22/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

O corpo nu da mulher ainda é um tabu

Publicado em 10/10/2014 12:00 - Cristina Livramento

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O empresário Sérgio Henrique Alves, 23, suspeito de divulgar vídeos de sexo com a ex-namorada de 20 anos aceitou, essa semana, um acordo proposto pelo Ministério Público de Goiás. Ele vai prestar serviços comunitários por cinco meses. Ela e outras mulheres, anônimas e famosas, fazem parte da estatística de vítimas de ex-namorados e hackers que, por diferentes motivos, expõe a intimidade delas na internet.

O que chama a atenção é a reação de duas vítimas recentes desse tipo de crime. A estudante brasileira e a atriz americana Jennifer Lawrence, ao constatarem o constrangimento, tomaram uma postura que deveria ser do autor. A estudante disse ao site G1 “eu não cometi nenhum crime” e a atriz, para a revista Vanity Fair, desabafou “comecei a escrever um pedido de desculpas, mas eu não tenho nada para pedir desculpas”.

Independente da nacionalidade ou nível social fica claro o quanto nossa sociedade é machista e o quanto, nós mulheres, ainda somos reféns dessa cultura. Ninguém fica preocupado com o vídeo ou as fotos de um homem nu publicados na internet. Não acontece um alvoroço na vida de ninguém. Mas, nós mulheres nos sentimos atingidas da pior maneira, como se nós fossemos as únicas responsáveis pela divulgação da intimidade. A primeira coisa é se justificar e a segunda, pedir desculpas.

A estudante goiana chegou a dizer para o G1 que pessoas a ofenderam virtual e moralmente. “Muita gente me chamou de vadia, prostituta”. O empresário, suspeito de ter publicado o vídeo, é casado e tem uma filha com a esposa. Alves alegava que a estudante nutria um amor platônico por ele. Se bem que nunca ouvi falar em amor platônico com conjunção carnal e vídeo na internet.

É urgente preparar futuras gerações para que respeitem a liberdade do outro e que a nudez seja vista com normalidade. É urgente separar a nudez, de uma vez por todas, do maldito discurso do pecado que transforma vítimas em culpadas.

Quem é que não faz algum tipo de registro mais íntimo de uma relação? Me arrisco a dizer que 80% das pessoas se valem dos recursos tecnológicos disponíveis para fotografar, filmar e compartilhar a intimidade. Esses mesmos 80% são possíveis reféns do momento de paixão e confiança depositadas no outro. Erramos porque somos humanos e temos desejos porque somos saudáveis. Mas a vida é como a física, toda ação tem uma reação e a gente se esquece dessa parte prática.

No blog do delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, especialista em crimes cibernéticos, Emerson Wendt, há uma publicação sobre “Como evitar e enfrentar os casos de pornografia por vingança”. A dica básica, segundo o delegado, é “não se permitir fotografar ou filmar nua ou em situações íntimas” e se fizer “evitar a filmagem ou foto de seu rosto ou de partes do corpo que possam identificá-la(o), como tatuagens etc”.

Para que fique mais claro ainda a hipocrisia e o machismo, o novo comissário da União Europeia (UE) para Economia e Sociedade Digitais chamou as 80 celebridades, que tiveram fotos nuas divulgadas na internet, de “tolas”. "Se alguém, enquanto celebridade, é estúpida o bastante para tirar uma foto nua de si mesma e colocá-la online, com certeza não poderá esperar que nós iremos protegê-la".

Oettinger disse essa e outras pérolas durante encontro em Bruxelas, nesta semana. Um porta-voz dele disse à BBC que não pediria desculpas pelos comentários. Ele é ex-comissário de Energia da EU e assume o novo cargo em novembro. Para a revista alemã Der Spiegel, os comentários demonstram que Oettinger "não tem ideia dos acontecimentos e problemas atuais no centro" de seu novo trabalho.

Apesar do ex-comissário da UE dizer que “estupidez é uma coisa da qual as pessoas não podem ser salvas – ou talvez parcialmente”, é importante manter a discussão sobre o assunto. É urgente preparar futuras gerações para que respeitem a liberdade do outro e que a nudez seja vista com normalidade. É urgente separar a nudez, de uma vez por todas, do maldito discurso do pecado que transforma vítimas em culpadas.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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