Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Ágora Digital

Matou o gari e foi à academia

Quando o lixo é o outro: violência, ódio de classe e o valor da vida no Brasil

Publicado em 14/08/2025 2:16 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Na manhã em que o gari Laudemir de Souza Fernandes foi assassinado, a cidade de Belo Horizonte seguiu seu curso quase normalmente. Os carros continuaram a circular, os alarmes dispararam, os aplicativos de entrega trabalharam com velocidade, e as redes sociais seguiram sua dança fútil de selfies e indignações instantâneas. Mas ali, numa rua do bairro Vista Alegre, o Brasil mostrou, mais uma vez, sua face mais brutal: a de um país onde o ódio de classe, a arrogância do privilégio e a lógica da morte se entrelaçam como uma sentença silenciosa para os que vivem — e morrem — à margem.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Laudemir, um trabalhador negro, foi morto a tiros por René da Silva Nogueira Junior, um empresário branco, após uma discussão de trânsito. Segundo testemunhas, René, incomodado com o caminhão de coleta de lixo, ameaçou a motorista do veículo com palavras que dispensam interpretação: “vou atirar na sua cara”. Laudemir e outros colegas tentaram proteger a mulher — e por isso pagou com a vida. Horas depois, René foi encontrado pela polícia malhando em uma academia de alto padrão, como se nada tivesse acontecido. Em seu perfil nas redes sociais – já restringidos – ele se apresentava como “cristão, esposo, pai e patriota”.

Há símbolos demais nesta tragédia para que seja reduzida a um “caso isolado”. O episódio expõe, com precisão, os sintomas de uma sociedade adoecida pela desigualdade, contaminada pelo autoritarismo e envenenada por uma ideologia que desumaniza o outro, sobretudo quando esse outro é pobre, negro e trabalhador.

O gesto de René não foi apenas o de um indivíduo com descontrole emocional. Foi o ato de quem se sente autorizado a matar. Autorizado pela cor da pele, pelo dinheiro, pelo símbolo fálico da arma, pelo discurso da meritocracia e pela convicção de que sua presença em um bairro ou rua vale mais do que a de um gari. René é o retrato de um Brasil que naturalizou a violência como linguagem legítima dos privilegiados.

O sociólogo Loïc Wacquant, ao estudar as periferias urbanas dos Estados Unidos e da Europa, descreveu o fenômeno da “criminalização da pobreza”, em que o Estado abandona a política social e aposta na repressão como forma de controle. No Brasil, vamos além: não apenas se pune a pobreza; legitima-se seu extermínio simbólico e, como neste caso, literal.

O assassinato de Laudemir é parte de um processo mais amplo de desvalorização da vida que se tornou estrutural. O filósofo Achille Mbembe define como necropolítica o regime em que o poder decide quem pode viver e quem deve morrer — ou quem pode ser morto sem que isso provoque indignação coletiva. No Brasil, essa decisão já foi tomada há muito tempo. E ela quase sempre pesa contra os mesmos: negros, pobres, favelados, indígenas, LGBTQIA+, trabalhadores invisíveis que mantêm de pé o que chamamos de civilização.

A seletividade da comoção é parte desse sistema. Se Laudemir fosse empresário, branco, de classe alta, talvez a indignação provocada por sua morte fosse maior, a cobertura da mídia mais ampla, o tom das autoridades mais contundente, e a resposta da sociedade mais veemente. Mas ele era “só um gari”, como já disseram tantos — e por isso sua morte, embora trágica, não choca como deveria.

Não passou despercebido o fato de que René se define como “cristão” em suas redes sociais. Essa apropriação da fé — muitas vezes reduzida a um identitarismo hipócrita — tem sido usada como escudo moral por aqueles que promovem ódio, desprezo e violência em nome de uma pretensa defesa da “família” e dos “bons costumes”.

Essa contradição grotesca foi denunciada pelo teólogo Leonardo Boff, que alerta: “o cristianismo que não se traduz em amor ao próximo, especialmente ao pobre, é ideologia, não fé”. Não se pode empunhar a cruz com uma mão e o revólver com a outra sem cair numa forma perversa de fundamentalismo, aquele que legitima o assassinato sob a desculpa de ordem, progresso ou honra.

O Brasil que arma suas elites é o mesmo que nega comida, moradia e dignidade à boa parte da população. Desde a ascensão do bolsonarismo, o país viu crescer um culto às armas como se fossem símbolos de liberdade — quando, na prática, são instrumentos de dominação, medo e morte. Como afirmou Angela Davis, “em uma sociedade racista, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista”. E eu acrescentaria: em uma sociedade armada, não basta ser pacífico. É preciso ser desarmamentista.

A prisão de René é necessária, mas não suficiente. O Brasil precisa discutir, com seriedade, a cultura de violência que produz homens como ele: que se acham donos das ruas, das vidas e dos corpos alheios. O mesmo país que prende por furto de margarina é, muitas vezes, complacente com o assassinato cometido por gente “de bem”.

É hora de romper com esse pacto silencioso que protege os violentos e criminaliza os vulneráveis. Isso exige repensar o sistema de justiça, enfrentar o racismo estrutural, desnaturalizar o ódio de classe e reconstruir a ideia de que toda vida tem valor — e que nenhuma é lixo.

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

Email

Facebook

Linkedin

O eco sombrio da tortura

Leia outros artigos da coluna: Ágora Digital

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Uma resposta para “Matou o gari e foi à academia”

  1. Maria F V Andrade disse:

    Eu sou de esquerda , professora aposentada e humana, o que posso dizer que esse assassino bolsonarista que usou o revólver da esposa delegada , para matar Laudemir , pois se irritou por estar com pressa e o gari fazia o seu serviço .Que pressa e essa que o autoriza a matar alguém ? Eu sei que foi preso horas depois malhando numa academia. Agora pergunto : como fica a família de Laudemir? E até quando esses Renes que se acham cristãos e sei lá mais o que vão continuar a matar ? Espero que o Estado faça a justiça de manter preso esse sujeito e se a arma era da esposa que ela responda pelo uso indevido dela pois sendo delegada , deveria cuidar da mesma e não deixar nas mãos de um psicopata

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *