.

O futebol é das poucas áreas em que subsiste intacto um discurso identitário nacional, uma gosma ideológica segundo a qual, em época indeterminada (e o caráter escorregadio das datas ajuda na mistificação), germinou-se no Brasil uma forma própria de jogar que persiste em si mesma, sempre resistindo a alguma força maligna forânea que a quer enjaular em esquemas.

Essa forma própria vence quando se mantém fiel a si mesma e perde quando se trai por soberba, retranca, tatiquês, europeísmo ou jogo posicional. O inimigo varia com as décadas, mas ela sempre só ganha pela operação da sua identidade —e nunca perde por méritos do adversário.

Pacheco não é torcer intensamente pela seleção, é crer que ela só pode perder para si própria, que há uma essência brasileira a se preservar ou recuperar. Daí que pachequismo seja intraduzível: só em português brasileiro “ser vice” e “perder a Copa” são sinônimos, e só as derrotas brasileiras são vistas como consequência de não termos sido suficientemente nós mesmos.

Para apresentar a essência brasileira que será sempre vitoriosa se não for traída, o relato nacionalista precisa ignorar o papel de trocas com o exterior que foram formativas e anteriores a qualquer discurso sistemático sobre a forma brasileira de jogar.

Uma dessas omissões é o imenso aporte húngaro. É sabido que Vicente Feola foi assistente de Béla Guttmann no título paulista de 1957 do São Paulo. É sabido que a diagonal, adaptação do “WM”, se desenvolveu com Flávio Costa a partir de Dori Kruschner, em 1937.

Bem menos sabido é que outro húngaro, Jeno Medgyessy, entre nós Eugênio Marinetti, foi anterior e ainda mais decisivo para a conformação do futebol no Brasil. Discípulo de Jimmy Hogan, inglês de ascendência irlandesa que introduziu à Hungria o estilo escocês baseado no passe, o Medgyessy jogador (1907-19) foi contemporâneo da pergunta que fascinou os cafés de Budapeste: se sempre chega pelos pés de gente privilegiada, por que o futebol é apropriado de forma tão apaixonada por pobres de todos os cantos?
Entre 1926 e 1933, Marinetti foi técnico de Botafogo, Fluminense, Galo, Palestra Itália (Palmeiras) e São Paulo. Organizou duas turnês do Ferencváros pela América do Sul e negociou a unificação da profissionalização entre São Paulo e Rio de Janeiro em 1933.

No Flu, Marinetti venceu o Torneio Início em 1927. Seu Galo venceu o Corinthians por 4 a 2 na inauguração do estádio Antônio Carlos, e o Victória de Setúbal por 3 a 1 na primeira partida internacional do clube, ambas em 1929.

Mas Marinetti gostava de trabalhar em São Paulo, onde conhecia vários compatriotas. No período paulistano, sua presença na imprensa é avassaladora. De A Gazeta ao Jornal dos Sports, as notícias de Marinetti incluem a bela campanha no Palestra, o único time brasileiro a derrotar limpamente o Ferencváros em 1929, e a breve passagem no São Paulo, onde dirigiu Friedenreich. A forma Marinetti de jogar dependia de intensos treinamentos, que a imprensa escrita passou a cobrir.

Quando ele foi para o San Lorenzo, em 1933, a imprensa reagiu com mescla de orgulho e lamento, e A Gazeta cometeu a hipérbole de que todos os técnicos brasileiros haviam adotado o estilo Marinetti.

Se de voltar ao passado se trata, que seja para recuperar trocas constitutivas de quem somos, em vez de buscar um momento em que não havíamos sido corrompidos e jogávamos de acordo com alguma identidade mítica que nos levou a vencer 5 Copas — e que foi traída para que perdêssemos as outras 17.

Idelber Avelar – Professor titular na Universidade Tulane (EUA), é autor de “Alegorias da Derrota” (UFMG), “Figuras da Violência (UFMG) e “Eles em Nós; Retórica e Antagonismo Político no Brasil do Século 21 (Record). Prepara um livro sobre a memória e o futebol

Publicado originalmente no jornal Folha de SP

 

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