Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Proposta prevê reconstrução de Gaza sob comando estrangeiro, ignora soberania palestina e transforma solução de dois Estados em promessa vazia
Publicado em 30/09/2025 1:09 - Semana On e Opera Mundi
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Anunciado como um esforço para encerrar a guerra em Gaza, o plano de paz apresentado por Donald Trump exclui os próprios palestinos das decisões sobre o futuro de seu território. O projeto propõe a reconstrução de Gaza sem participação efetiva das lideranças locais, não menciona a criação de um Estado palestino e ignora, por completo, a soberania da Palestina sobre suas terras.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A proposta, que recebeu apoio de diversos países ocidentais e árabes, soa como um ultimato: ou os palestinos aceitam a tutela externa sobre seu território, ou seguem submetidos ao impasse político e à política de ocupação militar e genocídio promovida pelos israelenses. Nem mesmo o nome do presidente palestino Mahmoud Abbas aparece nos 20 pontos do plano. Não há menção à criação de um Estado palestino, tampouco à unificação política entre Gaza e a Cisjordânia – objetivo historicamente defendido por resoluções da ONU e pelos próprios palestinos.
Segundo o plano, a reconstrução de Gaza será conduzida por uma autoridade internacional transitória, a Gaza International Transitional Authority (GITA). Embora a entidade tenha um nome formal, ela não contempla uma estrutura de soberania legítima: contará com apenas um palestino, e ainda assim, limitado a funções técnicas nas áreas de segurança ou finanças, sem qualquer mandato popular. A liderança será estrangeira, com o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair à frente — representante do mesmo Reino Unido que, em 1917, através da Declaração Balfour, deu os primeiros passos formais para o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina, sem consulta aos árabes locais.
A ausência de palestinos no comando da GITA não é um detalhe. É a própria essência da proposta. Nem mesmo figuras ou instituições que se opõem ao Hamas foram convidadas a participar do conselho de reconstrução. A sinalização é clara: o futuro de Gaza será decidido por atores externos, majoritariamente empresários e representantes de países muçulmanos, sem envolvimento de lideranças nacionais.
“A proposta reflete a posição israelense em seus detalhes mais precisos”, afirmou Muhammad Mardawi, alto funcionário do Hamas, à Al Jazeera. Segundo ele, o grupo ainda não recebeu o plano “por escrito e de forma clara” e advertiu que o documento “deve estar nas mãos do Hamas e das organizações palestinas” antes de qualquer deliberação.
O plano também não foi apresentado à Autoridade Palestina (AP) com antecedência. Ainda assim, em nota oficial divulgada pela agência Wafa, a AP saudou os esforços “para acabar com a guerra”, mas deixou explícita a expectativa de que qualquer acordo leve à reunificação institucional das regiões palestinas e à retirada israelense completa.
A AP também pediu o “estabelecimento de mecanismos que protejam o povo palestino, garantam o respeito ao cessar-fogo e a segurança de ambas as partes, impeçam a anexação de terras e o deslocamento de palestinos, interrompam ações unilaterais que violam o direito internacional, liberem fundos fiscais palestinos, levem a uma retirada israelense total e unifiquem terras e instituições palestinas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental”.
Críticos mais contundentes, como Ziyad al-Nakhalah, secretário-geral da Jihad Islâmica Palestina, afirmaram que se trata de “um acordo americano-israelense completo” e alertaram para o risco de novos conflitos caso se tente “impor realidades” sem o consentimento dos povos diretamente afetados.
Reações
Em declaração conjunta, os chanceleres de oito países – Catar, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Paquistão, Turquia, Arábia Saudita e Egito – saudaram a “liderança e os esforços sinceros” de Trump e se comprometeram a trabalhar de forma construtiva para implementar o acordo. “Os ministros saúdam o anúncio do Presidente Trump sobre sua proposta para acabar com a guerra, reconstruir Gaza, impedir o deslocamento do povo palestino e avançar em direção a uma paz abrangente, bem como seu anúncio de que não permitirá a anexação da Cisjordânia”, afirmam.
O presidente turco Recep Tayyip Erdogan elogiou “os esforços e a liderança do presidente dos EUA, Donald Trump, com o objetivo de deter o derramamento de sangue em Gaza e alcançar um cessar-fogo”. E acrescentou que a Turquia continuará apoiando o processo diplomático para estabelecer “uma paz justa e duradoura aceitável para todas as partes”.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, escreveu no X estar “convencido de que uma paz duradoura entre o povo palestino e Israel seria essencial para trazer estabilidade política e crescimento econômico para a região”. Disse acreditar “firmemente que o presidente Trump está totalmente preparado para ajudar de todas as maneiras necessárias para tornar esse entendimento extremamente importante e urgente uma realidade”, e elogiou a liderança de Trump e “o papel vital desempenhado pelo enviado especial Steve Witkoff para acabar com esta guerra”.
China, Índia, UE
O premiê da Índia, Narendra Modi, também saudou o acordo. Em sua avaliação, a proposta “abre o caminho para a paz, segurança e desenvolvimento sustentável de longo prazo para Israel, Palestina e região. Esperamos que todas as partes interessadas se unam em torno da iniciativa do presidente Trump e apoiem esse esforço para acabar com o conflito e estabelecer a paz”.
Da China, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, declarou que o país “saúda e apoia todos os esforços conducentes para aliviar as tensões entre a Palestina e Israel.”
Na União Europeia, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que “a situação em Gaza é intolerável” e que “as hostilidades devem acabar e todos os reféns devem ser libertados imediatamente”. Ele disse que “os povos israelense e palestino merecem viver lado a lado, em paz e segurança, livre de violência e terrorismo” e que “uma solução de dois Estados continua sendo o único caminho viável para uma paz justa e duradoura no Oriente Médio”.
Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que “a UE está pronta para contribuir” e que “as hostilidades devem terminar com o fornecimento de ajuda humanitária imediata à população em Gaza e com todos os reféns libertados imediatamente.”
Líderes europeus
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou esperar que “Israel se envolva resolutamente” nesta plano. “O Hamas não tem escolha a não ser libertar imediatamente todos os reféns e seguir este plano. Esses elementos devem abrir caminho para discussões aprofundadas com todos os parceiros relevantes para construir uma paz duradoura na região, com base na solução de dois Estados e nos princípios endossados por 142 Estados membros da ONU, por iniciativa da França e da Arábia Saudita”.
Da Alemanha, o chanceler Johann Wadephul chamou a proposta de “oportunidade única para acabar com a guerra horrível”. E complementou: “finalmente, há esperança para israelenses e palestinos de que esta guerra possa acabar em breve. Esta oportunidade não deve ser desperdiçada. O Hamas deve aproveitá-la. Peço a todos aqueles que podem influenciar o Hamas a fazê-lo agora.”
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também se declarou. “Pedimos a todos os lados que se unam e trabalhem com o governo dos EUA para finalizar este acordo e torná-lo realidade. O Hamas deve agora concordar com o plano e acabar com a miséria, depondo as armas e libertando todos os reféns restantes”, disse. Já o ex-premiê Tony Blair, nomeado por Trump para o “Conselho de Paz” para Gaza, disse que o plano é “ousado e inteligente” e capaz de trazer alívio imediato a Gaza e garantir segurança duradoura a Israel.
A premiê da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que a proposta “poderia marcar um ponto de virada, permitindo uma cessação permanente das hostilidades, a libertação imediata de todos os reféns e acesso humanitário total e seguro para a população civil”. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez também postou uma declaração no X: “devemos acabar com tanto sofrimento. É hora de cessar a violência, de a libertação imediata de todos os reféns e de fornecer ajuda humanitária à população civil. A solução de dois Estados, Israel e Palestina, vivendo lado a lado em paz e segurança, é a única possível”, afirmou.
Nos Países Baixos, o chanceler David van Weel destacou ser “significativo que Israel tenha aceitado este plano. Isso continua sendo crucial para garantir a libertação dos reféns, aumentar drasticamente a quantidade de ajuda humanitária e alcançar uma paz duradoura no Oriente Médio. Estamos ansiosos para ver mais detalhes do plano. A Holanda continua comprometida em acabar com a guerra em Gaza”.
O premiê da Austrália, Anthony Albanese, afirmou que o país apoia firmemente a proposta: “a Austrália afirma o compromisso do plano de negar ao Hamas qualquer papel na futura governança de Gaza e pede ao Hamas que concorde com o plano, deponha as armas e liberte todos os reféns restantes.”
Nos bastidores
Enquanto isso, nos bastidores, americanos e israelenses continuam rejeitando o reconhecimento da soberania palestina. Durante a formulação do plano, os dois governos boicotaram uma conferência na ONU voltada ao apoio à causa palestina. O presidente Abbas, num gesto que simboliza o grau de deslegitimação imposto ao seu governo, foi impedido de viajar aos Estados Unidos.
Para estudiosos do Oriente Médio, o plano representa mais um passo na consolidação de uma política de fato consumado. “É uma proposta que institucionaliza o apartheid territorial e político. Um povo sem controle sobre suas fronteiras, seus recursos, seu espaço aéreo e sua autodeterminação não pode ser chamado de livre nem de soberano”, avalia Rashid Khalidi, historiador palestino-americano e professor da Universidade de Columbia, em seu livro The Hundred Years’ War on Palestine (2020).
O mais preocupante, no entanto, não está na disputa de narrativas internacionais. Está na ausência de qualquer garantia institucional para a criação de um Estado palestino. Se implementado, o plano de Trump poderá consolidar Gaza como uma espécie de protetorado internacional desprovido de soberania — e transformar em peça de museu a já fragilizada ideia de uma Palestina livre e unificada.
Reações em Israel
Em Israel, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, pediu a Netanyahu que rejeitasse a proposta: “o senhor não tem mandato para encerrar a guerra sem a derrota completa do Hamas”, salientou. Ele e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ameaçaram sair da coalização do governo caso a guerra seja encerrada. O líder da oposição, Yair Lapid, afirmou que “não há motivo para se alarmar com as ameaças vazias de Ben Gvir e Smotrich”. Em postagem na plataforma X, ele disse que “o plano do presidente Trump é a base correta para um acordo de reféns e o fim da guerra”.
O parlamentar israelense, também da oposição, Benny Gantz elogiou Trump e disse que a proposta é uma oportunidade de libertar os reféns mantidos. “Não podemos perder novamente a oportunidade de devolver nossos reféns, proteger nossa segurança e alcançar uma mudança estratégica que, mais tarde, também levará a uma normalização ampliada. Não permitiremos que politicagens mesquinhas descarrilem o plano.”
Para coibir oposição, Trump classifica Antifa como “terrorismo”
Deixe um comentário