Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

26/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Ágora Digital

Meus 10 cents sobre Charlie Kirk

Racista, xenófobo, misógeno, homofóbico: reconhecer isso não relativiza sua morte brutal, mas impede que sua biografia se torne álibi para normalizar o ódio

Publicado em 13/09/2025 10:36 - Victor Barone

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O brutal assassinato de Charlie Kirk, ativista de extrema direita e figura central no discurso conservador radical norte-americano, é inaceitável sob qualquer perspectiva ética ou democrática. A violência política, venha de onde vier, deve ser firmemente condenada, pois mina os próprios fundamentos do Estado de Direito e abre precedentes perigosos para a legitimação da força como substituto do debate.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

No entanto, é igualmente necessário resistir à tentação — comum em contextos pós-morte — de reescrever ou diluir o legado de quem foi, em vida, um dos principais propagadores contemporâneos do racismo disfarçado de “liberdade de expressão”, da misoginia travestida de “valores familiares”, da xenofobia justificada por “orgulho nacional”, da homofobia embalada como “liberdade religiosa” e do fundamentalismo religioso vendido como “tradição moral”.

Charlie Kirk não foi um mero polemista ou provocador — foi uma figura estratégica na articulação de discursos que legitimam a exclusão, a intolerância e o retrocesso civilizatório. Reconhecer isso não é fazer apologia à sua morte, mas impedir que sua biografia se torne um álibi para normalizar o ódio que ajudou a semear. A crítica ao extremismo não pode ser seletiva: ela deve ser feita com firmeza e coerência — inclusive e principalmente quando o extremista é vítima da violência que, paradoxalmente, ajudou a alimentar com palavras.

A defesa irrestrita da liberdade de expressão, quando usada para justificar discursos de ódio, racismo, misoginia, homofobia, xenofobia e fundamentalismo religioso, revela uma compreensão distorcida do próprio conceito de liberdade. Esses discursos não ampliam o debate democrático — ao contrário, minam suas bases ao atacar a dignidade de grupos inteiros e promover a intolerância.

Ideias não são inofensivas apenas por estarem restritas ao campo do discurso — ao contrário, têm o poder de moldar comportamentos, legitimar violências e estruturar realidades excludentes. A história mostra que grandes atrocidades começaram com palavras: antes da perseguição física, veio a desumanização retórica. Quando um discurso sustenta que determinados grupos são inferiores, ameaçadores ou indignos de direitos, ele prepara o terreno para ações concretas de exclusão, violência e até extermínio. A retórica do ódio não precisa mandar diretamente que alguém cometa um ato violento; basta naturalizar a ideia de que certas vidas valem menos. Ao subestimar o poder das palavras, corre-se o risco de ignorar como elas funcionam como armas simbólicas que autorizam, encorajam e até instruem práticas de discriminação e opressão.

Nesse sentido, não se pode ignorar o impacto de declarações de Charlie Kirk como a relativização da escravidão e do racismo, postura que minimiza séculos de violência estrutural e suas consequências atuais. Ao dizer que “os democratas estão tentando substituir os eleitores brancos por eleitores do terceiro mundo”, em clara adesão à teoria conspiratória do “grande substituição”, frequentemente usada por supremacistas brancos;  que a diversidade é “uma ameaça à unidade nacional”, que pessoas trans são uma “mentira perigosa” e que “a comunidade transgênero é um culto demoníaco”; que “mulheres devem obedecer a papéis tradicionais bíblicos” ou que “mulheres que tomam anticoncepcional se tornam amargas e infelizes”; ao sugerir que “imigrantes ilegais estão destruindo o país”, reforçando estigmas que desumanizam milhões de pessoas, muitas vezes em situação de extrema vulnerabilidade, ao dizer que os palestinos “não existem enquanto povo” Kirk não está apenas emitindo opiniões polêmicas — ele fomenta uma visão de mundo em que certos corpos, culturas e formas de existir são tratados como desvios a serem combatidos. Essas ideias, propagadas com naturalidade e disfarçadas de patriotismo ou fé, ajudam a consolidar um imaginário social onde o ódio se traveste de virtude — e a violência deixa de ser exceção para se tornar método. Não são apenas opiniões: são catalisadores de um ambiente social cada vez mais hostil, violento e polarizado.

O filósofo Karl Popper já alertava, no célebre “paradoxo da tolerância”, que uma sociedade verdadeiramente tolerante não pode tolerar o intolerável, sob o risco de ser destruída por ele. Ou seja, permitir a propagação de ideias que pregam a eliminação do outro, em nome da liberdade de expressão, é abrir espaço para o fim da própria liberdade. Não se trata de censura, mas de responsabilidade democrática: é preciso reconhecer que o discurso de ódio não é uma opinião — é uma ameaça.

Quando figuras públicas com amplo alcance disseminam visões racistas, misóginas, xenofóbicas, homofóbicas e fundamentalistas, elas não só validam preconceitos já existentes, como também inflamam tensões sociais que resultam, cada vez mais, em episódios de violência concreta. O cenário norte-americano dos últimos anos é alarmante: de 2017 a 2024, vimos desde atentados contra políticos — como o tiro que quase matou Donald Trump em plena campanha, o assassinato brutal de uma deputada estadual de Minnesota e seu marido, a invasão violenta ao Capitólio em 2021, até o espancamento de Paul Pelosi — até o crescimento preocupante da aceitação da violência como ferramenta política. Segundo pesquisa da FIRE, 34% dos universitários norte-americanos dizem aceitar o uso da força para impedir discursos com os quais discordam — um salto de 10 pontos em apenas três anos. Isso mostra que a retórica extrema não fica restrita ao campo das ideias: ela infiltra o tecido social, legitima o ódio e desumaniza o outro. Charlie Kirk, ao se apresentar como defensor da “liberdade” e da “ordem”, desempenhou o papel exato oposto — foi uma usina de ressentimento e radicalização. É preciso reconhecer que, em contextos já tensos, palavras são fósforos jogados sobre pólvora.

Finalmente, é preciso dizer que há uma tendência recorrente nas sociedades ocidentais de suavizar ou até romantizar a trajetória de figuras públicas que, em vida, foram abertamente racistas, misóginas, xenófobas, homofóbicas ou defensoras de fundamentalismos religiosos. Após a morte, essas pessoas são frequentemente alçadas à condição de “personagens históricas complexas”, num esforço de reabilitação simbólica que ignora ou minimiza os impactos reais de suas ideias. Esse fenômeno pode ser compreendido, do ponto de vista sociológico, como uma estratégia coletiva de manutenção da ordem simbólica — ao evitar o confronto direto com os legados de ódio, a sociedade preserva mitos fundadores e evita rupturas incômodas em sua narrativa histórica. Do ponto de vista psicológico, trata-se de um mecanismo de defesa social conhecido como negação moral, em que a morte funciona como um “rito de purificação simbólica”, tornando mais palatável a lembrança de figuras que, de outra forma, exigiriam condenação ética. Ao ressignificar o passado para não enfrentá-lo, a sociedade perpetua o risco de repetir seus erros.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

Email

Facebook

Linkedin

Leia outros artigos da coluna: Ágora Digital

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *