17/04/2024 - Edição 540

Conexão Brasília

Boi de Piranha

As Forças Armadas e as pontas soltas do plano de golpe de Estado de Bolsonaro

Publicado em 18/03/2024 12:21 - Rafael Paredes

Divulgação Reprodução

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A quebra do sigilo dos depoimentos dos ex-comandantes do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos Almeida Batista Júnior não deixam mais dúvidas de que o ex-presidente Jair Bolsonaro queria se perpetuar no poder, mesmo tendo perdido as eleições para o presidente Lula.

Ambos os militares confirmaram que Bolsonaro apresentou um plano estratégico burocrático para a ruptura do Estado Democrático. Segundo Batista Júnior, Freire Gomes ameaçou o ex-presidente de prisão se ele continuasse com os planos. Dos três ex-comandantes, os dois citados confirmaram que o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier Santos foi o único a colocar suas tropas a serviço das intenções golpistas.

O Exército, a Aeronáutica e a Marinha brasileiras são especialistas em encontrar bodes expiatórios para assumirem em seus respectivos CPF´s culpas dos seus CNPJ’s. As comissões e investigações que sempre trataram das intenções golpistas e crimes de Estado das nossas Forças Armadas ao longo da história, invariavelmente encontravam uma porta fechada para a justiça chamada excesso individual. As Forças Armadas Brasileiras têm, historicamente, na falta de algo mais importante para fazer, a missão de combater um suposto inimigo interno. Nas últimas décadas, foi o fantasma do comunismo que fez nossos militares deflagrarem um golpe de Estado em 1964. No final de mais de 20 anos de ditadura militar, ninguém foi responsabilizado, todos anistiados com a desculpa de que abusos e arbitrariedades ocorreram individualmente.

Nos depoimentos dos dois comandantes delatores existe a confirmação da reunião na qual a trama golpista foi discutida em 7 de dezembro de 2022. Dessa forma, dá para responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu ex-assessor para assuntos internacionais, já preso, Felipe Martins, e o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier pelo planejamento de um golpe de Estado. As informações cessam aí. É o acontecimento mais grave da história política brasileira desde a redemocratização. Porém, a história continuou e um mês e um dia depois, no dia 08 de janeiro de 2023, houve inegavelmente a tentativa de golpe com o ex-presidente fora do país e o ex-comandante já fora do cargo.

Todos os indícios levam a crer que o ataque terrorista e golpista do dia 8 de janeiro foi arquitetado, planejado, incitado, financiado e seus participantes participaram de treinamentos militares para as ações que todos acompanharam pela televisão. Com pequena parte dos terroristas presos, esses afirmavam que vieram de fora de Brasília, que estavam concentrados na frente de quartéis do Exército e que recebiam a informação de que, ao invadiram as sedes dos Três Poderes, seria decretada uma GLO e o Exército assumiria o poder.

Há algumas pontas soltas aí. Se os comandantes do Exército e da Aeronáutica barraram o golpe no dia 7 de dezembro de 2022, por que o plano continuou como se nada tivesse acontecido até o dia 8 de janeiro de 2023? Bolsonaro fora do país não teria nada a ver com o Dia da Infâmia? Os cabeças do movimento golpista perderam o controle dos seus liderados? Havia a certeza de que outras hierarquias das Forças desobedeceriam seus comandantes e embarcariam no golpe? Tudo que foi descoberto até agora é muito grave, mas ainda há muito a ser investigar. O ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, sabe disso e não acredita na lenda urbana do militar legalista.

RAFAEL PAREDES

É jornalista e atua em Brasília (DF).

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Rafael Paredes


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