18/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

Memória afetiva e o retorno a Campo Grande

Publicado em 08/01/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Quando Victor Barone me ligou, em dezembro do ano passado, fazendo o convite para ocupar a coluna, ele me disse por telefone que precisava de alguém para escrever sobre cultura. Quando ouvi a palavra pensei logo na concepção antropológica, não em arte especificamente. Prazer, sou Cristina Livramento, jornalista, escritora de um livro só e fotógrafa. Nasci em Ourinhos (SP), morei em diferentes cidades, e fiquei sete anos fora de Campo Grande. Durante 23 anos morei aqui.

Quando me mudei, em julho de 2006, era para nunca mais voltar, nem para ser enterrada, mas eu voltei em fevereiro de 2013 mais morta do que viva. Dizem que é preciso voltar para o ninho para se recompor. O destino me obrigou a fazer esse retorno e, sem alternativas, retomei essa relação com a cidade. Se era inevitável, precisava ser diferente, precisava ser leve e isso eu deveria aprender no dia a dia.

Campo Grande e eu temos uma relação muito complexa desde 1983. O bom – da nossa relação – é o tempo, essa santa criatura que resolve tudo e deixa a gente mais maduro (cascudo?) ou indiferente. Sempre fico na dúvida.

Nesses 23 anos posso enumerar uma sequência de experiências negativas que me levaram a odiar este lugar. Ao mesmo tempo, foi Campo Grande quem me deu a base, o suporte para experimentar o resto do mundo. Chamo isso de identidade. Se não fosse o inferno, talvez não conseguisse ser feliz agora e continuasse projetando uma felicidade inalcansável. Pelo menos, é como vejo as coisas. Para cada um funciona de uma maneira.

Identidade é tudo aquilo que respiramos durante nossa vida, que nos alimenta a alma, tudo o que vemos e sentimos, nossa oralidade, nossos gestos, o som da nossa voz. Eu precisei sair de Campo Grande, da Vila Taveirópolis, viver nos Jardins, em São Paulo, e encerrar essa jornada de delícias e horrores, no Bairro Agronomia, em Porto Alegre, ao lado de bêbados e miseráveis. Claro que não tinha só isso, mas durante um bom tempo era só o que eu via do alto do morro.

Em São Paulo, por exemplo, pude me ouvir. Eu não falava, berrava. Mas na convivência com os paulistanos fui aos poucos percebendo o quanto era desagradável e desnecessário falar aos berros com os amigos, fosse em casa ou na padoca. E acho que voltei a berrar depois dos dois anos e meio em Porto Alegre, mas enfim. Saí de Campo Grande uma verdadeira jacu. Aquela coisa desconfiada, cabreira, mas que nunca dá o braço a torcer, é bicho turrão. Fica de longe, olhando tudo.

Além da jacuzisse, também era intransigente e preconceituosa. Talvez pelo desespero em não me afogar em tanto preconceito que vivia em Campo Grande. Principalmente depois que passei a escrever literatura erótica. Meus professores da universidade acharam um horror, minha família se descabelou, e coleguinhas da imprensa debocharam. Jovem e imatura, a gente cria uma certa aspereza desnecessária. Raiva, indignação faz mal pra pele – pra nossa – porque a dos outros já tá carcomida de tanto recalque e inveja.

No sobrado 1919, da Oscar Freire, eu me sentia no olho do furacão e adorava isso. Toda semana acontecia um sarau em casa. No mesmo endereço funcionava um brechó e a redação para dois jornais, o tablóide Café Literário e o standard Jornal da Praça. Era engraçado porque o endereço trés chic não correspondia com a vida que a gente (eu e meu ex-marido Eduardo Barrox) vivíamos. Uma relação muito tumultuada, com a Eletropaulo e a Sabesp, por exemplo. Os caras insistiam em cortar a luz e a água lá de casa. Sempre. Éramos uns verdadeiros beatniks.

Em Sampa, aprendi a auto-confiança. Na companhia de atores, na frente do Viga, dos Parlapatões, no Letras em Cena, no Masp, vi gente que realmente não se importava se você estava de chinelo havaianas ou era algum famoso da tevê. Em uma roda de conversa, na saída de uma peça ou leitura, essas pessoas te olhavam no olho e queriam saber de você, o que você pensava. O verdadeiro artista é aquele que se interessa pelo o outro, não aquele que sempre procura um palco pra subir e pedir purpurina. Ou, para tudo tem a sua hora. Lá encontrei meus irmãos de espírito, de on the road.

Mas a auto-confiança, em São Paulo, deu a mãozinha pro ego e foi longe. Lembro uma vez, Clóvys Tôrres, dizendo – Camaleoa, você tá muito metida. Ego é um bichinho desgraçado que arruína com tudo. É como se você sempre tivesse controle da situação, mas é claro que não tem. Faz você acreditar que sabe exatamente quem é. Mentira, viu, você não sabe.

A gente tem uma falsa ideia de que se conhece, mas na prática não é bem assim. Por exemplo, eu só fui notar o quanto tenho de caipirês na minha oralidade, quando fui para Porto Alegre. O gaúcho faz questão de te apontar cada letrinha fora do lugar, ele reconhece a diferença, esfrega na cara e debocha. Depois de um tempo, você se acostuma e começa a achar engraçado.

Mas foi POA que me ensinou a maior lição, talvez de toda a minha vida. Foi POA que me ensinou a olhar o outro. A caipiria do Taveirópolis, recém-saída do olho do furacão paulistano, estava miserável, morando ao lado de bêbados e traficantes. Estava longe dos amigos, longe de tudo o que eu conhecia, sentindo o azedo da ironia gaúcha e odiando profundamente o mundo. Não que odiar fosse alguma coisa nova na minha vida, desde que eu me lembre, aos 3 anos, odeio o universo de maneira geral.

Quando saí do sobrado, na Oscar Freire, depois de muito tirar cocô de gente da porta da minha casa, de chamar a polícia pra tirar mendigo debaixo da minha janela para poder sair, desejava às ganha que todos os moradores de rua, bandidos, viciados de rua e bebuns de becos fossem levados na calada da noite pela polícia e de-sa-pa-re-ces-sem. PUF! Pó no espaço. Foi com essa mentalidade que eu saí de Campo Grande, morei em São Paulo e cheguei em Porto Alegre.

Em 2011, já há alguns meses morando no morro do Agronomia, em POA, eu me sentia isolada do mundo. E não era nada agradável. Não tinha dinheiro pra comprar um pacote de absorvente sequer. Destruída de inúmeras maneiras. Convivi com a depressão, o pânico, e uns 20 quilos a mais. O inferno.

Mas em agosto de 2012, em uma oficina de fotojornalismo com André Liohn, fui colocada contra a parede. Era aquele momento – um dos muitos que a gente se depara – em que não dá pra pensar, precisa agir. – Você só volta pro curso com as fotos da academia, Liohn me disse numa terça-feira pela manhã. Chorei o resto do dia. Na época, lutava horrores com a dificuldade em sair de casa, pegar a bolsa, e ir pra rua. Tinha medo.

Passei meses com os atletas da Miudinho Academia e, em seguida, fotografei o Batuque, oficialmente conhecida como Nação Afro Gaúcha, a religião forte no Sul diferente da Umbanda e do Candomblé. Lembro de uma noite, filmando a Festa de Oxum, no Guaíba, na Zona Sul, ouvindo o canto e o som dos instrumentos, o meu coração se encher de emoção e a câmera tremer na minha mão. Eu queria ajoelhar e chorar e agradecer tamanha oportunidade em reconhecer o negro que há em mim e que sempre foi maquiado, a beleza de uma religião que sempre me foi ensinada como uma coisa do demônio, do mal e de gente ruim. Talvez ali eu tenha entendido o significado de ser pátria e do meu papel na sociedade, mesmo que ela se resuma a mim e a minha filha. Identidade e legado.

Em seguida ministrei oficinas de fotografia para crianças de escolas da periferia. Numa manhã, no término de uma aula, ouvi a professora de uma escola, na Restinga, me dizer. – Você sabia que a maioria das crianças dessa escola viram seus pais serem assassinados? Jamais vou esquecer essa frase. Nem a alegria dos alunos em poder relacionar a fotografia – uma atividade tão elitista no Brasil – com a realidade deles, a fotografia e a profissão do pai pedreiro, a fotografia e a figurinha do bafo com os atores da tevê, a fotografia e mãe alcóolatra de um dos alunos, a fotografia e o Neymar no barco “com as gatinhas de biquini”.

Naquelas salas de aula, naquelas escolas em que estive, apesar do meu pai estar vivo, de nunca ter visto ninguém ser assassinado, me vi naquelas crianças. Apesar de estar com 40 anos e ser mãe de uma adolescente de quase 17, lembro muito bem como é denso, doloroso e solitário ser (pré)adolescente. E posso dizer, com muito orgulho, que todas as salas que me deram – as mais problemáticas, segundo as professoras – a gente desenvolveu uma relação muito produtiva. Uma aluna, um dia perguntou se podia me chamar de Cristina ao invés de professora. A professora pediu que ela se referisse a mim também como professora, porque era uma forma de respeito. E ela disse baixinho, com um sorriso de cumplicidade pra mim, lá do fundo da sala. – Ela é uma de nós.

Porto Alegre foi meu amor absoluto. Sem a depressão, a solidão, a miséria econômica, o não-lugar, talvez eu jamais tivesse entendido porque temos o bêbado, o morador de rua, o viciado, o cocô de gente na porta de casa. Entender isso não me faz melhor do que eles, nem a vida desgraçada de cada um deles os transformam em vítima ou melhor do que qualquer outra pessoa. Fazemos todos parte desse caos poético que se chama vida.

Quando saí de lá, minha última jornada fotográfica foi com os pixadores. A gente aprende que podemos ser medíocres de diferentes maneiras, heróis de diferentes maneiras, covardes e guerreiros de diferentes maneiras, poetas de muitas formas. A gente pode aprender a voar ou se deixar levar para bem fundo do inferno. E são todas essas mochilas penduradas em nossas costas que dão a cara da cidade em que vivemos.

Eu tô de volta, Campo Grande, na cena com os bêbados e as putas da antiga rodoviária, andando com meu all star, minhas botas velhas, pelas ruas mal iluminadas, esburacadas e abandonadas da Cidade Morena, fotografando o pouco que restou de memória afetiva, reconhecendo a caipira inquieta e petulante que insiste em fazer perguntas e desvendar por quê somos o que somos, tão estrangeiros em nossa própria terra.

 

Mais sobre:

Jornal da Praça

Letras em Cena

André Liohn

Oficinas de fotografia em Porto Alegre

 

Se você tem um vínculo com algum lugar da cidade, você pode me escrever. Pode ser triste ou alegre. Onde você conheceu o primeiro amor da sua vida, a última vez que você viu o seu irmão, o primeiro emprego, uma paquera dentro de um ônibus na sua adolescência, um acidente que você viu e que te marcou de alguma forma, mande sugestões para [email protected]. A história tem que ter um significado marcante em sua vida e estar vinculada a cidade, Campo Grande.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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