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Teatro do Mundo
E sentir — profundamente, sem atalhos — é um gesto revolucionário
Publicado em 11/04/2026 12:31 - Fernando Lopes Lima
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Num tempo em que tudo pode ser interrompido, pulado, acelerado ou descartado com um gesto mínimo, sentar-se diante de uma peça é escolher permanecer. Permanecer no desconforto, na dúvida, na provocação. Permanecer diante de si mesmo. E isso não é fácil.
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Ir ao teatro é aceitar o pacto do encontro — sem garantias, sem filtros, sem algoritmos que suavizem o impacto. É abrir mão do controle e permitir que algo te atravesse. Às vezes com riso, às vezes com dor, muitas vezes com ambos. Porque o teatro não existe para agradar: ele existe para revelar.
O entretenimento distrai, ocupa, engorda o tempo. A arte, não. A arte nutre. A arte desloca. A arte rasga o tecido do óbvio e expõe aquilo que preferimos esconder. Por isso ela incomoda. Por isso ela é combatida. Porque um indivíduo tocado pela arte já não aceita o mundo da mesma forma — ele vê, ele sente, ele questiona.
Ir ao teatro é um exercício de liberdade.
Ali, naquele espaço invisível que se constrói entre palco e plateia, acontece algo raro: a verdade em estado bruto. Não a verdade absoluta, mas a verdade viva, pulsante, contraditória. A verdade que não cabe em discursos prontos. E quando ela acontece, ninguém sai ileso.
O público não sai o mesmo.
Os atores não saem os mesmos.
O instante não se repete.
Há dias em que você se pergunta: “o que estou fazendo aqui?”. E há dias em que algo se acende — um gesto, uma palavra, um silêncio — e aquilo te atravessa de tal forma que você esquece o tempo, o lugar, o mundo. E quando volta, já não é exatamente quem era.
É por isso que batemos palmas.
Não apenas para reconhecer, mas para segurar o instante que escapa.
Para dizer: “eu estive aqui, eu vi, eu senti”.
E é por isso que os atores se curvam.
Não como quem encerra, mas como quem se entrega.
Como quem reconhece que também foi atravessado.
Ir ao teatro é perder-se para, talvez, encontrar-se.
É encarar o caos e sair com mais força.
É reduzir a própria vulnerabilidade não pela fuga, mas pelo enfrentamento.
Ir ao teatro é um ato político.
Um ato íntimo.
Um ato necessário.
Porque enquanto houver alguém disposto a sentar e ver,
e alguém disposto a se expor e criar,
a liberdade ainda respira.
Ir ao teatro é, acima de tudo, escolher sentir.
E sentir — profundamente, sem atalhos — é um gesto revolucionário.
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FERNANDO LOPES LIMA
É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.
Estação Cultural Teatro do Mundo
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