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Teatro do Mundo
Um ensaio filosófico sobre a dimensão simbólica do ser
Publicado em 20/03/2026 2:11 - Fernando Lopes Lima
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Negar a arte é amputar do ser humano aquilo que o distingue fundamentalmente dos outros animais: a capacidade de transcender a mera existência biológica por meio da criação simbólica. A arte não é um ornamento da vida, mas sua própria expressão mais profunda. Ela constitui a linguagem pela qual o ser humano interpreta, recria e expande o mundo, dando forma ao invisível e sentido ao indizível.
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Desprezar a arte, portanto, não é um gesto neutro ou meramente estético — é um sintoma avançado de desumanização. Quando a sensibilidade artística é rebaixada, o que está em jogo é a própria capacidade de imaginar, questionar e escolher. Uma sociedade que perde o contato com a arte perde também sua autonomia interior, tornando-se mais suscetível à repetição, à obediência e à dominação.
Nesse contexto, a negação da arte por parte do Estado não deve ser compreendida como simples negligência, mas como um ato ideológico. Ao limitar o acesso à produção e fruição artística, restringe-se o horizonte simbólico da população. E quanto mais estreito esse horizonte, mais facilmente se controla o pensamento. A diminuição da capacidade crítica e imaginativa não é um efeito colateral — é um objetivo político. A mente que não cria é a mente que aceita.
A arte, por sua própria natureza, é um movimento de expansão. Ela rompe limites, tensiona estruturas e abre novas possibilidades de existência. Por isso, frequentemente entra em conflito com forças conservadoras que buscam estabilizar significados e preservar hierarquias. Não se trata de afirmar que toda arte seja revolucionária em conteúdo, mas de reconhecer que sua essência é transformadora. A arte não se acomoda: ela inquieta.
A ideia de que a arte participa da própria invenção do humano revela sua centralidade. Ao criar personagens, narrativas e formas de expressão, a arte não apenas reflete a condição humana — ela a constrói. O ser humano aprende a ser humano por meio das histórias que conta e das imagens que produz. Nesse sentido, a cultura não é um produto secundário da sociedade, mas sua dimensão simbólica fundamental.
Cultura é a capacidade de criar o que não existe. É o gesto inaugural de romper com o dado e projetar o possível. Essa potência criadora é o motor do avanço humano, seja na ciência, na filosofia ou na organização social. Diferentemente dos outros animais, o ser humano não apenas se adapta ao mundo: ele o reinventa.
Entretanto, os processos de desumanização seguem uma lógica progressiva. Primeiro, despreza-se o corpo — sua expressão, sua liberdade, sua potência. Em seguida, despreza-se a alma — entendida aqui como a interioridade sensível, a imaginação, o pensamento crítico. Quando essas dimensões são enfraquecidas, abre-se espaço para a instalação de formas autoritárias de poder que se alimentam da apatia e da fragilidade interior.
O fascismo, nesse sentido, não surge apenas como um fenômeno político, mas como uma disposição subjetiva. Ele encontra terreno fértil em indivíduos que perderam o vínculo com sua própria humanidade — com seu corpo, sua sensibilidade e sua capacidade de imaginar o outro. Por isso, combater a desumanização exige mais do que resistência política: exige uma revalorização radical da arte e da cultura.
É preciso, portanto, enfrentar não apenas as estruturas de opressão, mas também a frivolidade e a indiferença que corroem silenciosamente a vida coletiva. A indiferença é o oposto da arte. Onde a arte mobiliza, a indiferença paralisa. Onde a arte cria, a frivolidade esvazia.
Defender a arte é defender a complexidade do humano. É afirmar que a vida não se reduz à utilidade, que o pensamento não se limita ao cálculo e que a existência não se esgota na sobrevivência. A arte é, em última instância, o alimento da cultura — e a cultura, o solo onde se forma o sujeito que, por sua vez, forma a sociedade.
Sem arte, não há imaginação. Sem imaginação, não há liberdade. E sem liberdade, resta apenas a repetição do mesmo — a negação do humano em sua forma mais profunda.
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FERNANDO LOPES LIMA
É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.
Estação Cultural Teatro do Mundo
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