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Teatro do Mundo
Entre partidas, ficções e a invenção de si no caminho
Publicado em 27/03/2026 1:41 - Fernando Lopes Lima
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Eu venho de um lugar
Como todos nós.
Mas durante muito tempo não soube dizer qual era o meu lugar no mundo.
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Passei grande parte da vida sem pertencer a coisa ou lugar algum. Sempre um intruso. Chegava, bagunçava, me inventava e partia. Nunca completamente em casa.
Às vezes parecia que eu tinha encontrado um porto seguro. Alguns poemas, alguns encontros, algumas pessoas. Mas logo percebia: não era porto. Era porta.
Porta para atravessar.
Porta para mudar.
Porta para seguir.
Aprendi cedo a me despedir.
Vida de artista de teatro.
Aprendi a deixar ir. Aprendi a partir. Cada despedida deixa uma marca, e cada encontro me transbordava em outro.
Hoje um.
Amanhã outro.
Ser humano é isso,
somos feitos de muitas versões de outros, dos que nos atravessam.
Na juventude eu corria. Corria como quem foge e como quem busca ao mesmo tempo. Eu acreditava com uma intensidade quase arrogante. Lembro bem: um dia eu acreditei que era o gênio do teatro brasileiro.
E isso era necessário.
Um menino pobre da zona oeste do Rio não podia ser pequeno demais. Para sair da lama é preciso juntar a força e a fé de um sol.
Eu era Deus.
E foi essa arrogância vital que me permitiu seguir.
Eu não acreditava em destino. Não acreditava em predestinação. Nasci para me libertar. Primeiro de mim mesmo. Depois de qualquer condição que tentasse me definir. Precisava sair voando antes que minhas asas fossem cortadas.
No caminho fui atravessado por uma quantidade impossível de seres humanos. Professores, amigos, amantes, artistas, pensadores, desconhecidos. Um povo inteiro habita em mim.
Os estudos, os encontros, a filosofia, as artes, a ciência, as experiências — tudo isso virou pedra de calçamento da estrada que ainda caminho.
Tem muitas pedras no caminho, Drumond.
Foi então que descobri uma coisa perigosa e libertadora:
eu podia dar o sentido que quisesse para a vida que
não fazia sentido.
Vários sentidos.
Ou sentido algum.
Aprendi também que toda vez que eu tivesse certeza demais, estaria perdido. Mas estar perdido é, talvez, a única maneira verdadeira de se encontrar. Então, eu vivia me perdendo.
Aprendi que não existe “lá, lá”.
Não existe esse lugar final onde tudo se resolve.
O que existe é o caminho.
E o que fazemos com a vida enquanto caminhamos.
Talvez Deus não exista.
Tudo é ficção.
Parafraseando Spinoza: somos todos ficcionistas vivendo dentro de uma ficção.
E talvez seja por isso que a arte exista.
Para criar mundos.
Para inventar sentidos.
Para lembrar que viver também é um ato de imaginação.
Hoje, depois da corrida necessária da juventude, vivo outra estação.
Não parei de caminhar.
Mas encontrei algo que antes me escapava:
um tipo de calma.
Não a calma da chegada — porque aprendi que não há chegada.
Mas a calma de quem entendeu que o caminho se faz no caminho.
E que criar, viver e seguir
são, no fundo,
a mesma coisa.
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–
FERNANDO LOPES LIMA
É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.
Estação Cultural Teatro do Mundo
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