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Ágora Digital

Espelho, espelho meu

Um adolescente mimado manda no país mais poderoso do planeta, e ele quer o Nobel da Paz

Publicado em 30/09/2025 3:23 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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Seria cômico, não fosse sintomático. Donald Trump, autoproclamado pacificador mundial e aspirante ao Prêmio Nobel da Paz, parece ter confundido a honraria com um troféu de reality show. Em tom dramático — ou, talvez, tragicômico — o presidente norte-americano declarou nesta terça-feira (30) que seria um “grande insulto” aos Estados Unidos se ele não fosse laureado com o prêmio mais simbólico da diplomacia internacional. A cena ocorreu durante uma reunião com oficiais militares de alto escalão, onde Trump, em um monólogo narcisista, perguntou a si mesmo se ganharia o Nobel e, como um adolescente em frente ao espelho, respondeu: “De jeito nenhum. Eles o darão a um sujeito que não fez absolutamente nada”.

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A frase, que poderia ser atribuída a um personagem de Veep ou The Office, é real — e escancara o teatro de vaidades que se instalou no coração da política norte-americana desde a ascensão de Trump. Mais do que um delírio de grandeza, trata-se de um projeto político que instrumentaliza o ego como motor de ação. Não é apenas uma busca por reconhecimento: é uma tentativa de reescrever a história com tintas douradas de uma paz que nunca foi promovida.

O Prêmio Nobel da Paz, como definiu Alfred Nobel em seu testamento, deve ser concedido “à pessoa que mais tenha contribuído para a fraternidade entre as nações, para a abolição ou redução de exércitos permanentes, e para a promoção de congressos pacíficos” — uma definição, convenhamos, que se encaixa em Trump com a delicadeza de um elefante em uma loja de porcelanas.

Trump tem marcado seu segundo mandato por um rastro de tensões geopolíticas, retiradas abruptas de acordos multilaterais, ameaças bélicas á desafetos e um incentivo deliberado ao nacionalismo tóxico. Segundo o historiador Timothy Snyder, professor de Yale e autor de Sobre a tirania, Trump “não apenas encorajou ideias autoritárias; ele tentou aplicá-las em um contexto democrático, corroendo os próprios pilares da república americana”.

Sob a ótica da psicologia, o comportamento de Trump revela traços consistentes de narcisismo patológico. Como observa o psicólogo e professor da Universidade de Harvard, Craig Malkin, “narcisistas vulneráveis são inseguros, hipersensíveis à crítica e obcecados por validação”. Trump age como um adolescente em busca de curtidas: sua compulsão por aplausos o leva a transformar a política em espetáculo — com ele próprio no centro do palco, claro.

O pedido implícito pelo Nobel, revestido de indignação moral, não é apenas uma manifestação de vaidade; é uma tentativa de reafirmação narcísica diante de um mundo que, para ele, gira ao redor de sua imagem. O mesmo mundo que ele tem contribuido ativamente para desestabilizar.

É verdade que líderes de países como Israel, Paquistão e Camboja expressaram apoio a uma eventual nomeação de Trump. E até mesmo o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou que indicaria o ex-presidente caso ele efetivamente encerrasse a guerra na Ucrânia. Mas há uma diferença abissal entre o “e se” diplomático e a realidade dos fatos.

A retórica de paz de Trump sempre foi performática, marcada por acordos com interesses geoestratégicos e pouca substância duradoura. Os chamados “Acordos de Abraão”, assinados em 2020 entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, foram celebrados como um triunfo diplomático. No entanto, tais tratados ocorreram sob uma lógica de alianças militares e econômicas contra o Irã — não exatamente um gesto desinteressado de reconciliação. A atual proposta de paz entre Israel e o Hamas, da mesma forma, interessa somente ao sionismo e ao próprio Trump, deixando de fora as principais vítimas: os palestinos.

Como ironizou a jornalista e analista política Rachel Maddow, da MSNBC: “Trump não busca a paz. Ele busca o crédito”. E há uma diferença fundamental entre esses dois projetos.

A democracia americana, por sua vez, não saiu ilesa. O trumpismo colocou em xeque as instituições, deslegitimou a imprensa livre, incentivou teorias conspiratórias e alimentou o supremacismo branco — passando do episódio infame da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 até o uso político do assassinato do extremista de direita Charlie Kirk. Não à toa, o politólogo Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, alertou: “Trump não inventou a polarização, mas foi o primeiro presidente moderno a abandonar as normas democráticas básicas em benefício próprio”.

Fora dos Estados Unidos, sua retórica foi instrumentalizada por líderes autoritários, de Viktor Orbán a Jair Bolsonaro, que viram no ex-presidente americano uma autorização simbólica para o desmonte de políticas sociais, ambientais e de direitos humanos.

Premiar Trump com o Nobel da Paz seria, de fato, um grande insulto — mas não aos Estados Unidos, e sim ao próprio ideal de paz. A premiação, que já reconheceu figuras como Martin Luther King Jr., Desmond Tutu, Malala Yousafzai e Nelson Mandela, não pode ser reduzida a uma moeda simbólica para bajular líderes narcisistas em busca de validação.

Trata-se de um símbolo de esperança, de resistência e de diálogo. Algo que Trump — com seus muros, seus tweets beligerantes e seu culto ao “eu” — jamais entendeu.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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